Bolívar Lamounier, Exame.com
Como será o Brasil daqui a 25 ou 30 anos ? Será possível responder tal pergunta de forma consistente, ou devemos nos resignar ao clássico “o futuro a Deus pertence”?
A futurologia é um ramo curioso. Fazer projeções para um prazo curto pode ser mais difícil que para um prazo muito mais longo. Ou, por outra, quem pensa no curto prazo tem mais chance de ser cobrado e contestado . Quem imagina um futuro distante sempre deixa a impressão de ter acertado.
Dou um exemplo. No início do século 20, Euclides da Cunha escreveu que o Brasil estava “condenado à civilização”. Para mim, acertou. Olhando para trás, me parece mais razoável pensar que o Brasil melhorou do que imaginá-lo estagnado no tempo, ou piorando.
Sim, sei, tudo é relativo. O que estou dizendo é que a trajetória foi ascendente : uma subida difícil, complicada, cheia de desequilíbrios, mas uma subida quand même. Ou seja, em média, melhorou. Somos hoje mais viáveis como país e vemos com mais clareza o que é necessário fazer para sermos uma sociedade apreciada pela quase totalidade dos brasileiros.
O que incomoda na expressão de Euclides é a sua forma taxativa : ao ver dele, nós estaríamos “condenados” à civilização. Soa como se o progresso pudesse acontecer com ou sem o nosso esforço, e até à nossa revelia. Mas essa era a linguagem de cem anos atrás, quando os nossos letrados acreditavam piamente numa evolução espontânea ou praticamente autônoma da sociedade.
Feita esta ressalva, eu me animo a dar uma de Euclides. Penso que o Brasil da próxima geração vai ser muito melhor que o atual. Será um país com um bom nível de vida – anos atrás Hélio Jaguaribe cogitou um nível de vida semelhante ao que a Espanha tem hoje -, socialmente mais homogêneo e com uma democracia mais bem organizada.
Mas atenção, a época de Euclides já se foi há muito tempo. O futuro em que estou pensando não vai chegar automaticamente. Nada garante que o nosso trajeto até lá seja irreversível.
E aí, como fica? Que trajeto é esse de que estamos falando? Eu imagino que nesse período nós precisaremos nos assemelhar à China, mas com uma diferença fundamental. Precisaremos ser uma China liberal e democrática, com garantias de pluralismo e liberdade ainda mais efetivas que as atuais, com as práticas da cidadania bem caracterizadas – numa palavra, como eu disse acima, uma democracia amadurecida e bem organizada.
Acostumado ao meu mau humor, o leitor deve estar perguntando o que deu hoje em mim. Não deu nada. Só estou tentando pensar com um pouco de lógica. Se o preço do nosso crescimento econômico for o sacrifício das liberdades, não vai dar muito certo. Se for a arregimentação de uma massa para trabalhar em condições de semi-escravidão, não vai dar mesmo. Será simplesmente inviável.
Governo nenhum e partido nenhum conseguirão tal proeza. Se dependermos disso, convirá começarmos a projetar um cenário anti-euclidiano – ou seja, a possibilidade de alguma reversão.
A reversão é uma hipótese absurda ? É uma boa pergunta. Boa e difícil. Não me passa pela cabeça tentar respondê-la sem antes examinar muitos dados e pesquisas.
Mas posso e qualquer cidadão que pensar no assunto certamente poderá citar alguns valores sociais e índices estatísticos que não parecem animadores.
No plano dos valores, milhões de brasileiros precisam se convencer de que there is no such thing as a free lunch (não existe lanche grátis). Se o seu último lanche não foi você que pagou, foi um amigo seu, ou seu empregador, ou o Estado . Do céu, com certeza ele não caiu.
Poucos dias atrás a imprensa divulgou os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, um teste aplicado em 2009 a estudantes de 15 anos em 65 países (ver comentário postado no dia 08.12 no blog de Alexa Salomão, aqui no Portal Exame). Nessa última edição, a pesquisa testou a capacidade de tais estudantes na leitura e interpretação de um texto simples.
No Brasil, sobretudo no governo, houve quem comemorasse por termos melhorado bastante em relação ao ano 2.000. O problema é que, mesmo tendo melhorado, o Brasil ocupa a 53ª posição entre os 65 países avaliados.
Não sei se me fiz bem entender. Em resumo, o que eu tentei dizer foi isto:
(1) Nossos ideais como país são ótimos ; resultam de um século inteiro ao longo do qual conseguimos bem ou mal melhorar o nosso patamar civilizatório; e não me parece provável que queiramos abrir mão deles nas próximas duas ou três décadas ;
(2) o problema é que um país empenhado em atingir ou manter determinado patamar de “civilização” precisa continuar pedalando – ou seja, recriando continuamente os valores e recursos de que necessita para que tal objetivo permaneça viável.