O artigo a seguir, escrito por Alexandre Garcia (sim, aquele mesmo da Rede Globo), para A Gazeta, de Cuiabá, é um daqueles textos para a gente ler, refletir e guardar sempre a mão. Ele retrata o processo de deterioração por que passa a sociedade brasileira.
Fruto de programas ditos de inclusão, mas que no fundo nada mais são do que de divisão ou racialistas, como queiram, o governo Lula está criando um clima de preconceito às avessas. E não pensem que se trata de uma historinha qualquer, não. É um fato real, tirado do dia a dia de um país que sempre se orgulho de sua miscigenação racial, de seu multiculturalismo, sem fissuras ou antagonismos étnicos.
Pratica-se hoje, na forma de programas de governo, uma cisão criminosa da sociedade brasileira. Os antagonismos que vão sendo engendrados e conduzidos sob uma capa hipócrita de inclusão, vai nos levar, infelizmente, a criação de diversos brasis, abrigados num só território cuja unicidade está, também, sob ameaça.
É muito importante que a sociedade brasileira saia da letargia em que se encontra, e passe a alertar-se do perigo que corre. Ainda há tempo para reverter este cenário desintegrador em curso. Do contrário,em oito anos, Lula terá destruído o que se levou quinhentos para se conseguir.
Segue o excelente e oportuno artigo do Alexandre Garcia.
No sábado, meus colegas de redação receberam o chamado de frequentadores de um shopping, denunciando que um vigia estava discriminando um menino negro. O fato foi este: a mãe entrou no shopping com seus dois filhos, um branco e um negro, adotivo. O menino negro fazia bagunça, batendo nas vitrinas e o vigia foi chamar-lhe a atenção. Foi o que bastou para que os circunstantes hostilizassem o vigia, acusando-o de preconceito. Quando a reportagem chegou lá, os circunstantes confirmaram a denúncia contra o vigia, mas a mãe argumentou que ele tinha razão, que o menino realmente estava quase a quebrar vitrinas. Nossa equipe foi embora, ante o preconceito discriminatório que acusava o vigia. Se fosse o filho branco a ameaçar os vidros, o vigia poderia xingá-lo sem que ninguém o acusasse de discriminação.
Todos os dias testemunhamos casos parecidos. Passo com frequência pelo campus da Universidade de Brasília e sempre fico curioso quando vejo a placa "Centro de Convivência Negra". E fico a imaginar que se houvesse um Centro de Convivência Branca, ele seria fechado pelo Ministério Público, sob acusação de discriminação racial ou nazismo. Na Universidade, foi feito um atalho na tradicional seleção por mérito, abrindo-se reserva de vagas em que se decide pela cor da pele - o que é óbvia discriminação racial, mas é lei...
Sábado passado, em Duque de Caxias, RJ, realizou-se uma parada gay. O juiz da infância e adolescência proibiu a presença de crianças e adolescentes no desfile. Foi qualificado de preconceituoso por outros integrantes do Poder Judiciário. Passaram por cima do Estatuto da Criança e do Adolescente, que visa a proteger as crianças. Enquanto isso, no Congresso Nacional, tramita um projeto que considera crime não dar emprego a portadores de HIV. Não entendi. Por décadas se pediu abreugrafia para saber se a pessoa não é portadora de tuberculose, antes de ganhar emprego. E, como sabemos, tuberculose é uma doença curável. Fico a pensar se sou preconceituoso por não entrar num elevador que se abre e dentro vejo uma pessoa gripada a espirrar.
Na Veja desta semana, Lya Luft (imagino que movida pelos tristes fatos da moça da Uniban, com vestido acima da linha da calcinha) escreveu o seguinte sobre preconceito contra mulheres: "Esse preconceito é demorado e obstinado e nós mulheres colaboramos com ele dando nossa melancólica parcela, por exemplo, no jeito como nos portamos, como nos vestimos, como agimos no trivial...". Enquanto nos portarmos feito crianças pouco inteligentes, ou enquanto nosso maior trunfo forem nádegas firmes, fica difícil reclamar que não nos respeitam o bastante. Aí eu fico imaginando se não é discriminação contra o homem haver uma ministra da Secretaria Especial dos Direitos da Mulher, e nada sobre os direitos do homem, que é torturado nas delegacias comuns e acusado na Delegacia da Mulher.
Meu melhor amigo da infância é negro; tenho excelentes colegas e amigos negros e jamais levei em conta a cor da pessoa, mas seu caráter; tenho amigos gays e os acho excelentes companhias, pessoas sensíveis e inteligentes; convivo com portadores de HIV com normalidade; nada tenho contra as mulheres; pelo contrário, só a favor. Sou branco, heterossexual, homem, e não me sinto desprotegido. Mas me parece serem confirmações de discriminação, certas atitudes contra a discriminação. George Orwell foi premonitório em "A Revolução dos Bichos": Todos são iguais; mas alguns são mais iguais que os outros.
(*) Alexandre Garcia é jornalista em Brasília e escreve em A Gazeta às terças-feiras.