domingo, janeiro 30, 2011

Tragédia na Serra - OAB/RJ cobra de Cabral uma política de longo prazo para a Região Serrana

O Globo

RIO - O presidente da OAB/RJ, Wadih Damous, enviou nesta quinta-feira um ofício com pedido de providências ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Foi solicitada a adoção de uma política pública efetiva e de longo prazo para as cidades da Região Serrana do Rio atingidas pelas enchentes. Damous visitou Nova Friburgo na quarta-feira e se disse alarmado ao constatar que já se percebe um cenário de desmobilização por parte das autoridades e agentes de saúde.

- Friburgo e qualquer das outras cidades que foram atingidas não conseguirão, sozinhas, superar essa tragédia. A política pública por parte do governo deve ser ampla e em vários sentidos, não só focada na reconstrução de casas. Não temos visto nenhuma medida neste sentido - afirmou Damous.

O presidente da OAB/RJ disse, no documento a Cabral, estar especialmente em alerta para os indícios de desmobilização por parte das autoridades. Segundo ele, Nova Friburgo, além do cenário de destruição, é uma cidade extremamente empoeirada, com pessoas usando máscaras porque não conseguem respirar, e o hospital de campanha que funcionava na praça já foi desativado.

- Como há desativação se a estrutura de saúde de Friburgo já era precária e ficou muito pior após a tragédia? É óbvio que a situação de crise e emergência já passou, mas os problemas deixados após a tragédia são complexos - disse.

A Secretaria estadual de Obras negou que esteja havendo desmobilização. O órgão informou que o hospital da campanha foi desmontado após a reabertura do hospital municipal e a instalação de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na cidade. A secretaria argumentou ainda que o vice-governador Luiz Fernando Pezão está acompanhando os trabalhos na Serra e que foi montado um gabinete de reconstrução da região.

No documento, Damous afirmou que corre pela cidade um boato de que a busca por corpos de desaparecidos prosseguirá somente até a próxima sexta-feira. De acordo com o presidente da OAB fluminense, se a notícia for confirmada, será um erro absurdo, uma vez que há locais isolados em Friburgo onde só se chega de helicóptero ou a cavalo.

No ofício, ele ainda alertou o governador para a grave crise de desemprego que deve surgir na cidade, já que muitas empresas simplesmente acabaram. Segundo ele, também não há um trabalho de assistência social sério junto às pessoas que perderam moradia e parentes, o que tem impulsionado assustadoramente o consumo de bebida alcoólica na cidade.

Outro ponto destacado no documento a Cabral é o fato de que a população tem se recusado a sair das áreas consideradas de risco porque os alojamentos do governo são mal equipados. Segundo Damous, já foram ofertadas à prefeitura as mesmas tendas utilizadas no Haiti e que são melhores do que os abrigos mantidos pela Prefeitura:

- No entanto, não se vê iniciativa no sentido de encontrar uma área para instalar essas tendas, oferecidas gratuitamente aos desabrigados e que ainda não estão sendo aproveitadas.

Damous finaliza defendendo que não pode haver desmobilização, pois a crise estrutural decorrente da tragédia está presente, com pessoas desalojadas, desempregadas e com graves problemas psicológicos.

- Se essas pessoas forem simplesmente deixadas à própria sorte, não vão conseguir se recuperar - concluiu Wadih Damous.