segunda-feira, setembro 17, 2007

Na Colômbia, um programa social digno do nome 2

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Neste trecho da reportagem, tratou-se da cidade de Medelín, famosa mundialmente pelo “Cartel de Medelin”, poderosa organização de narcotraficantes que instalou o caos, e que o governo colombiano tratou de combater com seriedade e competência. Reparem que o combate foi feito não apenas pelo uso de policiais militares ou milícias, mas com o uso intenso do Exército. E mais: onde não havia a presença do Estado, ele aí se fez mais vigoroso: “(...)Na verdade, o que o governo fez foi o mesmo que costuma ser feito em bairros de classe média e de renda alta. Em respeito ao direito à educação, construiu mais escolas; ao direito à saúde, mais postos de atendimento; ao direito ao lazer e à diversão, mais praças e mais parques para as crianças(...)”.

Portanto, há bons exemplos que podem ser seguidos aqui no Brasil, basta que nossos governantes assumam suas responsabilidades em servir ao país, e não servir-se dele em proveito próprio. Segue a segunda parte da reportagem.

“(...) Agora, deixamos Bogotá e vamos um pouco para o norte da Colômbia. Fomos para Medellín, capital de uma importante região agrícola, mais conhecida mundialmente por causa do “Cartel de Medellin”. Organização de tráfico de cocaína montada pelo temido e audacioso Pablo Escobar, responsável por centenas de assassinatos, e que foi morto numa caçada em 1993.

Pois, agora, a cidade antes dominada pela droga, refaz sua triste fama.

Dez anos atrás Medellín era considerada a cidade mais violenta do mundo. Nem a polícia se atrevia a fazer o que fizemos, subir o Morro de São Domingos, tido como o bairro mais perigoso do mundo. Havia o risco de assalto, seqüestro e morte, mas tudo começou a mudar quando melhoraram o sistema de transporte e foi instalado no local o teleférico.

Esta é uma experiência pioneira de transporte de massa por cabo. O sistema lembra o que existe no Pão de Açúcar. Aliás, esta parte de Medellín lembra muito os morros do Rio de Janeiro. Só que em vez do bondinho, aqui são cabines menores, levando não turistas, mas moradores das áreas mais pobres da cidade. É uma periferia cercada por um rio poluído e apinhada de favelas. Com poucos, complicados e perigosos acessos.

Marta Garrales conta que o teleférico mudou a vida dela. Trabalha de arrumadeira e antes, gastava duas horas até a casa da patroa. Agora, em meia hora já está no serviço.

Só não está mais feliz porque sente falta do esposo morto 15 anos atrás por uma bala perdida.

Assim como nas favelas cariocas, é difícil encontrar quem não tenha perdido alguém próximo na guerra do tráfico. Carlos Jimenez perdeu o irmão assassinado.

Por precaução, senhor Mário Valença ainda mantém as grades de proteção. Diz que Santo Domingo antes era terra de ninguém. Os bandidos impunham toque de recolher. A quem morava na área dominada por uma quadrilha era proibido contato com moradores onde vivia outro bando. Amigos, pais, filhos, tinham que se encontrar às escondidas, fora daqui.

As mudanças não ficaram só na instalação do teleférico. Que, aliás, tem um movimento frenético. São 90 cabines circulando sem parar num percurso de quatro quilômetros morro acima e abaixo. O sistema é abastecido pelas “busetas”, os microônibus que passam pelos bairros recolhendo os passageiros até o terminal. Daí, em cinco minutos, chegam ao metrô. E, como vimos em Bogotá, com o Exército e a Polícia o tempo todo assegurando o direito de ir e vir de mais de 100 mil moradores.

Outros direitos passaram a ser preservados. Na verdade, o que o governo fez foi o mesmo que costuma ser feito em bairros de classe média e de renda alta. Em respeito ao direito à educação, construiu mais escolas; ao direito à saúde, mais postos de atendimento; ao direito ao lazer e à diversão, mais praças e mais parques para as crianças.

Luz Cervantes, secretária da Associação Comunal, diz que ainda não há um paraíso no local, por que há muito o que fazer em Santo Domingo ainda. Mas o governo acabou de construir na região a maior e mais moderna biblioteca do País. É um monumento à cultura, bem no meio da favela.

Parece história do autor de “Cem Anos de Solidão”, o prêmio Nobel de literatura Gabriel García Marquez, colombiano da região, em cujas obras o absurdo acontece. Pois, lá, a cabininha aérea da inclusão social passou a ser vista como símbolo da Paz. O segundo que a cidade tem. O primeiro foi destruído pela ousadia sem limites dos terroristas.

Era uma escultura de Fernando Botero, filho de Medellín, o artista plástico vivo de maior sucesso no mundo hoje: a Pomba da Paz. Instalada numa praça cheia de bares populares. Em junho de 1995, numa tarde de sábado, um atentado a bomba explodiu a escultura. Os estilhaços da Pomba da Paz mataram 21 pessoas ao redor. Botero fez então uma réplica da Pomba e colocou ao lado. Parecendo nos lembrar que se a gente quer a Paz renasce dos escombros. Mesmo dos escombros sociais como estão fazendo na região
(...)" .