segunda-feira, junho 04, 2007

O Brasil Aloprou-se

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, Blog Noblat

Na segunda-feira, 28 de maio de 2007, o plenário do Senado Federal, Câmara Alta de nosso Parlamento, estava lotado. Repito: era uma segunda-feira, dia em que se convencionou, junto com a sexta-feira, por obra e graça de espíritos iluminados, que nosso Congresso não precisa se reunir para dar andamento ao destravamento do país. Porém, nessa segunda, não havia cadeira vazia e mais, quando o orador começou a falar, fez-se um silêncio tumular. Ou melhor, como dizia um primo que não era o Altamirando, mas que tinha o mesmo espírito, ‘silêncio de quarto de motel’.

Divago, mas explico: quando alguém telefona de um local onde você só ouve a respiração de quem fala, ou a sua, pode acreditar, esse telefonema vem de um quarto hermeticamente fechado: ou túmulo, ou motel. Ou, lá vem a exceção, do plenário do Senado Federal, na tarde em que seu Presidente vai falar à Nação para explicar porque seu nome apareceu associado ao lobista de uma empreiteira.

Foi para isso que me sentei diante da televisão, para ouvir as explicações que me eram devidas pelo senhor Renan Calheiros, que ocupa esse posto graças aos votos de cidadãos como eu. Estava preparada para ouvir muita balela. Só não estava preparada para ouvir uma confissão de adultério, um ‘rasgar de alma’ diante de sua esposa que a tudo assistia vestida de negro, um incessante ‘gestante’ para se referir à mãe de sua filha caçula. Dizem que o senador falou por 25 minutos. Não me pareceram, faço-lhe esse cumprimento, o tempo passou voando, já que, de repente, fui surpreendida por um “a sessão está suspensa” e, como que por encanto, fui transportada para a Sicília.

Não sei se vocês ouviram. Eu ouvi. Mal suspenderam a sessão, sem intervalo algum, sem nem uma claquete para gravar a cena 2, uma longa fila se formou diante da mesa do Senado, por trás da cátedra que até segundos antes fora confessionário. E eu ouvi, à medida que aqueles senhores e senhoras prestavam seus respeitos ao senador Calheiros, a belíssima trilha sonora de Carmine Coppola para o filme de seu filho Francis.

Não posso dizer que perdi meu tempo. Foi tudo tão bem encenado, que, sinceramente, só posso dizer que valeu a pena. Paguei pelo ingresso um preço justo ao ver pessoas dos mais diversos tipos, origens, partidos, níveis de instrução, bolsos, altura, peso, respeitados e nem tanto, enfim, ver aquelas figuras ali, naquele ‘beija-mão’ próprio dos padrinhos de uma Sicília que já não é...ou que eu pensava que já não era. Ela existe. Transferiu-se. Veio para o lado de baixo do Equador, onde não existe pecado.

Quando as luzes do cinema se acenderam e os últimos acordes daquela música maravilhosa cessaram, voltei à realidade e lembrei-me que explicações mesmo, explicações sobre a ligação do senador com o lobista, qual o motivo do uso de um lobista para fazer um serviço que os bancos prestam muito bem, e com enorme discrição, isso, o confessando não confessou.

The End. O filme terminou. A crítica foi entusiasta. Estavam todos muito satisfeitos com a confissão do senador. Entretanto, como não houve sucesso de público, parece que estão remontando o filme. Voltou para a sala de corte e um novo diretor foi chamado, que já encarregou uma nova e aguerrida roteirista, e outro montador, para ver se na reestréia as filas que vão se formar serão mais consistentes, incluindo, alem dos críticos, o povo, aquele que paga a entrada.

Um detalhe porém não pode ficar esquecido. A não ser que transformem essa obra siciliana numa comédia de Frank Capra, o filme vai criar um enorme problema para o Departamento de Justiça e Classificação Indicativa (Dejus), do Ministério da Justiça. Vão ficar sem saber se podem ou não conceder o tal Selo de Recomendação, se é caso de proibir ou de estimular, se deve ou não haver idade limite. Por um lado, o filme menciona adultério. Mas, por outro, mostra como é bonito o ‘esprit de corps’, como é bela a lealdade entre os compadres. Sei que nesse novo departamento só trabalham pessoas muito jovens, alguns até imberbes, mas sei também que são muito ciosos de seu trabalho e que não vão tergiversar.

O grupo do Dejus elaborou uma cartilha. Por exemplo, parece que ‘bunda’ em cena nem sempre torna um filme pornográfico. Depende do contexto da ''bunda'' na obra em questão. Também ouvi dizer que o filme “Pegar ou Largar”, de Susannah Grant, estava quase sendo liberado para maiores de 12 anos, quando um dos analistas (ia dizer censores, mas vá lá, analista também é bom) lembrou que havia uma cena em que o personagem enrola um baseado. Um rápido debate e logo alguém chamou a atenção para o fato de que o baseado não foi aceso, o que faz toda a diferença. Baseado enrolado mas apagado, maiores de 12 anos. Baseado aceso, maiores de 14.

O Dejus pode até se deter sobre exemplos como os citados acima, mas sua preocupação maior é formar um cidadão à imagem e semelhança do que o Governo Federal crê ser o cidadão perfeito. Seu objetivo é maior, muito maior. Como disse em seu excelente artigo o doutor Demétrio Magnolli, publicado em O Globo de ontem: “Na ditadura militar, os chefes da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) falavam em nome da moral e dos costumes. Os novos censores (...) falam em nome da democracia. (...) O DCDP pretendia cercear, amordaçar, calar, proibir. O Dejus almeja falar, moldar, doutrinar, ensinar”.

Pelo menos é a explicação oficial para o selo de Especialmente Recomendado (ER). Seu objetivo é “destacar as programações e produtos que tenham em seu conteúdo juízos afirmativos na valorização da cidadania, uma mensagem educativa, de estímulo à consciência ecológica, comportamento solidário – conceitos de valorização dos direitos humanos”. O Dejus vai classificar toda a produção audiovisual do país, filmes, programas de TV, jogos de computador, videogames; definirá horários e, portanto, definirá quem vai ganhar, quem vai perder nessa indústria.

Três dúvidas me assolam a alma: quem define quem são os todo poderosos analistas, como classificarão as transmissões pela TV das sessões das duas Casas do Congresso Nacional, e se a ninguém ocorreu que se abre aí uma nova avenida para grandes lobistas?