Carta ao Leitor, Revista VEJA, edição 2257
Alguém já disse que a esperança é a última que morre. Uma reportagem desta edição de VEJA mostra que, se havia esperança de que o Brasil seria capaz de usar melhor o dinheiro dos contribuintes, ela pode estar morrendo. Os mais recentes números sobre como o governo gasta nosso dinheiro revelam que pela primeira em dez anos houve redução no volume de investimentos públicos, enquanto aumentaram as despesas com salário do funcionalismo e previdência.
É um péssimo sinal. A começar pelo desempenho da maior e mais poderosa estatal, a Petrobrás, que o ex-presidente Lula, em um diagnóstico perfeito, chamava de “aquela nação amiga”. A estatal de energia divulgou que seu lucro líquido obtido no quarto trimestres de 2011 atingiu apenas a metade dos 10 bilhões de reais estimados. Suas ações estavam em queda livre nos dias que precederam o Carnaval. Parte desse engessamento deve-se à visão enviesada do que seja o papel do estado e de suas estatais em economia moderna inserida no processo de globalização. A Petrobrás se entrevou por causa dessa miopia. A estatal de energia simplesmente não tem como atuar no duplo papel de empresa de mercado e braço político, social e de política econômica do governo. A Petrobrás é obrigada por lei a utilizar pelo menos 65% de equipamentos de fabricação nacional, que custam mais caro, são entregues com atraso e não têm a mesma qualidade dos importados. Ao mesmo tempo, para não pressionar a inflação, vê-se na contingência de subsidiar em pelo menos 16% do óleo diesel que distribui no Brasil, operação heterodoxa de política econômica que custou 8 bilhões de reais aos cofres da empresa.
O panorama geral no primeiro ano do governo Dilma evidencia uma férrea e altamente positiva disposição de cumprir a meta do superávit fiscal de 3% do produto interno bruto (PIB), condição básica para a manutenção da estabilidade, mas uma inapetência generalizada da administração direta e das estatais por investir em projetos de real impacto na qualidade de vida dos brasileiros, na recuperação da infraestrutura e na diminuição dos custos da economia.
O Brasil precisa urgentemente discutir se quer um estado que na interfira na economia apenas para garantir a concorrência e corrigir outras falhas nos mercados, o que é saudável - ou se vamos continuar tendo um estado que, por cegueira ideológica, interfere na economia para desafiar os mercados, o que costuma acabar muito mal.