quinta-feira, agosto 16, 2007

Corrupção nos Correios está por toda parte

Polícia Federal e Ministério Público constatam que esquema de fraudes está disseminado na estatal
Jornal do Brasil

Investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público (MP) constataram que o esquema de corrupção na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), desmantelado pela Operação Selo, está disseminado em diversas áreas da estatal, e levantaram indícios do envolvimento de políticos no desvio de recursos.

Ontem, a operação fez a primeira vítima na cúpula da empresa. Alvo da investigação, o diretor de Operações, Carlos Roberto Santini Dias, foi afastado do cargo, junto com o assessor Alexandre Ribeiro e um servidor de escalão intermediário, Sérgio Dias, preso na operação. "Há uma raiz fisiológica por trás dos problemas causados pelas máfias que atuam na ECT", disse um policial que participa das investigações.

Toda a diretoria da ECT, indicada pelo PTB e demais partidos da base aliada, foi substituída em 2005, após o escândalo causado pela divulgação de fita de vídeo em que o diretor de Administração de Material, Maurício Marinho, aparecia recebendo propina de fornecedores. O PMDB indicou praticamente todos os substitutos dos demitidos. Os principais padrinhos dos novos dirigentes da estatal foram os peemedebistas José Sarney (AP), Hélio Costa (MG), Renan Calheiros (AL), Ney Suassuna (PB) e Romero Jucá.

Um dos indicados do partido, Santini sofreu buscas e apreensões nas suas residências em Brasília e no Rio, além do seu escritório na sede da estatal. Por meio da assessoria, Santini disse que não vai se manifestar por enquanto.

O presidente da ECT, Carlos Henrique Custódio, também indicado pelo PMDB, disse que o afastamento dos três servidores é preventivo, para facilitar as investigações, mas acredita que, se houve irregularidade, elas ocorreram em gestões anteriores.

"Estou perplexo, mas tranqüilo, porque adotamos todas as providências para aperfeiçoar a gestão e punir os responsáveis por erros do passado. Espero que as acusações não procedam, mas se procederem vamos agir com rigor", prometeu.

O servidor Luiz Carlos de Oliveira Garritano, também preso na operação, só não foi afastado porque não exerce cargo de confiança, mas responderá a sindicância e pode ser demitido ao final. A PF e o MP estão convencidos de que há diversas quadrilhas que continuaram ativas na ECT, mesmo depois da devassa de 2005, após a divulgação de fita de vídeo que flagrou Marinho recebendo propina.

Essas quadrilhas contariam, conforme a polícia e o MP, com a colaboração de servidores de diversas áreas. Há pelo menos dez ações abertas para apurar o envolvimento de servidores com as irregularidades. "Os esquemas não pararam após o escândalo de 2005", disse o procurador Bruno Acioli, para quem o que ocorre na ECT é uma briga de quadrilhas pelo controle dos milionários negócios da estatal.

Segundo Acioli, o mais atuante operador do esquema de corrupção na estatal é o empresário lobista Arthur Wascheck Neto. Preso na operação, Wascheck foi o responsável pela gravação da fita do flagra em Marinho e, segundo as investigações, montou um pool de empresários para suceder a quadrilha anterior. "Ele é símbolo, subproduto da corrupção e da impunidade que imperam no País", afirmou. "Ele lesa, frauda, chantageia, corrompe há anos e nada lhe acontece", acrescentou.

As investigações mostram que havia uma espécie de tabela da propina, paga de variadas formas, preferencialmente com dinheiro, mas também com empregos, passagens, mimos e vantagens diversas.

Como qualquer organização, as máfias da ECT tem estrutura vertical e horizontal, que está sendo dissecada pela PF e o MP. "Quanto mais poder, maior a propina", observou um policial.

Só nesta fase, foram levantadas 20 empresas envolvidas com o esquema. Algumas delas dominariam os setores de fornecimento de produtos e serviços desde a década de 90. Com base nos dados até agora reunidos, o MP está montando uma espécie de radiografia de como os criminosos pilotavam as fraudes. MP deve pedir prorrogação da prisão temporária dos cinco detidos e estuda transformar em preventiva, mais duradoura, a de Wascheck. "Ele é um elemento nocivo, corrupto contumaz, patológico mesmo e, mesmo vigiado com lupas, manteve sua influência no esquema".

Conforme as investigações, as organizações criminosas que atuam na ECT funcionam como um exército, com hierarquia e vários níveis de graduação, envolvendo servidores de escalões inferior, médio e alto.

As quadrilhas são esquadrinhadas a partir dos documentos apreendidos em 2005. Desde o final de 2006, o MP trabalha nesse acervo, integrado por farta documentação em papel e meio digital. O MP pediu à justiça federal que autorize o compartilhamento de todas as provas produzidas ao longo da investigação.

O Correio Híbrido Postal (CHP), um projeto de mais de R$ 4 bilhões, em implantação, para reformular todo o sistema postal brasileiro, é um dos contratos investigados. Um dos presos na operação atuava nele e suas informações serão úteis para aprofundar essa linha de investigação. Mas a operação Selo não tem correlação direta com o CHP. Só após a análise do material apreendido nas buscas e apreensões será possível verificar se há conexão.

Há múltiplos interesses na ECT. A fita em que Marinho é flagrado recebendo propina serviu de alavanca de força para os outros grupos, sobretudo Wascheck. Uma briga de quadrilhas se sucedeu à derrocada do esquema comandado pelo PTB.