domingo, agosto 19, 2007

Rezando para a crise não nos atingir mais ainda.

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

A crise na economia mundial na semana passada é preciso reconhecer, atingiu os países mais ricos do mundo. Não todos, mas os principais, sem dúvida. Ela não ocorreu em um país dos ditos emergentes. Sendo assim, ficou restrita, num primeiro momento, aos círculos dos países que foram de um modo direito ou indireto atingidos ou contaminados pela bolha imobiliária americana. E tanto que bastou uma pronta resposta do FED, o banco central deles, para colocar o mercado em aparente calmaria. E diga-se, também, que dentre os emergentes, nenhum foi atingido num primeiro momento. Portanto, a bazófia de Lula e Mantega quanto ao Brasil não precisar ir correndo ao FMI também se circunscreve ao cretino mundo de ambos. Vejam: o mundo todo cresceu 7,0 % na média dos últimos anos, portanto, se crescimento ocorreu no Brasil foi por conta deste circulo virtuoso não porque o governo Lula tenha tido alguma influência. As exportações batem sucessivos recordes ? Ótimo, mas isto não nos fez melhorar nossa capacidade de comércio exterior, tanto que caímos duas posições no ranking. E também se diga que o mundo todo vendeu e comprou mais no período.

Dizer que o país não foi atingido é de descomunal irresponsabilidade. Primeiro, que no auge da gritaria, nosso risco-país saltou dos confortáveis 150 para 237 pontos, o dólar pulou de 1,89 para 2,13, e as empresas brasileiras perderam na bolsa cerca de 250,0 milhões de dólares, ou meio bilhão de reais, que convenhamos, é um prejuízo e tanto. Além disto, em apenas três dias saíram do país mais de R$ 2,0 bilhões de dólares. Porém, é preciso distinguir esta crise daquelas que o país viveu na década de 90: em todas elas a crise afetava os países, e todos eram ou são emergentes. Agora, a crise envolve outro risco e este não afeta de modo algum os países emergentes, os quais devem passar ao largo da turbulência.

Claro que alguma conseqüência repercutirá no mundo todo, e o Brasil deve sofrer de cara uma queda menos acentuada nos juros internos, o que sempre é ruim para os negócios e investimentos internos. Assim, o que de saída pode nos acontecer é uma velocidade de crescimento menor.

Contudo, vamos rezar para que o foco do terremoto tenha se extinguido nas decisões do FED americano. E que as conseqüências não sejam uma pequenas recessão, porque neste caso, e aí sim, o Brasil seria bastante afetado. Porque pequena recessão significa menor volume no comércio mundial, e neste caso, compraríamos menos e venderíamos menos ainda. Conseqüência: redução de investimentos produtivos, menor geração de empregos e renda, menor crescimento do PIB. Para quem ostenta um desemprego que perdura já alguns anos na faixa de 10%, a tendência é que este índice poderia até se ampliar, forçando o governo a dispor de mais volume de recursos em programas sociais, e menos para investimentos no campo não apenas da educação e saúde, mas também segurança e infra-estrutura.

Entre segunda e quarta feira saberemos onde a turbulência poderá bater ou não, e decorrência haverá uma certa retração nos negócios, o que é natural. De qualquer modo, é preciso cautela e mais do isso, muita reza para a extensão da crise não se abata sobre os emergentes, porque aí, mesmo com a blindagem que o Brasil vem construindo desde 1995, seremos atingidos comprometendo o crescimento do Brasil que parecia dar mostras de manter uma constante crescente e sustentável, muito embora qualquer coisa hoje na casa de 4,5 a 5% represente o mesmo que no ano passado aponta entre 3,5% a 4,0%. A diferença está na forma de cálculo do PIB que favoreceu os serviços e deu um novo impulso ao índice, mesmo sem gerar um centavo de riqueza ou um mísero emprego que fosse. Coisa de metodologia de cálculo, simplesmente.

Assim, é preciso sempre não perder de vista estes “pequenos” detalhes, no caso a metodologia de cálculo do PIB, nem tampouco misturarem crises e momentos específicos. A turbulência atual em nada, em absolutamente nada, se iguala as que ocorreu na década de 90. Quem quiser fazer ou traçar paralelos além da desinformação, ou ignorância, está usando de total má-fé. Como ainda, antes de soltarmos rojões por estar sofrendo menos com a crise atual, é preciso olhar para o lado e ver que não estamos sozinhos:todos os grandes emergentes estão com blindagem semelhante ou até superior a nossa.

Agora, o que não se pode conceber é o Congresso Nacional se deixar levar pela ladainha do Planalto de que a CPMF é indispensável para evitar que a crise se abata sobre o país. Além da mentira e da ignorância, isto é revelador de que, primeiro não é tão boa quanto se propala que dependa de 36 bilhões de reais, ou 18 bilhões de dólares para mão sermos atingidos. Ora, com reservas de 160 bilhões de o que seria a CPMF? Um grão de areia em meio ao oceano. Segundo, a arrecadação não será usada para aumentar nossas reservas, e sim para custear despesas correntes, perfeitamente dispensáveis e desnecessárias. Terceiro, está provado que o excedente de arrecadação imuniza o governo da falta que a CPMF poderia representar. Quarto, o governo quer a CPMF antes da crise estourar, portanto, se agora ela é indispensável, imagina-se que, se a crise internacional sumir, a CPMF poderia ser extinta sem prejuízos ao país?

De qualquer modo, resta-nos aguardar para ver como a semana nos apresentará a situação da economia mundial. De momento, recomenda-se cautela. E toda a cautela é sim um freio na velocidade de crescimento. E mesmo que não se tenha “prejuízos” quanto a “reservas” ou algum ataque especulativo à nossa moeda, esta menor velocidade, aliada às perdas volumosas que as empresas com ações em Bolsa sofreram na semana passada, servirão para retardar nossas expectativas de crescimento. E que se fique apenas por aí. Quem souber e puder, vá rezando.