domingo, outubro 21, 2012

Nobel da Paz: mérito ou mera demagogia?


Hugo Souza
Opinião & Notícia

Chances de inadequação, incoerência ou constrangimento são grandes quando os laureados são chefes de Estado, países ou blocos de nações

(Reprodução/Ramezani)
Supor que a UE é um agente da paz só é possível 
mesmo entre as fileiras do oportunismo político

Está certo que o criador do prêmio Nobel, Alfred Nobel, era conhecido como “o rei da dinamite” e que chegou mesmo a ser chamado de “o mercador da morte” — ainda que, amargurado, tenha criado a fundação e o prêmio que levam seu nome justamente para tentar se redimir –, mas, a julgar pelas reações de incredulidade que correram o mundo diante do anúncio do Nobel da Paz de 2012 para a União Europeia, nunca antes na história da demagogia e da politicagem houve um tão flagrante exemplo de uma e de outra quanto o laureamento, na semana passada, da UE pelo Parlamento norueguês.

Envolvida em guerras como a do Afeganistão e em, digamos, “transições de governo” como a que ocorre na Líbia, além de ter como países-membros sete nações entre as dez maiores fabricantes e exportadoras de armas do planeta, entre outros, digamos, “constrangimentos”, supor que a União Europeia é um agente da paz só é possível mesmo entre as fileiras do oportunismo político (este pleonasmo?) ou entre aqueles que compartilham de uma fé na propaganda da abnegada exportação da democracia — uma fé de deixar os mais céticos apopléticos.

 No mínimo inadequado?
Outros lembram o fato de que a União Europeia está neste momento capitaneando um arrocho salarial sem precedentes na história da Europa e promovendo uma vaga de cortes de direitos de tal ordem que não se via desde que a mão forte de Margareth Thatcher se abateu sobre os sindicatos britânicos na década de 1980. Não obstante as justificativas de que a depredação dos salários e o avanço sobre os direitos são um imperativo em meio à crise sem fim, e não uma opção, só isso já tornaria o laureamento da UE com um Nobel da Paz algo um tanto inadequado, por assim dizer.

Na imprensa brasileira, uma das críticas mais ácidas ao Nobel da Paz para a União Europeia partiu do ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo, em artigo publicado na Terra Magazine:

“Já se conheceu na história política muitos cenários onde a hipocrisia e o cinismo estiveram presentes, ainda porque ambos são usuais na convivência dos Estados. No entanto, agora os membros do Prêmio Nobel atingiram o mais alto ponto destes atributos negativos da arte da política. Premiar a União Europeia com o Nobel da Paz é fragilizar a imagem da premiação. (…) O Prêmio Nobel da Paz, ora concedido, fere os mais elementares princípios do bom senso e da solidariedade entre os povos. Agride os europeus das ruas dos países em crise. Violou o bom senso médio de todos os povos efetivamente amantes da paz e da solidariedade entre as pessoas”.

 Nem só da paz vive um Nobel… 
Aliás, as chances de inadequação, incoerência, constrangimento ou que tais para a entrega de um Nobel da Paz são grandes quando os laureados são chefes de Estado, países ou blocos de nações. Senão, vejamos:

O ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt ganhou o Nobel da Paz em 1906 após inaugurar a doutrina do “Big Stick” (“Grande Porrete”) como linha-guia da diplomacia norte-americana para a América Latina. “Fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete”, dizia Roosevelt, muy pacífico…

Já o também ex-presidente dos EUA Woodrow Wilson ganhou o Nobel da Paz em 1919, quatro anos depois de ordenar uma sangrenta invasão do Haiti. E que dizer do Nobel da Paz dado em 2009 para Barack Obama, comandante-em-chefe do “american way” de exportar democracia, trabalho entregue em grande parte a “empresas de segurança privada” (vulgo mercenários) e a grandes corporações dos setores de energia e construção civil.

Isso sem falar dos que foram indicados mas não levaram o prêmio: Joseph Stalin, Juan e Eva Perón, Harry Truman e ninguém menos do que Benito Mussolinni e Adolf Hitler…

Certo mesmo talvez tenha feito o general Le Duc Tho, líder do miserável Vietnã do Norte quando da guerra movida pelos EUA naquele país do sudeste asiático, e a quem os noruegueses tentaram dar um Nobel da Paz em 1973 por ter sido ele a assinar com Kissinger, também laureado naquele ano, o tratado de cessar-fogo com os EUA. Imagine: logo a ele, um senhor da guerra, como tantos outros. Agradeceu, recusou educadamente, e seguiu em frente.