segunda-feira, setembro 17, 2007

O "presunto" de Lula

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Cassado pelo golpe de 64, o deputado Tenório Cavalcanti, da UDN do Estado do Rio, continuou fazendo seu jornal, bem popular, "A Luta Democrática". Uma tarde, andando pela Avenida Rio Branco, encontrou o marechal reformado, ex-prefeito do Rio e ex-deputado Mendes de Morais:

- Como vai você, Tenório ?

- Fazendo meu jornal, "A Luta".

- Não leio. Seu jornal, na primeira página, só publica foto de cadáver.

- Ora, marechal, não se faz jornal sem dinheiro. Meu jornal vive da venda avulsa. E quem vende meu jornal é foto de cadáver na primeira página, que a polícia e os jornalistas de polícia chamam de "presuntos".

- Mas não há uma forma de mudar isso, de arranjar outra orientação?

- Há, sim, marechal. O senhor me arranja dinheiro para manter o jornal e todo dia eu publico seu retrato em lugar dos cadáveres, dos "presuntos".

Mendes de Morais entendeu a ironia e saiu irritado. Tenório ainda gritou:

- O que vem dar na mesma, marechal! Mais ou menos na mesma coisa!

Mercadante
O macabro espetáculo que o Senado deu na noite de quarta-feira foi um retrato do governo Lula, o "presunto" do governo de Lula e do PT. Lula estava escondido lá pelas frígidas terras de Papai Noel, mas deixou a ordem com o senador Aloísio Mercadante, do PT-SP, ainda o verdadeiro líder do governo no Senado (Romero Jucá, do PMDB-RR, é o líder dos acordos e maracutaias): "Sacrificar Renan faria de Lula o próximo alvo".

E foi sobretudo por isso, pelo medo de Lula de se tornar "o da próxima vez", que o presidente, lá de Estocolmo, mandou o recado ainda mais claro: "Lula disse não ver problema na permanência de Renan na presidência do Senado, caso ele fosse absolvido. Pediu também respeito à decisão do Senado, qualquer que fosse ela" (Fernando Duarte, "O Globo").

Virgílio
Era a senha para o PT agir e votar. E eles votaram sobretudo neles: "O governo avalia que dos 12 petistas 8 apoiaram Renan (e os outros 4 se abstiveram). A ação do Palácio do Planalto e do PT foi decisiva para evitar a cassação do presidente do Senado" (Kennedy Alencar, na "Folha").

A inacreditavel confissão pública do senador Aloísio Mercadante (PT-SP), diante das TVs e jornais, de que "não votou nem sim nem não, mas se absteve", levou o sempre educado líder do PSDB, Artur Virgilio, à ira santa: "Os que se abstiveram são pessoas repulsivas. Seis pessoas acanalharam (sic) seus votos" ("Folha").

Renan
E é uma dura verdade. Na política, como na vida, as pessoas têm o absoluto direito à opção, à liberdade. Cada um que vote como entender que deve votar, quaisquer que sejam as reações e contestações dos outros. É o exercício da sua própria humanidade. Mas abster-se, esconder-se atrás do nada, é de fato um comportamento "repulsivo", um "acanalhamento".

Se o PT achava que devia ficar solidário com Renan, perfeito. Até por ele ter sido, desde o primeiro governo, um aliado firme, leal, que sempre se expôs para defender o governo. Mas o voto da vergonha é o voto do nojo. Por covardia, o PT enlameou até a enlameada vitória de Renan.

"Intelectuais"
Embora o partido de Renan seja o PMDB, impossível não discutir o PT, cujo governo é quem decidiu a votação. Agora vêm alguns autoproclamados "intelectuais do PT" declararem-se indignados com os votos do partido.

A brilhante e atuante professora Maria Victoria Benevides quer "a extinção do Senado, por nojo: aquilo não foi uma sessão secreta, foi clandestina; como cientista política (sic), iniciarei um debate pela extinção do Senado e pregarei o voto nulo para senador em 2010".

Dona Benevides é do PT e foi presidente do Conselho de Ética (sic) do governo. Saiu por discordâncias dentro do PT. Mas, o que é que fez dona Benevides para denunciar o Mensalão, quando ele explodiu? E contra os escândalos dos sanguessugas, dos vampiros, dos aloprados, a podridão do PT?
Escândalo no PT pode. De aliado do governo (como o PMDB), não pode.

As maracutaias do PT, PMDB, PL, PTB, PP, os partidos todos do governo, vêm desde o primeiro mandato de Lula. Por que os "intelectuais" não protestavam?
Por que todos eles, uns mais outros menos, estão aboletados no governo?

Argentina
O Brasil inventou a jabuticaba da corrupção. A empresa quebra, entra em falência, não paga ao governo, dá o calote nos empregados e cria uma outra com nome parecido, que passa a funcionar como se a anterior nunca tivesse existido. Fizeram assim "Jornal do Brasil", "Manchete", Varig, etc.

Agora, a Gol comprou a Nova Varig, que começou a voar pelo mundo. Mas nem todos os países fazem da corrupção um sistema empresarial. A Nova Varig tem na Argentina mais de 100 empregados demitidos e não indenizados. A lei lá é a universal: só funciona se pagar aos empregados. Como não pagou, não tem licença de voar. E fica certa imprensa brasileira a "denunciar a perseguição". Roubam cá e querem também roubar lá.