sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Leandro Modé e Patrícia Cançado, O Estado de São Paulo

Empresário endureceu as negociações e, segundo fontes ligadas aos bancos, forçou o sistema financeiro a assumir dívidas do Panamericano

SÃO PAULO - Silvio Santos só aceitou vender o controle do Panamericano para o BTG Pactual após receber um telefonema do presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, no início da tarde de segunda-feira, dia em que o negócio foi anunciado. Até então, o empresário relutava em aceitar as condições da operação. O contrato foi assinado por volta das 20h30.

Segundo fontes que acompanharam as negociações, desde a confirmação do novo rombo de R$ 1,5 bilhão, cerca de 10 dias atrás, Silvio mostrou-se irritado. Em diversas ocasiões, "trucou". Dizia que, se as condições de venda não fossem mais favoráveis a ele, o Banco Central poderia liquidar de vez o Panamericano.

Procurada, a assessoria do Grupo Silvio Santos não quis comentar. O BC também não quis se pronunciar.

Em novembro, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) emprestou R$ 2,5 bilhões para cobrir um rombo no banco, descoberto em setembro pelo BC. Em troca, Silvio deu seu patrimônio como garantia. O FGC é uma entidade criada e mantida pelos bancos desde 1995, cujo objetivo é garantir depósitos de correntistas em caso de quebra de algum banco.

No dia 9 de novembro, a diretoria do Panamericano foi demitida. Assumiram executivos indicados pela Caixa (que tem 49% do capital votante) e pelo FGC, que identificaram mais inconsistências nos números. Em janeiro, as suspeitas se confirmaram.

O buraco não era de R$ 2,5 bilhões. Chegava a R$ 4 bilhões. A única saída para evitar a liquidação do banco era um novo empréstimo. Os principais banqueiros do País aceitaram cobrir o rombo. Mas exigiram a troca do acionista controlador: Silvio.

As conversas começaram. O FGC apresentou um esboço de proposta a Silvio, que impôs uma condição: só venderia o banco se saísse sem dívida e com o patrimônio liberado. Os banqueiros não gostaram. Mas avaliaram que a alternativa seria pior. Uma quebra do banco geraria despesa adicional de R$ 2,2 bilhões para o FGC, que teria de cobrir depósitos de clientes. No total, chegaria a R$ 4,7 bilhões.

Pouco depois, surgiu o primeiro e único interessado: o BTG Pactual. As condições da venda foram antecipadas ontem pelo Estado: o BTG deu R$ 450 milhões em títulos a Silvio e assumiu o controle do banco. Silvio repassou os papéis ao FGC. O BTG tem até 2028 para pagar a dívida, com 13% ao ano.

Se deixar para pagá-la até lá, o valor terá sido de R$ 3,8 bilhões - exatamente o que foi emprestado pelo FGC. Se o BTG quiser pagar hoje, amanhã ou na semana que vem, o FGC terá prejuízo de R$ 3,35 bilhões. E Silvio saiu do negócio sem dívidas.

Por que os banqueiros aceitaram as condições? Em primeiro lugar, porque o prejuízo seria maior com a liquidação do banco (R$ 4,7 bilhões). "E porque preferimos pensar na estabilidade do sistema", diz o presidente do FGC, Gabriel Jorge Ferreira.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Na verdade o que pretendia preservar era o envolvimento da Caixa Econômica Federal na trapaça, quando adquiriu participação já com o rombo aberto. Este é o motivo para o negócio que já era suspeito ter ficado pior. Com a venda, imaginam ter encoberto todas as pistas da tramóia.  Com a liquidação, a situação da Caixa Econômica ficaria insustentável. Assim, se diz que não houve uso de dinheiro público (tanto houve que a Caixa tornou-se acionista, e isto não é feito de graça), e dão a lambança opr encerrada. 

Resta saber quem cobrirá o rombo? Querem saber, são todos os correntistas, já que os bancos repassarão o custo para tarifas. O fundo pode até ser privado, mas o prejuízo será devidamente "socializado".