Adelson Elias Vasconcellos
É impressionante a falta de sincronismo entre os diferentes órgãos e setores do governo, para explicar as razões do apagão. A cada dia, cada um dá uma versão diferente.
Aquela versão em que o ministro Lobão e a ministra Dilma tanto insistiram em manter, foi sendo abraçada até sair como NOTA OFICIAL. Começou com descargas elétricas, depois apareceu um curto-circuito, e ficou nisso.
Aí apareceu o INPE que oficialmente declarou: as descargas havidas na hora do apagão, estavam a trinta quilômetros da subestação e eram de média intensidade, sem força para provocar curto-circuito.
Hoje, o Operador Nacional do Sistema, vem a público e declara, um tanto constrangido, que pode não ter havido CURTO CIRCUITO provocado por descargas elétricas (???)...E nisso ficou.
Olha, quanto mais se mexe neste caldeirão mais se acentua a precariedade dos cérebros encarregados de governarem este país. E olha que, diante de qualquer problema de porte médio, nem precisa ser “problemão”, eles logo montam uma equipe de trabalho (ou comissão), se sentam horas a fio a discutir, discutir, e quando se pensa que sairá alguma coisa útil, alguma luz sobre os fatos, algum esclarecimento sensato, o produto que nos entregam não de m. E os especialistas são eles, hein!
É claro que a geração de energia no país ganhou solidez nos últimos anos, até porque um sistema elétrico em que, cerca de 80% da energia produzida, provem de fontes hidráulicas, em havendo chuva abundante onde se localizam os reservatórios das usinas, não a terá motivos para apagões da grandeza e natureza da que ocorreu.
Onde está a resposta, então? Naquilo que, desde o princípio, estamos aqui reproduzindo: primeiro,falta de investimentos nas linhas de transmissão para dotá-las de maior segurança, além da absoluta falta de manutenção como ontem vimos aqui e que vale reproduzir: “(...)A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) nunca vistoriou a subestação de Itaberá (SP), apontada pelo governo como origem do blecaute que deixou 18 Estados sem luz na terça-feira (10). As outras duas subestações envolvidas, Ivaiporã (PR) e Tijuco Preto (SP), foram fiscalizadas há mais de dois anos (...)”.:
E por que se deixou de fazer a manutenção? Por falta de verbas que foram contingenciadas pelo governo federal.
Este bloqueio de recursos, é sempre bom frisar, é aquele montante de dinheiro que o governo destina para pagamento do serviço da dívida pública e que, apesar do enorme volume anual que o governo consegue economizar, ainda é insuficiente para cobrir o total necessário.
E por que precisamos de tanta grana para pagar a dívida? É porque como o governo gasta demais e investe de menos, a arrecadação federal não é suficiente para cobrir a falta de freio nos gastos públicos. Gastos, entenda-se que são despesas mesmos, nele não se embutindo programas sociais e investimentos. São as chamadas despesas correntes.
Ora quanto mais a dívida cresce,maior deverá ser em valores reais, o montante a ser pago a título de juros. Assim, sobra menos para investir, como foi o caso dos investimentos em energia elétrica, aqui reproduzido em reportagem do site Contas Abertas.
Visto isto, o que nos sobra? Ora, vimos ontem também que, apenas em 2009, já se produziram em todo o país mais de apagões graves. Hoje mesmo, vários municípios em São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, permaneceram às escuras por contas das chuvas.
Ora, se a abundância de chuvas é importante para manter os reservatórios cheios para impedir o racionamento de energia, fato que ocorreu em 2001, por exemplo, foram dois anos de seca, que droga de sistema é este que não consegue se manter seguro diante de qualquer temporal de média intensidade? Que droga de PAC é este que o governo diz ter lançado para resolver os problemas de infra-estrutura do país, tão necessários ao nosso crescimento, que não consegue transmitir um mínimo de segurança para os consumidores, sejam eles residenciais ou industriais? E o que o governo está fazendo com a ANEEL, por exemplo, que permite que durante anos os consumidores sejam lesados pelas concessionárias com a cobrança abusiva de tarifas, e ainda assim, faltam recursos para investir i mínimo necessário para a segurança do nosso sistema elétrico?
De qualquer forma, por mais explicações que o governo venha dar e relatórios que venha produzir, o que fica é uma tremenda incerteza quanto a capacidade de gestão das nossas autoridades em áreas tão estratégicas quanto é a elétrica.
Fruto de má condução das finanças públicas, porque reduz investimentos prioritários, e do aparelhamento indiscriminado e irresponsável de órgãos em que a ação política sempre foi nefasta aos interesses do país.
Com todo seu aparato de especialistas o que sobrou do apagão foram apenas trevas. A única luz que fica é de alerta: alerta das muitas coisas erradas que se praticam nos escaninhos do poder, as quais, somente diante do desastre, é que a sociedade toma conhecimento.
Se antes faltava transparência, agora sobra incompetência...