Monteiro Neto pede medidas extraordinárias para o câmbio
Nesta terça-feira o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, abriu o 4° Encontro Nacional da Indústria (ENAI), em Brasília, informando que o Brasil deve adotar medidas extraordinárias para proteger a sua moeda e evitar o agravamento das condições provocadas pela valorização do real diante do dólar. Segundo ele, o câmbio valorizado prejudica o desenvolvimento do setor. "A indústria brasileira não pode ser desmontada por conta de fatores conjunturais que reclamam uma atitude firme do governo", disse.
Monteiro Neto alertou que diante de um cenário atípico, com taxas de juros negativas nos Estados Unidos e adoção estratégica, pela China, de política cambial atrelada à desvalorização do dólar é justa uma posição ativa e vigilante da indústria. Cabe, segundo o líder empresarial, um aperfeiçoamento da política cambial, estabelecida quando o problema era a escassez de divisas. "Não é mais este o problema do Brasil. Uma atualização da política cambial traria, portanto, elementos mais eficazes, sobretudo em relação à saída de recursos".
Além disso, a forte expansão do gasto público também foi destaque no pronunciamento de Monteiro Neto. O presidente da CNI lembrou que houve aumento de 13,5% na rubrica de pessoal do governo este ano. Ao todo, os gastos correntes já representam 17,6% do Produto Interno Bruto (PIB), toda a riqueza produzida pelo país. "E como resultado, o espaço para o investimento no setor público fica cada vez mais restrito", alertou.
A CNI defende que, no curto prazo, ainda é possível construir pontes em direção a um modelo voltado para a competitividade, o que pressupõe a desoneração do investimento e a aprovação de marcos regulatórios eficientes, bem como o fortalecimento da qualidade e independência dos órgãos de regulação. O Encontro Nacional da Indústria termina nesta quarta-feira, com a entrega da Carta da Indústria, às 13h. A carta é o ponto de partida para o documento consolidado que a CNI entregará, no ano que vem, aos candidatos à Presidência da República nas próximas eleições majoritárias.
Enquanto isso...
Lula descarta intervenção para conter queda do dólar
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira, em Roma, que o "dólar deve achar equilíbrio por conta própria", ao ser questionado se o governo adotará alguma medida de intervenção para evitar a queda da moeda norte-americana.
O presidente destacou que o sistema de câmbio no Brasil é flutuante, sendo a cotação definida pelo mercado financeiro. O Banco Central tem comprado dólares no mercado à vista desde 8 de maio deste ano. Isso é chamado pelo mercado de "flutuação suja", ou seja, o BC atua para evitar oscilações muito bruscas, porém, não determina diretamente a cotação do dólar.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Pois é, embora todas as evidências indiquem que o caminho deveria ser outro do que aquele que o governo escolheu, na política cambial este governo já disse que não mexe. Quando o Plano Real foi, com dólar valendo na época R$ 0,85, lembro bem da crítica que Lula fez ironizando o câmbio fixo. Só que aquele foi um primeiro passo dos muitos que se seguiriam e que deram um tiro de misericórdia na inflação nos empurrando para tão sonhada estabilidade.
Acredito mesmo que Lula tenha uma convicção de que o câmbio deve permanecer como está. Ele percebeu que o real sobrevalorizado mantém a inflação. Claro que não se trata do único motivo, há outros, mas este é um elemento importante.
Só que existe, como em tudo na vida, um limite que, se ultrapassado, acaba entornando o caldo. Hoje, Mantega, não sei se irônico ou crente mesmo, apresentou um estudo que indicava que o dólar estaria na casa dos R$ 2,60. Há poucos dias, e nós reproduzimos aqui, ele afirmara que uma certa disparidade em torno de 50% o que conduziria o valor do dólar em torno de R$ 2,10.
Seja como for, o real cotado acima de um parâmetro digamos... civilizado, traz muito mais prejuízo do que benefício.
Bom, acho que já falamos bastante sobre isto aqui. Já demonstramos que o limite de queda do dólar em relação ao real, ultrapassado do ponto de certo equilíbrio, traz mais prejuízos do que benefícios. Estamos deixando de gerar empregos aqui dentro, para incentivá-los lá fora.
