domingo, agosto 19, 2007

Contribuição compromete a renda

Liliana Lavoratti , Jornal do Brasil

Embora algumas operações já estejam isentas da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e o Brasil ainda seja o campeão mundial dos juros altos, o peso da contribuição sobre a rentabilidade das aplicações financeiras tende a ficar cada vez maior no cenário atual de queda da Selic. Hoje, a CPMF representa em torno de 43% do rendimento bruto de uma aplicação de trinta dias em renda fixa, contra 23,5% em 1997, de acordo com cálculos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).

As conseqüências futuras desse fenômeno projetadas pelos especialistas vão desde a necessidade de os poupadores aumentarem o prazo das aplicações, a tendência de migração dos recursos para a caderneta de poupança - isentas - até o estímulo à população a consumir mais.

- Num ambiente de baixo retorno, com rendimentos até negativos dependendo da taxa de administração do banco, o aplicador poderá ser levado a consumir mais em vez de poupar - analisa o vice-presidente da Anefac, Miguel José de Oliveira.

Em 97, com a Selic de 1,69% ao mês, a taxa bruta de rendimento de um fundo de renda fixa (sem taxa de administração e IOF) era de 1,61%. Já em julho último, com a Selic em 0,90% ao mês e um rendimento de 0,88% ao mês, a CPMF representa o dobro do peso de dez anos atrás, constata o executivo da Anefac.

- Cada vez que a Selic é reduzida, o aplicador é mais penalizado - lembra. - Se nas duas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária a Selic anual cair de 11,5% para 10,5%, dá para prever que em vez de 43% do rendimento bruto de uma aplicação de 30 dias em renda fixa, vai representar em torno de 50%.

Apesar de ter sido amenizado com a criação da conta investimento - que permite a transferência de aplicações financeiras entre contas de bancos diferentes sem a taxação - o impacto da CPMF continua alto, de acordo com cálculos do professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), William Eid Junior. Para o investidor que em 2002 colocava seu dinheiro num fundo de curto prazo e obtia, em média, um rendimento de 14,63% ao ano, a alíquota de 0,38% da contribuição diminuía em 2,6% o ganho total. Já em 2007, em decorrência da queda dos juros, esse mesmo tipo de aplicação reduz em 4,62% o ganho, ou seja, o dobro, deixando para o poupador 95,38% do rendimento total.

- Ganhar dinheiro no Brasil com investimento financeiro ficará mais difícil. A parte do rendimento que a CPMF come ficará cada vez mais evidente por causa da queda dos juros - ressalta Eid Junior.

Por outro lado, isso poderá induzir o aplicador a planejar mais seus investimentos para fugir da taxação quando transfere o dinheiro da conta investimento para a conta corrente, por exemplo.