domingo, outubro 21, 2012

John Maynard Keynes não defendia o Estado, diz economista


Exame.com
Talita Fernandes, de Veja

Essa é a ideia apresentada por José Roberto Afonso em livro lançado neste mês. Pensamento keynesiano foi mal interpretado, diz autor

 Emanuel Dunand/AFP Photo
Crise: milhares de pessoas foram às ruas de cidades 
espanholas e gregas para pedir por “mais governo”. 
Nos Estados Unidos, o movimento "Occupy Wall Street" completou um ano

A crise financeira que estourou nos Estados Unidos em setembro de 2008 e as atuais turbulências por que passa a Europa – que implicaram trilhões de dólares despejados pelo poder público no salvamento de bancos, seguradoras e, no caso europeu, países – reacenderam as discussões sobre o papel do Estado na economia.

O debate está mais vivo que nunca. Na semana passada, milhares de pessoas foram às ruas de cidades espanholas e gregas para pedir por “mais governo”. Dizeres em cartazes e hinos cantados pela multidão criticaram cortes no orçamento e a redução de subvenções estatais. Como pano de fundo, acadêmicos e alguns líderes políticos têm feito coro à população e clamam por mais John Maynard Keynes na condução da economia – em referência ao brilhante pensador que um dia ousou atribuir ao Estado um papel fundamental em momentos de crise. A lembrança é pertinente - mas infelizmente a maneira como Keynes é invocado distorce muitas de suas principais ideias.

Em 1936, Keynes escreveu uma de suas obras mais conhecidas, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Em vez de repetir o mantra de que o Estado não deveria interferir na atividade em hipótese alguma, o economista britânico afirmou que naqueles momentos em que a economia está à beira de um colapso deveriam contribuir como indutores do investimento.

A retomada das discussões sobre a teoria de Keynes motivou o economista paulista José Roberto Afonso – funcionário de carreira do BNDES que está hoje cedido ao Senado – a escrever o livro Keynes, Crise e Política Fiscal (Ed. Saraiva, 120 páginas), lançado neste mês. Na obra, ele retoma os princípios da escola keynesiana e aponta o quanto ela foi vítima de interpretações e leituras errôneas. O maior erro, segundo Afonso, é atribuir a Keynes o posto de grande defensor do intervencionismo estatal e dos gastos públicos. Confira entrevista do autor ao site de Veja.

- Por que um livro sobre Keynes?

O economista John Maynard Keynes ficou famoso por 
obras no período de colapso do capitalismo, provocado 
pela quebra da bolsa de Nova York em 1929

José Roberto Afonso: Em 2008, estourou a bolha imobiliária do mercado americano, com repercussões em todo o mundo, e uma resposta dos Estados foi necessária para impedir um colapso global. Nesse ambiente, Keynes emergiu da condição em que estava – de um maldito ou um esquisito – para ocupar posição central nas discussões sobre soluções para a crise. Só se falava nele. Alguns autores respeitados e conhecidos publicaram livros para destacar seu retorno. O que essas obras fizeram foi muito diferente do que faço. O objetivo delas era trazer Keynes para o século XXI, chamando-o a oferecer respostas a dilemas contemporâneos. Era como se lhe perguntassem, por exemplo, “Keynes, como o senhor avalia o mercado de dívida subprime dos EUA?” Mas na década de 1930, época em que ele escreveu suas principais obras não havia subprime! Na verdade, o sistema financeiro não existia tal como existe hoje. Keynes não tem nada a dizer sobre derivativos, pelo simples fato de que eles ainda não haviam sido criados. Por isso, minha proposta foi diferente. Em vez de tentar trazer Keynes à atualidade, decidi voltar ao contexto em que ele estava. Por isso digo que esse livro é menos de teoria e mais de história: um resgate do pensamento do economista Keynes sobre política fiscal e outras questões.

Essa minha escolha exigiu um trabalho muito grande. O principal livro do Keynes, chamado Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de 1936, possui cerca de 350 páginas na versão brasileira e apenas seis citações sobre política fiscal, por exemplo. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, esta que foi sua principal obra não se dedicou à política fiscal. Não era o tema central do livro, nem o secundário. O pensamento mais relevante sobre esta questão, a meu ver, só vai aparecer em um período posterior, principalmente na época da II Guerra Mundial. Depois de escrever a Teoria Geral é que Keynes começa a fazer reflexões sobre se o Estado precisa ou não gastar mais, e em que condições. Isso foi feito em vários trabalhos dele, artigos, palestras, mas não há um livro específico sobre isso.

Se a Grécia deixar o euro, 
dúvidas recaem sobre Espanha, Portugal e Itália

- Se a política fiscal nunca foi o ponto mais destacado da teoria de Keynes, como explicar que esse seja o aspecto de sua obra cravado no imaginário das pessoas?
Afonso: Keynes é sempre lembrado porque ousou atribuir um papel relevante aos governos numa época em que poucos falavam disso. Até então predominava a chamada “economia clássica” em torno da qual orbitavam conceitos como a “mão invisível do mercado” – que diz que o Estado deve ser pequeno e não deve atrapalhar, muito menos se meter nos negócios privados. Keynes não era um revolucionário como Karl Marx. Ao contrário. Acreditava que o Estado teria de entrar em ação em certos momentos justamente para salvar o capitalismo. O Estado precisa usar seus instrumentos para impedir que uma economia entre em colapso, por exemplo, num momento de crise global.

