domingo, fevereiro 26, 2012

O mercado é implacável, mas a paralisia política é fatal

Antonio Ribeiro, Veja online


Durante anos os políticos italianos foram incapazes de mudar um governo que conduzia à Itália a bancarrota. Pior: a maioria foi cúmplice. Ficou por conta da bolsa de valores italiana sinalizar com altas e baixas no pregão milanês que a posição do bilionário Sílvio Berlusconi era insustentável e, finalmente, empurrar à força o Cavaliere em direção à porta de saída.

Mas o fundo da questão na Itália, apesar da anunciada partida de Berlusconi, continua o mesmo. O país, terceira maior economia da zona do euro, tem uma dívida pública colossal que aproxima-se de 2 trilhões de euros, a quarta maior do planeta. A taxa de desemprego é de 8,3%, entre os mais jovens, a face mais desesperadora da crise, o índice dobra. Em 2011, o crescimento econômico na península entre o Mediterrâneo e o Adriático foi 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Pífio.

Entretanto os mercados continuam convertendo o conto de fadas, parte da retórica desavergonhada da classe política, em realidade crua. A taxa de rendimento (yield) dos títulos italianos com vencimento em 10 anos, atingiu 7,25% ao ano. O triste recorde, desde a criação do euro,  lembra a Itália a sua situação real, a de devedora insolvente sem a ajuda externa, a exemplo do ocorrido com Grécia, Portugal e Irlanda.

Desta vez, não é o ocupante da Presidência do Conselho de Ministros da Itália que vai embora. Desenha-se no horizonte a perspectiva da saída italiana da zona do euro, acrescida do risco de arrastar outros países da periferia do Velho Continente. A eventualidade implicaria o fim do euro e, fatalmente, da União Européia. Uma tremenda lição da economia à paralisia dos políticos.

Mesmo assim, parece que os políticos ainda não aprenderam. Isso porque no fim do dia, se agirem de forma determinada, em concertação e rapidamente, ainda podem salvar a Itália. Em última instância, a sua pele. Coisa que Berlusconi não fez. Tampouco os chefes de estado fizeram quando tiveram a oportunidade na  recente reunião do G20 em Cannes, no sul da França.

O outro ensinamento dos mercados é que eles agem de forma coordenada e rápida, ainda que movidos por pavor de perda e ou euforia de ganho. Se houver erro de cálculo, a dinâmica seguinte, cedo ou tarde, leva à medida justa. Evidente que os governos não podem acompanhar as oscilações dos pregoes. Os interesses são outros. Contudo, agir como o paciente de doença grave que vê na procrastinação o melhor tratamento, tem conseqüências funestas.