O Globo
O principal programa social do governo federal, o Bolsa Família, terá de ser modificado e ampliado se a presidenta eleita Dilma Rousseff quiser cumprir a promessa de erradicar a miséria. Esta é a avaliação dos especialistas em pobreza Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Ricardo Paes e Barros, também do Ipea.
Pochmann recomenda que o Bolsa Família suba de status e deixe de ser um programa ministerial e para tornar-se uma política regulamentada em lei, como acontece, por exemplo, com o seguro-desemprego.
Para ele, a extinção da indigência força a ampliação do volume de recursos e do universo de pessoas beneficiadas. "É preciso dar acesso às famílias na medida em que se cadastra [as famílias]. Há famílias que estão cadastradas, mas não são beneficiadas", lembra.
Além de ampliação e agilidade, o presidente do Ipea sugere integração dos programas sociais. "Nós estamos entrando no núcleo duro da pobreza, o que é um pouco mais difícil. Será preciso adotar ações mais articuladas e mais integradas, um painel de ações direcionado para esse núcleo", avalia.
Marcelo Neri sugere o "Bolsa Família 2.0". Segundo ele, "os frutos mais baixos já foram colhidos. Agora é preciso colher os frutos mais altos".
Fazendo a mesma analogia, o economista sugere a manutenção da "máquina colheitadeira" do Bolsa Família, que atingiu um quarto da população com custo de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB), e também "um trabalho mais artesanal", o que significa gastar mais com alguns segmentos beneficiários por meio de outros programas sociais.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A notícia acima vem de encontro ao artigo com que encerramos a edição de ontem. Da forma como o programa vem sendo conduzido não há como reduzir em grande escala a pobreza, quiçá, nem a miséria. O programa está distante do que deveria ser um “programa social” digno do nome. Não há metas, a não ser a de ampliar o número de beneficiários, e isto se choca com uma pretensão de valorizar e dignificar a pessoa humana para que ela possa subir na escala de sua qualidade de vida a tal ponto de , rapidamente, prescindir da muleta do assistencialismo.
Portanto, é de se esperar que se retome, rapidamente, as metas traçadas para os programas sociais quando de sua implementação ainda no governo de Fernando Henrique, justamente para se ataca cada uma das nossas imensas desigualdades e carências com o propósito de redução. Que desta vez se faça a coisa certa.