Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
Guararé era cabo eleitoral do governador Sebastião Archer, no Maranhão. Convenção disputada do PST (Partido Social Trabalhista), liderado no Estado pelo senador Vitorino Freire, para escolher o sucessor de Archer, em 1950. Na mesa, o senador Vitorino e o governador Archer. Alguém disse que Guararé era puxa-saco do governador. Guararé foi para a tribuna:
- Essa acusação é uma bobagem. Cada um puxa quem pode. Eu puxo o senhor, doutor Sebastião Archer, porque é o governador, não é mesmo? O senhor puxa o senador Vitorino Freire, porque é o chefe do senhor e de todos nós. Já o senador Vitorino puxa o general Dutra, porque é o chefão dele e do País. Não adianta fingir que não sabe. Esta é a lei da fidelidade partidária.
A quadrilha
O julgamento da denúncia do Mensalão pelo Supremo Tribunal, além de empolgante e histórico, foi sobretudo didático. O País viu, cinco dias seguidos, a Justiça abrir e mostrar as vísceras do governo Lula e denunciar "a quadrilha dos 40", seu "chefe" José Dirceu e o chefão oculto, Lula da Silva.
O reiterado argumento do Supremo para denunciar José Dirceu "por corrupção ativa e formação de quadrilha", como "chefe da quadrilha dos 40, da organização criminosa", é que o que foi feito não teria sido feito se no Palácio do Planalto, na Casa Civil, não houvesse um chefe forte, José Dirceu, montando, articulando, garantindo, comandando todo o processo criminoso. Ora, se os crimes só aconteceram porque havia um chefe, Dirceu, por conseqüência também é verdade que o chefe Dirceu só era forte e comandou a "organização criminosa" porque acima dele tinha a cobertura do chefão, Lula.
E agora? Lula e o PT vão repetir que "nunca houve o Mensalão"? Guararé sabia: é a fidelidade partidária do crime.
Os três
Não é todo dia, no Brasil, que se sente vontade e dever de elogiar. Esse julgamento, uma bela mostra de serviço público, não teria acontecido sem o comportamento tranqüilo, sereno, autêntico, de três pessoas afinal vitoriosas.
Primeiro, o procurador Antonio Fernando de Souza, sempre parecendo estar saindo de um mosteiro, como um monge sem batina, seguro, independente, sem medo das palavras, chamando de "crime" o que era crime, de "quadrilheiro" quem era quadrilheiro, denunciando 40, numa lista em que o Supremo não tirou um só e por isso aceitou a denúncia contra todos os 40.
O relator Joaquim Barbosa, uma surpresa nacional. Novo no Supremo, poucos o conhecíamos. Simples, culto, preparado, firme e de uma lógica implacável, foi desnudando um a um, fatiando o presunto petista da corrupção.
E a presidente Ellen Grace, com sua discreta beleza e a perene majestade, com uma venda sobre os olhos, seria a própria estátua da Justiça.
Guararé era cabo eleitoral do governador Sebastião Archer, no Maranhão. Convenção disputada do PST (Partido Social Trabalhista), liderado no Estado pelo senador Vitorino Freire, para escolher o sucessor de Archer, em 1950. Na mesa, o senador Vitorino e o governador Archer. Alguém disse que Guararé era puxa-saco do governador. Guararé foi para a tribuna:
- Essa acusação é uma bobagem. Cada um puxa quem pode. Eu puxo o senhor, doutor Sebastião Archer, porque é o governador, não é mesmo? O senhor puxa o senador Vitorino Freire, porque é o chefe do senhor e de todos nós. Já o senador Vitorino puxa o general Dutra, porque é o chefão dele e do País. Não adianta fingir que não sabe. Esta é a lei da fidelidade partidária.
A quadrilha
O julgamento da denúncia do Mensalão pelo Supremo Tribunal, além de empolgante e histórico, foi sobretudo didático. O País viu, cinco dias seguidos, a Justiça abrir e mostrar as vísceras do governo Lula e denunciar "a quadrilha dos 40", seu "chefe" José Dirceu e o chefão oculto, Lula da Silva.
O reiterado argumento do Supremo para denunciar José Dirceu "por corrupção ativa e formação de quadrilha", como "chefe da quadrilha dos 40, da organização criminosa", é que o que foi feito não teria sido feito se no Palácio do Planalto, na Casa Civil, não houvesse um chefe forte, José Dirceu, montando, articulando, garantindo, comandando todo o processo criminoso. Ora, se os crimes só aconteceram porque havia um chefe, Dirceu, por conseqüência também é verdade que o chefe Dirceu só era forte e comandou a "organização criminosa" porque acima dele tinha a cobertura do chefão, Lula.
E agora? Lula e o PT vão repetir que "nunca houve o Mensalão"? Guararé sabia: é a fidelidade partidária do crime.
Os três
Não é todo dia, no Brasil, que se sente vontade e dever de elogiar. Esse julgamento, uma bela mostra de serviço público, não teria acontecido sem o comportamento tranqüilo, sereno, autêntico, de três pessoas afinal vitoriosas.
Primeiro, o procurador Antonio Fernando de Souza, sempre parecendo estar saindo de um mosteiro, como um monge sem batina, seguro, independente, sem medo das palavras, chamando de "crime" o que era crime, de "quadrilheiro" quem era quadrilheiro, denunciando 40, numa lista em que o Supremo não tirou um só e por isso aceitou a denúncia contra todos os 40.
