quinta-feira, agosto 30, 2007

O apagão da saúde pública

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Em diferentes ocasiões, já externamos nossa opinião, e preocupação, em relação ao estado não apenas precário, mas de verdadeiro caos em que se encontra a saúde pública brasileira.

Em tempos em que o governo Lula coloca sua tropa de choque para aprovação da prorrogação por mais quatro anos da CPMF, além dos recursos do Estado, saídos do Orçamento, já se disse aqui que a justificativa de que, diante da situação vexatória da saúde, alegar-se por isso mesmo a necessidade da prorrogação, é taxarmos como perfeitos idiotas. Há quatro anos e meio Lula governa o país e durante todo este tempo ele teve e pode contar com os recursos da CPMF. Que destino deu ao total arrecadado neste período para a situação chegar ao ponto crítico em que chegou agora ?

É de se concluir que a arrecadação proveniente da CPMF não está sendo usada para a Saúde, conforme se justificou a sua criação. Não neste governo ao menos.

Nós vamos pesquisar em nosso arquivo, um artigo que editamos aqui em 2006 em que um médico de renome demonstrou sua preocupação com o que vinha ocorrendo, e que comprovou ainda que a ação do governo Lula especificamente na área da saúde levaria ao caos que agora se constata. Tão logo encontremos o arquivo vamos republicá-lo.

A seguir, uma narrativa constante do Blog do Noblat que bem dimensiona a que ponto lastimável chegamos. Impossível não nos indignarmos, ainda mais quando vimos na semana passada a morte de uma paraibana que ficou na fila aguardando por atendimento durante meses. Neste semana, em Aracaju, seis bebês morreram de forma infame. E estas mortes tem sido notícia diária de norte a sul do país.

Na narrativa do Noblat, nunca é demais lembrar, fica claro que Lula sequer fazia idéia do estado falimentar da Saúde Pública sob sua administração, quando em fevereiro de 2006 afirmou que o serviço estava quase perfeito e que até o final de abril daquele ano não haveria mais fila de atendimento.

De apagão em apagão, o Brasil desce a ladeira da mediocridade.

O que fazer para ser atendido em um hospital de Brasília
Blog do Noblat
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Débora Peres, mulher do jornalista Tão Gomes Pinto, um nome para lá de conhecido do meio jornalístico e político de Brasilia e do eixo Rio-São Paulo, acaba de deixar a ouvidoria do Governo do Distrito Federal com um pedido para que sua mãe, Celestina Martin Quaglierini, permaneça internada numa UTI de algum hospital da cidade - qualquer um.

Ela precisa de um mandato judicial, uma liminar, para que Celestina, 79 anos de idade, seja internada numa UTI. Pública ou privada. Celestina, viúva, internou-se no Hospital Santa Lúcia sob suspeita de estar com pneumonia grave. O diagnóstico médico, no entanto, recomendou sua instalação imediata numa Unidade de Terapia Intensiva.

Não foi simples. A UTI do hospital estava lotada. Celestina teve de aguardar num quarto comum durante várias horas. Ao ser encaminhada à UTI, sua filha foi informada que as diárias daquela unidade de terapia intensiva ficavam em torno de R$ 4 mil, sem contar os honorários de um médico "intensivista". Com uma agravante: Celestina não tinha plano de saúde.

O corpo médico do Santa Lúcia, num novo exame na paciente, definiu seu estado como "bastante grave". Sua internação poderia levar dias ou semanas, e ainda assim sem garantia de que a paciente sobreviveria. Débora, cujo marido jornalista estava em São Paulo exatamente para fazer uma série de exames médicos, assinou alguns cheques como garantia, e foi procurar uma "recomendação" que permitisse à sua mãe ser internada num hospital da rede púbica do Distrito Federal

Ela movimentou Deus e o mundo na cidade. Obteve até o telefone da residencia oficial do governador José Roberto Arruda e o nome da secretária particular de Arruda, dona Janaína. Informado por Débora do que estava acontecendo, e conhecendo pessoalmente o governador, Tão Gomes sentiu-se à vontade para ligar para a residência oficial solicitando um apoio de Arruda para obter a internação da sogra.

Ontem, terça, no início da noite, ligou pessoalmente, explicou o caso para dona Janaina, deu todos os detalhes ressaltando o fato de que ele não pertencia a categoria dos "mensaleiros" , muito menos tinha tradição no ramo da grilagem de terras públicas. Sendo assim, não teria recursos "não contabilizados" para sustentar uma permanência muito longa da sogra na UTI , conforme a previsão dos médicos.

O governador, claro, não podia atendê-lo no momento pois estava cumprindo agenda externa. Mas a secretária iria informá-lo do problema e do pedido.

Só hoje, no início da tarde, veio uma resposta, através de um telefonema de um assessor do secretário Secretário de Saúde, o dr. Jadir. Ele falou ao jornalista das dificuldades do sistema público de sáude do Distrito Federal, disse que foi um erro a mulher dele ter levado a mãe para um
hospital privado (deveria ter se dirigido ao Hospital de Base) e fez observações sobre o abuso dos preços cobrados pelos hospitais privados.

Um absurdo, concluiu. E recomendou que Débora lhe telefonasse pois ele iria verificar a disponibilidade de leitos na UTI do Hospital de Base. Foi o que Débora fez, sendo então informada pelo Dr. Jadir que tambem no Hospital de Base havia uma fila de espera para vagas naquele setor. E o próprio dr. Jadir recomendou que ela procurasse a ouvidoria e, em seguida, obtivesse uma limitar da Justiça determinando a internação.

É o que Débora está tentado obter nesse momento. Ela está plantada na porta do juiz, aguardando a liminar. Assim que sair (ou se sar) um oficial de Justiça irá acompanha-la até o Hospital Santa Lúcia e comunicar que ela deverá ficar na UTI do hospital até que a rede pública consiga uma vaga. Por conta do SUS.

Há meia-hora , um amigo comum do jornalista e do Secretário de Saúde do GDF, José Geraldo Maciel, ligou para Tão Gomes Pinto dizendo que o assunto já tinha chegado à sua mesa e que ele está as ordens para resolvê-lo da melhor forma possível. Tão ligou para Débora avisado dessa disposição do secretário. Ela, no entanto, parece confiar mais na Justiça. Imagine ter de voltar a contar toda essa história para o secretário e ficar esperando as providências que ele eventualmente irá tomar.

Isso acontece com um jornalista. Alguém que, independente da sua vontade, pertence as "elites". Imagine o que aconteceria se Débora fosse uma Maria qualquer, Celestinha, uma Joaquina Das Dores e Tão Gomes Pinto, ao invés de jornalista, trabalhasse como pedreiro. Ou ainda melhor: se estivesse desempregado como milhões de brasileiros. E milhares de brasilienses.