Tal fenômeno vem ocorrendo com maior intensidade desde 2006. Apesar de, em valores, nossas exportações serem crescentes, em volume e em pauta de produtos industrializados, estamos perdendo espaço, mercado, divisas e deixando nosso mercado à deriva em relação ao produto estrangeiro. Nossas exportações só se mantém em valores no nível em que estão, graças aos preços elevados das comodities no mercado internacional. Não fossem elas, a queda dos saldos comerciais seriam ainda maiores do que tem sido.
É lamentável para o país que o governo Lula insista em não enxergar o óbvio. Se, no curto prazo, a política cambial quando combinada com a política de expansão do crédito interno, ainda consegue manter a demanda interna aquecida, no médio e longo prazo tende a atingir um ponto de exaustão extremo com graves conseqüências para os investimentos produtivos e geração de emprego e renda.
Sendo assim, somos totalmente contrários a atual política de desonerações concedidas a alguns grupos específicos. Para a indústria brasileira se mantenha competitiva como um todo, a desoneração deveria ser dada a todas as cadeias econômicas, indistintamente.
Cedo ou tarde, Lula terá que se curvar às evidências do quanto é prejudicial para o desenvolvimento do país a manutenção da atual política cambial. Não estamos, com isso, preconizando o câmbio fixo, nada disso. Mas há medidas que se tomadas colocariam o real num patamar em relação mais equilibrado. Se o limite deve ser de R$ 2,10 ou R$ 2,60como Mantega anunciou hoje, isto pouco importa. Não pode é continuar do jeito que está, e sem que nossas autoridades tomem alguma providência no sentido de proteger a indústria brasileira.
Claro que sabemos o que se esconde por detrás da omissão praticada. Mas isto tem limites além dos quais o prejuízo passa a ser em escala muito maior do que os benefícios.
Apenas neste ano, a queda nas exportações da indústria já chegaram a 24%, e isto se deu não por culpa apenas da crise. Acreditem, é muito para um país que ainda carrega as carências sociais e econômicas que nos afligem.
Esta é "a maior redução desde os anos 1980", de acordo com o diretor do Derex (Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior) da Fiesp, Roberto Giannetti da Fonseca. Considerando a indústria geral, a queda é de 18,5%.
Segundo ele, o resultado negativo nas vendas externas do país se deve a recessão nas principais economias mundiais e ao real cada vez mais valorizado frente ao dólar.
Como as transações com outros países são feitas em dólar, quando a cotação da moeda cai, o volume vendido ao exterior também se reduz. Além disso, com a crise financeira, muitos países diminuíram sua demanda por produtos industrializados.
O que o governo deveria enxergar não são apenas os números vigorosos da nossa economia vistos de forma absoluta. Temos capacidade para tornar estes números muito melhores e estamos jogando fora oportunidades de crescer mais e melhor, de diminuir as distâncias que separam pobres e ricos no seio da nossa população, em tornar a massa salarial mais encorpada, e não achar que o consumo apenas alimentado pelo crédito resolverá todos os nossos problemas internos. Não vai, porque a capacidade de crédito tem limites.
Crescimento sustentado como pretendem nossas autoridades não se dá apenas com crédito, porque isto forma bolhas que cedo ou tarde acabam estourando. O crescimento é sustentado, dentre outras coisas, pela expansão da massa salarial, e isto só se obtém com crescimento econômico robusto, em índices superiores ao crescimento vegetativo da população do país. E a forma de se obter esta meta, passa, obrigatoriamente, pelo fortalecimento da indústria que precisa encontrar espaço para sua expansão. Com o câmbio do jeito que está, estamos incentivando o crescimento econômico lá fora.
Além disto, é fato, que as melhores portas de saídas dos programas sociais é o crescimento econômico sustentado, com a expansão do emprego e da renda.
A pergunta que fica, portanto, é esta: terão governo atual vontade política para tanto?Será que manter os programas sociais sem portas de saída, não será um programa preconcebido e intencional de criação de currais eleitorais?