O relator Joaquim Barbosa, uma surpresa nacional. Novo no Supremo, poucos o conhecíamos. Simples, culto, preparado, firme e de uma lógica implacável, foi desnudando um a um, fatiando o presunto petista da corrupção.
E a presidente Ellen Grace, com sua discreta beleza e a perene majestade, com uma venda sobre os olhos, seria a própria estátua da Justiça.
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Chinaglia
Perdoem-me baixar o nível, mas a expressão popular se torna inevitável: a Câmara anda "cagada de arara". Seus últimos presidentes viraram uma sujeira. O Severino Cavalcanti saiu corrido da polícia. O João Paulo Cunha está corrido da Justiça. E o Arlindo Chinaglia está defendendo o crime, depois de o STF aceitar as denúncias contra os 40, "por corrupção, quadrilha", etc.: "Aceitar a denúncia é um passo. Depois dela é que vem o julgamento. Parece (sic) que os processos vão levar muito tempo" (sic) ("O Globo").
O País não merece. O "terceiro presidente" torce para que "os processos levem muito tempo" e acabem enterrados na prescrição. Que o Chinaglia não respeite a Câmara, é culpa da Câmara. Mas que ao menos ele respeite o País. É por isso que o velho motorista, cansado, indignado, me dizia ontem: - Devia mandar esses cabras para a China. O processo lá é uma semana.
Anistia
Continuo insistindo. É preciso anistiar Lula para que ele possa voltar a andar tranqüilamente pelo País. O veterano e venerando jornalista Augusto Marzagão, a quem devemos a criação dos Festivais Internacionais da Canção e seu permanente magistério profissional, contou em artigo no "Globo":
"Tive vontade de comparecer à festa de encerramento dos Jogos Parapan-Americanos. Queria manifestar ao vivo, com meu aplauso, o entusiasmo e a emoção que me causaram os jovens dos quais acima falei... Mas li que a festa seria exclusiva para autoridades (sic). Confesso que ainda não atinei com a razão do privilégio. Seria medo de vaia"? Claro, Marzagão. Pobre Lula. Vergonhosa covardia. Nem a uma festa de jovens Lula pode ir. Teve que fechar o estádio só para "ele e autoridades".
Dois Direitos
Lula indicou para o Supremo o juiz Carlos Alberto Direito, um servidor privado e público exemplar: líder estudantil, professor, diretor e vice-reitor da PUC do Rio, chefe de gabinete do Ministério da Educação (75 a 78, ministro Ney Braga, governo Geisel), chefe de gabinete do prefeito do Rio Israel Klabin, presidente da Funarte e da Casa da Moeda, secretário da Educação do Rio (governo Moreira Franco), juiz do Tribunal do Rio, ministro do Superior Tribunal de Justiça, mais de 30 anos de serviço público íntegro, inatacável. Dele se pode dizer que é duas vezes Direito: no nome e na vida.
Chinaglia
Perdoem-me baixar o nível, mas a expressão popular se torna inevitável: a Câmara anda "cagada de arara". Seus últimos presidentes viraram uma sujeira. O Severino Cavalcanti saiu corrido da polícia. O João Paulo Cunha está corrido da Justiça. E o Arlindo Chinaglia está defendendo o crime, depois de o STF aceitar as denúncias contra os 40, "por corrupção, quadrilha", etc.: "Aceitar a denúncia é um passo. Depois dela é que vem o julgamento. Parece (sic) que os processos vão levar muito tempo" (sic) ("O Globo").
O País não merece. O "terceiro presidente" torce para que "os processos levem muito tempo" e acabem enterrados na prescrição. Que o Chinaglia não respeite a Câmara, é culpa da Câmara. Mas que ao menos ele respeite o País. É por isso que o velho motorista, cansado, indignado, me dizia ontem: - Devia mandar esses cabras para a China. O processo lá é uma semana.
Anistia
Continuo insistindo. É preciso anistiar Lula para que ele possa voltar a andar tranqüilamente pelo País. O veterano e venerando jornalista Augusto Marzagão, a quem devemos a criação dos Festivais Internacionais da Canção e seu permanente magistério profissional, contou em artigo no "Globo":
"Tive vontade de comparecer à festa de encerramento dos Jogos Parapan-Americanos. Queria manifestar ao vivo, com meu aplauso, o entusiasmo e a emoção que me causaram os jovens dos quais acima falei... Mas li que a festa seria exclusiva para autoridades (sic). Confesso que ainda não atinei com a razão do privilégio. Seria medo de vaia"? Claro, Marzagão. Pobre Lula. Vergonhosa covardia. Nem a uma festa de jovens Lula pode ir. Teve que fechar o estádio só para "ele e autoridades".
Dois Direitos
Lula indicou para o Supremo o juiz Carlos Alberto Direito, um servidor privado e público exemplar: líder estudantil, professor, diretor e vice-reitor da PUC do Rio, chefe de gabinete do Ministério da Educação (75 a 78, ministro Ney Braga, governo Geisel), chefe de gabinete do prefeito do Rio Israel Klabin, presidente da Funarte e da Casa da Moeda, secretário da Educação do Rio (governo Moreira Franco), juiz do Tribunal do Rio, ministro do Superior Tribunal de Justiça, mais de 30 anos de serviço público íntegro, inatacável. Dele se pode dizer que é duas vezes Direito: no nome e na vida.