domingo, outubro 21, 2012

É hora da mídia recusar a publicidade governamental


 Magno Karl
Opinião & Notícia

A publicidade oficial é a pura transferência de recursos da população para o bolso dos proprietários dos veículos de imprensa

(Reprodução/Clóvis Lima)
O maior passo que a imprensa pode dar em direção
à sua independência é recusar a mesada

O jornal Estado de S Paulo publicou na última quarta-feira, 17, um editorial interessante sobre as ameaças à liberdade da imprensa que ainda estão presentes na América Latina, mesmo depois de extintas as ditaduras militares – a exceção continua a ser Cuba, claro.

A particularidade do quadro atual da América Latina é que temos governos democraticamente eleitos (ou coalizões que os apoiam) propondo legislações que visam limitar a atuação dos veículos de mídia.

A desqualificação do mensageiro por não gostar da mensagem que ele traz é um recurso conhecido. Os governos atacam a imprensa na impossibilidade de criarem um mundo onde todas as suas ações se transformam em boas notícias.

Uma questão, porém, é fundamental na relação entre governos e mídia e merece (sempre) ser mencionada: os bilhões que todos os anos trocam de mãos em forma de publicidade de governos. A tentativa dos governos de cercearem a liberdade de noticiar fatos ou publicar opiniões é moralmente reprovável e certamente anti-democrática. Mas se a separação entre Estado e mídia é fundamental em relação às legislações cerceadoras, ela também importante no campo financeiro.

Apontar alguns erros da administração pública e viver razoavelmente livre da coerção estatal não são motivos suficientes para que um veículo possa ser visto como verdadeiramente independente. É necessário que as empresas de mídia se recusem expressamente a veicular peças de propaganda governamental e receber o dinheiro que as financia.

A publicidade oficial é a pura transferência de recursos da população para o bolso dos proprietários dos veículos de imprensa. Para declarar a sua independência total em relação ao governo, jornais, revistas, redes de televisão e sites devem ser capazes de aprender uma lição que todo adulto teve que aprender quando deixou a casa dos pais: o maior passo que você pode dar em direção à sua independência é recusar a mesada.

* Texto originalmente publicado no Ordem Livre, parceiro do Opinião e Notícia