terça-feira, dezembro 14, 2010

WikiLeaks: liberdade de expressão, de um lado, uma séria questão moral, de outro

Ricardo Setti, Veja online


Julian Assange, o fundador do site WikiLeaks

Alguns leitores estão me questionando porque não me manifesto a respeito do assédio e sufocamento a que está sendo submetido Julian Assange, o fundador do site WikiLeaks, que vem divulgando regularmente um lote de 250 mil documentos sigilosos — objetivo do site — de diplomatas americanos.

Assange está preso em Londres, a pedido das autoridades da Suécia, sede de suas atividades e onde ele é acusado de supostos crimes sexuais. Empresas de cartões de créditos e o sistema de pagamentos pela internet PayPal, por meio dos quais a WikiLeaks recebia doações, cortaram relações com o site.

Há uma forte corrente de protesto diante das pressões contra Assange, em nome da liberdade de expressão, que incluem desde a alta comissária da ONU sobre Direitos Humanos, a jurista sul-africana Navanethem Pillay, até o presidente Lula, que resolveu meter a colher no assunto.

MEDO DA PECHA DE CENSURA
Pois bem, junto-me a essa corrente. Por falta de coragem para impedir que Assange divulgue informações incômodas e escapar da pecha de defender a censura, os governos dos Estados Unidos e de países amigos, como o Reino Unido e a Suécia, arranjaram um pretexto — as acusações de “crimes sexuais”, que incluem até um inocente aperto no braço de uma moça — para tentar calar o dono do WikiLeaks.

O site presta um serviço importante ao divulgar documentos de alto interesse público, mesmo que sejam eventualmente subtraídos ilegalmente por funcionários que a eles tiveram acesso, e a imprensa tem o direito de divulgá-los justamente por se revestirem dessa característica.

A QUESTÃO MORAL
Isso não me impede, porém, de me indagar e me preocupar sobre a moralidade de como WikiLeaks obtém os documentos sigilosos, não apenas nesse atual caso, mas desde que o site começou a funcionar, no final de 2006, armazenando e distribuindo informação. Não é coisa pequena: trata-se de uma alta questão moral.

As hipóteses são muitas, inclusive as seguintes:

* Os documentos divulgados pelo WikiLeaks em sua maioria devem ser roubados por funcionários de governos ou empresas;

* Assange e o WikiLeaks podem usar o dinheiro doado proveniente do mundo inteiro — não se sabe se ocorre, mas pode ocorrer — para corromper funcionários com acesso a esses documentos;

* Assange e seus colaboradores podem atuar no mercado negro de informações vendidas por serviços de espionagem de diferentes países.

Adicionalmente, tenho sérias dúvidas sobre se podem ser divulgadas, pela mídia, informações privadas de funcionários de governos ou empresas frequentemente contidos nos documentos que o WikiLeaks libera.