Augusto Nunes, Veja online
Foto: Juan Mabromata/AFP
Na visita de menos de 7 horas à Argentina, Dilma Rousseff achou pouco emocionar-se apenas na conversa com Cristina Kirchner e no encontro com as Mães da Praça de Maio. Para provar que no peito da mulher mandona bate um coração hipersensível, emocionou-se também ao descobrir que a declaração conjunta das duas presidentes fora lida no Salão dos Pensadores Argentinos. Aquilo merecia um falatório de improviso, resolveu. Depois de explicar que o salão da Casa Rosada “é dedicado a escritores e cientistas”, a especialista em não dizer coisa com coisa decolou espetacularmente: “Acho uma simbiose estar aqui. Este é o sentimento da nossa cooperação”.
“Simbiose é uma relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos de espécies diferentes”, avisam todos os dicionários. O que fez o neurônio solitário misturar simbiose e pensadores na sopa de letras em dilmês erudito? O que animou a viajante a deduzir que a cooperação é um sentimento provocado por simbiose? O que deu na cabeça da declarante? Os argentinos se recolheram ao silêncio dos perplexos. Os brasileiros fingiram ter entendido tudo. Nenhum jornalista da comitiva solicitou à declarante que traduzisse o palavrório impenetrável em língua de gente.
A primeira apresentação no exterior mostrou que Dilma tem-se esforçado para assimilar a lição ministrada por João Santana. “Para ocupar o espaço de uma rainha”, ensinou-lhe o marqueteiro do rei, é preciso falar só de vez em quando e limitar-se a platitudes ou perfumarias decoradas alguns dias de antecedência. Na Argentina, em pouco mais de seis horas, falou o que Lula fala em menos de cinco minutos. Tanto bastou para que os jornalistas incorporados à comitiva presidencial enxergassem em Buenos Aires a estreia internacional do que qualificam de “estilo contido e discreto”.
Se não lhes faltasse coragem para ver as coisas como as coisas são, fariam a gentileza de contar aos leitores que, com a redução do ritmo da fábrica de disparates que funcionou em tempo integral durante a campanha, o neurônio solitário ficou mais lento. Mas continua indomável. Dispensada da continuação do caudaloso Discurso sobre o Nada, Dilma agora capricha no besteirol em conta-gotas.
