domingo, outubro 21, 2012

Argentina nega disparada da inflação e pressiona firmas de consultoria


Janaína Figueiredo
O Globo

Nos últimos dois anos, 11 empresas foram processadas por divergirem dos índices oficiais

TERCEIRO / AGÊNCIA O GLOBO
Consumidores fazem compras em açougue de Buenos Aires

BUENOS AIRES – Em meio a crescentes pressões da Casa Rosada para impedir que consultorias independentes divulguem seus indicadores, principalmente o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), o secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, defendeu ontem os números do Indec (o IBGE argentino), deixando clara a decisão do governo de Cristina Kirchner de não modificar uma metodologia questionada pela maioria dos economistas locais e que pode levar o Fundo Monetário Internacional (FMI) a aplicar sanções ao país.

O governo Kirchner nunca mostrou interesse em recuperar a credibilidade perdida pelo Indec em 2007, quando o então presidente Néstor Kirchner ordenou sua intervenção. Nesta sexta-feira, Moreno, que nos últimos dois anos processou 11 empresas de consultoria independentes na Justiça por suposta violação da lei de “Lealdade Comercial”, levando-as a suspender a publicação de medições de inflação, mostrou que a Casa Rosada está firme em sua posição:

— A inflação é a que oficialmente mede o governo (leia-se o Indec).

Moreno argumentou que “o preço da carne é o mesmo de 2010”. Mas o próprio Indec indica que, de setembro de 2010 até o mês passado, o preço subiu 13,5%. Já segundo as consultorias, alguns tipos de carnes subiram até 100%

‘Estatísticas provam manipulação’
Moreno, que também se destaca na equipe de Cristina na cruzada do governo contra meios de comunicação, especialmente o Grupo Clarín, não gosta de falar com a imprensa, mas aceitou dar entrevista a uma revista do Partido Comunista, para reforçar a posição expressada recentemente pela presidente, em discurso na Assembleia Anual das Nações Unidas. Poucos dias antes, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, ameaçara dar um “cartão vermelho” à Argentina caso não adote medidas para divulgar dados econômicos de “qualidade e integridade” até o fim do ano. Cristina rebateu: “meu país não é time de futebol”.

Em Buenos Aires, basta visitar qualquer açougue para perceber que a informação do secretário não reflete a realidade em que vivem os 40 milhões de argentinos. A rede de açougues "El rei de la carne" oferece um dos preços mais baixos do mercado. Perguntado sobre os valores de 2010, um vendedor da filial do bairro de Belgrano foi taxativo:

— Ninguém pode acreditar no que Moreno diz, parece viver em outro país — disse, sendo interrompido pelo gerente que, ao perceber que a informação sairia na imprensa, mudou o discurso e concordou com o Moreno.

Nos últimos anos, o funcionário acumulou poder e muitos comerciantes temem ser retaliados por sua secretaria, caso critiquem o governo em público.

Os processos contra as consultorias estão nos tribunais locais e, segundo explicou o economista Fausto Spotorno, da Orlando Ferreres e Associados, uma das vítimas do secretário, poderiam terminar na Corte Suprema. Moreno acusa as empresas de divulgar o que a lei de Lealdade Comercial denomina “falsos preços”. Se condenadas, a multa é de 500 mil pesos (US$ 117 mil).

— É absurdo, porque não vendemos nada, não somos comerciantes, só economistas que calculam dados — disse Spotorno. — É ridículo que nos acusem de dar falsos preços, aberração jurídica. O que querem era que deixássemos de dar dados à imprensa, criar clima de medo entre economistas que se atrevem a informar estatísticas que provam a manipulação dos dados do Indec.

Economia cresce abaixo do esperado
A lista das empresas denunciadas por Moreno inclui a Fundação de Investigações Econômicas e Trabalhistas (Fiel), Abeceb (do ex-secretário da Industria Dante Sica), Estudo Bein, Finsoport, Buenos Aires City, Ecolatina (fundada pelo ex-ministro da Economia Roberto Lavagna), M&S Consultores, Gabriel Rubinstein & Asociados, Econviews, Associação de Dirigentes de Empresas e Economia & Regiões.

— Moreno nega a realidade, faz acordos de preços que depois não existem, mas servem para construir os indicadores do Indec que há anos carecem de total credibilidade — disse Mariano Lamothe, economista-chefe da Abeceb.

Segundo ele, alguns funcionários do governo Kirchner admitem, em conversas informais, que o IPC do Indec está abaixo da inflação real:

— O país pode sofrer sanções do FMI. Mas hoje não usamos financiamento externo e o impacto não seria tão grave, a não ser em termos de imagem.

A opção encontrada por consultorias para driblar a censura foi entregar seus indicadores a um grupo de deputados da oposição, que todos os meses divulgam um IPC do Congresso (média dos dados recebidos). No mês passado, o IPC do Congresso foi de 1,93%, contra 0,9% do Indec. Em 2011, a inflação pelas consultorias foi de 22,8%, mais que o dobro dos 9,5% do Indec.

Este ano, o próprio governo deu sinal verde a reajustes salarias, entre 18% e 25%. A crise do Indec levou a revista “The Economist” a excluir os dados oficias argentinos de seus indicadores.

— O governo tem crescente déficit fiscal e a emissão monetária, principal causa da inflação, é a única forma de financiar esse buraco — disse Spotorno.

A Argentina deu novos sinais de fraqueza em agosto, com crescimento de 1,4% sobre igual mês de 2011, abaixo da expectativa de 2% do mercado, mostraram dados do governo. Além da crise global, inflação alta, safra pequena, medidas de controle cambial e restrição a importações derrubaram a confiança e os investimentos.