Daniela Milanese, da Agência Estado
Enquanto o Brasil vê como bem-vinda a demanda chinesa por commodities, reclama da entrada de manufaturados chineses baratos, o que traz o risco de desindustrialização
LONDRES - As relações comerciais entre Brasil e China apontam para as diferenças, desafios e desencontros existentes entre as duas economias, diz o Financial Times, em caderno especial sobre o tema divulgado hoje (23). "Há sinais crescentes de que a lua de mel acabou", afirma o jornal britânico.
Segundo o diário, "seria muito difícil encontrar duas grandes nações no mundo moderno que sejam social, política e culturalmente tão diferentes quanto China e Brasil". Em razão disso, o FT alerta para o "crescimento das tensões" entre os países.
Enquanto o Brasil vê como bem-vinda a demanda chinesa por commodities, reclama da entrada de manufaturados chineses baratos, o que traz o risco de desindustrialização.
O crescimento das relações comerciais entre os países e os bilhões obtidos com a venda de matérias-primas estimulam a economia brasileira. Isso permitiu que o governo desse início a um boom econômico movido pelo crédito, sem se preocupar com o déficit em conta corrente, na avaliação do Financial Times. "Pela primeira vez, a classe média baixa tem dinheiro para gastar. Ao mesmo tempo, de repente ela pode bancar a compra de produtos graças a uma enxurrada de importações baratas da China", diz o FT.
Mas, do ponto de vista industrial, há preocupações. A Fiesp argumenta que o superávit comercial brasileiro com a China, de US$ 5,2 bilhões no ano passado, foi obtido graças à venda de commodities. Na área de manufatura, houve déficit recorde de US$ 23,5 bilhões. "Hoje, é difícil encontrar alguma coisa fabricada no Brasil", afirma o jornal, ao lembrar que 80% das fantasias do carnaval deste ano foram importadas, a maior parte da China.
Em visita recente ao país, a presidente Dilma Rousseff pressionou para que a China comprasse mais produtos industrializados do Brasil - foram fechados negócios com a Embraer e houve o anúncio do compromisso de investimentos da Foxconn, empresa de Taiwan com forte operação na China.
Os fabricantes nacionais alertam que o País pode sofrer desindustrialização caso não imponha mais medidas protecionistas sobre que chamam de dumping de produtos chineses artificialmente baratos, aponta o jornal britânico.
Para o FT, a China também representa outros desafios para o País. "O Brasil é uma democracia liberal que pretende cada vez mais apoiar os direitos humanos, enquanto a China é autoritária e uma repressora brutal das discordâncias."
Além disso, o Brasil quer ser uma força dominante na América Latina, enquanto o crescimento do comércio da China na região a tornam uma competidora, avalia o FT.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Muito embora o jornal britânico tenha feita uma avaliação correta, ela, contudo, não é completa. Há questões de natureza interna que, se bem resolvidas pelo governo, poderiam reduzir em muito este processo de desindustrialização. Aliás, este tema já abordamos inúmeras vezes aqui. E tudo começa pela escolha do governo petista em querer tornar a presença do Estado na economia ainda mais expressiva do que já é. Os recursos que acabam sendo deslocados para bancar este aumento do tamanho do Estado, acaba pressionando os gastos públicos em demasia, razão pela qual os investimentos públicos em infraestrutura estão muito aquém das necessidades do país. Goste-se ou não, o fato é que os custos de produção, que poderiam ser reduzidos para tornar nossos manufaturados mais competitivos, e em condições de disputar o mercado interno com maior força, não encontram espaço suficiente para chegarem a tal condição.
Coloque-se nesta balança o peso dos impostos, a burocracia intragável, a insegurança jurídica permanente, e os juros altos que são provocados justamente pelo excesso de gastos correntes do Poder Público, e ficam expostas aí nossas deficiências de podermos competir em igualdade de condições. A questão cambial, que tem levado muitas empresas a sairem do Brasil para irem produzir na India, na Russia e na própria China, além de alguns países da América Central, não se trata apenas do excesso de liquidez internacional. Ela acaba prejudicando o Brasil muito mais do que em outros países em desenvolvimento, justamente por ser fruto do juros que são mantidos nas alturas.
Portanto, dá para resolver e superar muitas das atuais dificuldades do país com medidas internas. E uma delas, por certo, é reduzir o peso do Estado na economia. O que precisamos é de um Estado eficiente, e não de um agente corrosivo da riqueza que o país pode produzir.