domingo, janeiro 30, 2011

Em visita, Dilma deve cobrar Cristina por Mercosul

Bárbara Ladeia, Brasil Economico

Presidente brasileira vai à Argentina para cobrar obediência do país vizinho às regras do bloco econômico.


Mesmo dentro do bloco econômico local, a relação da nação vizinha
com o Brasil tem sido de uma espécie de protecionismo velado

Ao final do primeiro mês de mandato, a presidente Dilma Rousseff fará sua primeira viagem diplomática na posição de chefe de Estado. O destino, na próxima segunda-feira (31/1), é a Argentina e a anfitriã, Cristina Kirchner, além de enfrentar problemas internos, agora deverá contar com a pressão de um novo oponente no tabuleiro global: o Brasil.

No entendimento de especialistas, o Mercosul segue como uma das prioridades da política externa no governo Dilma. No entanto, a metodologia é outra.

Mesmo dentro do bloco econômico local, a relação da nação vizinha com o Brasil tem sido de uma espécie de protecionismo velado, ainda que ocupemos cerca de 50% da pauta de importações da Argentina.

"Todas as relações entre Brasil e Argentina no âmbito do Mercosul resultaram em perdas para o Brasil", diz Marcelo Suano, pesquisador do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (Ceiri).

Além do protecionismo, a Argentina vem buscando acordos bilaterais com Europa e Ásia sem considerar o restante do bloco regional em suas negociações. Enquanto isso, o Brasil perde oportunidades e poder de barganha com outros países exatamente por obedecer às regras do Mercosul.

Mas a conivência brasileira - que até alguns membros do Ministério das Relações Exteriores reconhecem - diante do constante desacato argentino às normas do Mercosul e mesmo da Organização Mundial do Comércio (OMC) tem justificativa. Diante do sonho nacional de se posicionar como um competidor global frente as principais potências, não era bom ter na Argentina um inimigo político.

"Para o Brasil, sempre foi um investimento político. Mas, pelo que tenho visto da conduta da atual presidente quanto às relações exteriores, esse padrão pode ser rompido", afirma Suano. "Ela vai sinalizar que o Brasil não aceitará mais perdas econômicas em prol de ganhos políticos. As regras terão de ser cumpridas."

Autopeças
Se isso ocorrer, o segmento de autopeças nacional terá motivos para comemorar, tendo em vista que foi um dos mais prejudicados pelos desmandos do país vizinho. A Argentina eliminou o chamado "desembaraço automático" retardando por mais de seis meses a entrada das autopeças brasileiras no país, danificando os produtos e reduzindo vendas em seu território.

Com isso, além de evitar a concorrência com o produto local, o governo fomenta uma forte área de sua economia, ainda que prejudique outros segmentos. "Mesmo que os comerciantes e importadores sejam lesados, ele garante mais emprego e imposto vindo da indústria e de setores mais representativos do eleitorado", diz Suano.

Expansão
Com um pouco mais de otimismo, o encontro das duas presidentes pode ajudar a ampliar a liderança do Brasil dentro do Mercosul. "É uma reunião que pode levar a acordos interessantes que poderão ser extrapolados para os outros países vizinhos", afirma o professor de relações internacionais, e argentino, Mário Gaspar Sacchi. O fato da presidente Dilma ter perfil executivo também favorece esses ganhos de sinergia.

"São duas mulheres muito objetivas em negociação. Provavelmente, teremos menos conversa e mais resposta que nas reuniões com o Lula", diz.

Também pode despontar na pauta da reunião a questão da retomada das pesquisas nucleares argentinas em torno da geração de energia, visto que o país enfrenta crise energética. A visita do presidente americano Barack Obama ao Brasil, em março, deverá trazer o assunto à tona também. "Esse é um ponto crítico a ser abordado no encontro com Obama. Acho que a presidente Dilma vai adiantar esse assunto já nesta visita", diz Sacchi.