terça-feira, dezembro 14, 2010

A turnê mundial da pimenta

Thomas Pappon , BBC Brasil

Porque arde, a pimenta criou em bela confusão. Culpa de Cristóvão Colombo.


Até o descobrimento das Américas, o nome em espanhol pimiento designava a pimenta-do-reino, fruto seco moído da trepadeira Piper nigrum.

E quando Colombo conheceu a fruta vermelha da planta Capsicum annum, que os indígenas na América Central cultivavam havia milhares de anos, resolveu dar-lhe, por ser ardida, justamente o mesmo nome genérico de pimiento.

Essa é a fruta que conhecemos hoje como pimenta, que tem dezenas de variedades ardidas (malagueta, comari, dedo-de-moça, murupi, scotch bonnet, etc) ou pimentão (que, aliás, é o único Capsicum que não produz capsaicina, o componente natural que dá a sensação de ardor no contato com as membranas mucosas).

E por isso temos hoje duas 'pimentas' distintas (a do reino e a Capsicum) entre os três ou quatro condimentos mais usados no mundo.

Mas curioso mesmo é observar a trajetória pós-Colombo da pimenta Capsicum.

Das Américas (onde era cultivada do México ao norte da América do Sul) ela foi trazida para a Espanha, onde descobriram (nos monastérios, aparentemente) o seu potencial na culinária como excelente substituto para a pimenta-do-reino, então uma especiaria cara e importada.

Os espanhóis e portugueses levaram a Capsicum para a Ásia, por onde se espalhou e se transformou em um ingrediente popular e querido, do Paquistão às Filipinas.

As cozinhas tailandesa e indiana, por exemplo, seriam outra coisa não fosse essa pimenta – chamada em inglês de chilli pepper. O Sudeste Asiático e o sul da Ásia produzem e exportam hoje vários tipos de chilli peppers - lá no meu supermercado, por exemplo, a tailandesa é a mais comum.

Da Índia vem hoje a pimenta tida como a mais ardida do mundo. Aliás, o prato mais ardido que comi na minha vida foi justamente num restaurante indiano aqui em Londres. Fiz a besteira de pedir um prato descrito no cardápio como very hot, e veio um curry que, mesmo sendo macho pacas, não consegui encarar até o fim.

Da Ásia, via Oriente Médio, a pimenta se espalhou para a Turquia e a Hungria, que desenvolveram variantes de pimenta em flocos ou em pó (mencionadas no post sobre o cilbir).

Na minha opinião, a pimenta turca em flocos, também conhecida como aleppo, de ardor moderado (há uma escala para isso, sabiam? a escala Scoville), vai conquistar o mundo. Ela já faz sucesso no Mediterrâneo e no Oriente Médio, e seu uso vem crescendo nos Estados Unidos. Ela é versátil, eu substituo pimenta-do-reino pela aleppo em vários pratos – até na pizza.

Mas voltando à trajetória da pimenta, queria apontar para a teoria que diz que ela chegou à Índia trazida pelos navegadores portugueses – os mesmos que a trouxeram ao Brasil.

Essa é boa, enfim, para contar numa roda, quando o assunto for pimenta: 500 anos antes da era da globalização, a pimenta ganhou o mundo, levada à Europa por Colombo e depois pelos portugueses à Índia.