- Alguns países emergentes se têm valido do estado para a aceleração suas economias. Esta não seria o tipo de ação que se pode chamar de keynesiana?
Afonso: Sim. Minha conclusão sobre a teoria de Keynes é que existe uma distinção clara entre crise e ciclo. A economia sempre se move em ciclos: ora está crescendo, ora decrescendo. A desaceleração da taxa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de um país – como está acontecendo já há algum tempo no Brasil – é um evento pertencente a um ciclo. Algo muito diferente é o que se viu em 2008, por exemplo. Naquele instante, a economia mundial sofreu um ataque cardíaco e estava prestes a morrer. Isso é crise: um momento em que se olha para frente e não se sabe o que vai acontecer. A incerteza é tão grande que as empresas param de investir e reduzem a produção. Isso provoca desemprego e logo estamos diante de uma bola de neve. Um empresário começa a demitir e quem é mandado embora passa a comprar menos. É neste momento que o governo tem de entrar comprando e investindo, como, de fato, ocorreu em diversos países em 2008 e 2009. Funciona como uma operação cirúrgica de salvamento. Ao destacar a defesa do Estado como socorrista, Keynes inovou naquele tempo e seus ensinamentos passaram a ser muito debatidos. Já o ciclo faz parte da normalidade da economia. Uma hora você olha para frente e acha que vai crescer mais; em outra, espera crescer menos. É diferente da crise, que é uma incerteza radical.

- Um ciclo de desaceleração econômica não requer, então, intervenção ostensiva do Estado, segundo Keynes?
Afonso: Exatamente. As pessoas se esquecem que Keynes também deixou claro que não se tem um problema cardíaco todo dia. Ele defendeu que, entrando no jogo para impedir uma crise sistêmica, o Estado tinha de sair quando a economia voltasse a crescer. Prosseguindo com a minha analogia, o remédio para uma crise coronária não é o mesmo para quem só tem colesterol alto. Os que se dizem keynesianos, principalmente os mais ortodoxos, afirmam que ele quer um Estado forte o tempo todo. Não é nada disso.

- O Brasil está hoje em um ciclo de baixo crescimento ou em crise?
Afonso: Eu diria que o Brasil está em um ciclo de desaceleração, mas uma parte do mundo – principalmente a europeia – está em crise mesmo. São duas situações diferentes. As empresas brasileiras não estão na mesma incerteza que as da Grécia. Em uma hora de muitas incertezas, o Estado pode se fazer presente, mas com investimentos, e não pelo gasto público excessivo em custeio e benefícios. Aliás, quando se olha para um governo que gasta muito como o brasileiro – desde a folha salarial dos servidores até as aposentadorias – à luz da teoria de Keynes, a conclusão é que essa característica funciona como um colchão num cenário de crise. Quando você dá um soco num colchão, o impacto é amortecido. Gastar muito, como faz o Brasil, pode ser providencial quando uma nação precisa de um anteparo contra golpes externos. Contudo, na maior parte do tempo, um país precisa funcionar como uma locomotiva. Nessa situação é preciso investimento das empresas, ao passo que o Estado funciona como um freio. E isso está bem claro em Keynes.


Crise grega: como pano de fundo, acadêmicos e 
alguns líderes políticos têm feito coro à população
 e clamam por mais John Maynard Keynes na condução da economia

- Quem pede mais investimento, verbas e subvenções do estado frequentemente invoca Keynes para se justificar. O que ele diz especificamente sobre gastos públicos?
Afonso: Gasto público é algo que se pode fazer hoje e deixar de fazer amanhã. Não é preciso ter o tempo todo. Não precisa ficar construindo portos, aeroportos, pontes e metrô para sempre. Tem de fazer e depois operar. Gosto de destacar que Keynes era economista, mas tinha visão de engenheiro. Ele usa a lógica de que investimento vira capital e gasto corrente vira consumo. Quando se está construindo um porto, por exemplo, há gasto corrente com pessoal, máquinario e obras. Isso aquece a economia. Mas, no final, fica também uma estrutura que vai permitir ao país produzir e exportar mais. É capital que fica para o futuro. No Brasil, uma dificuldade que já tínhamos, e que se agrava nessa fase de desaceleração, é que a taxa de investimento doméstica é muito baixa – e menor ainda no setor público. O que moveu nossa economia por muito tempo foi o consumo, mas existe um limite para que as famílias fiquem comprando. E o governo continua se endividando.

- No caso da Europa, que está passando por uma pressão muito grande para corte de gastos, como os estados conseguirão reanimar a economia?
Afonso: Não é fácil encontrar o equilíbrio entre estimular – que é o estado entrar na economia – e evitar correr riscos. Keynes deixou bem claro que o setor público tem de entrar e sair. Na Alemanha, por exemplo, que hoje prega austeridade a seus pares europeus, foi feito um esforço fiscal monumental para a integração do país nos anos que se seguiram ao colapso do comunismo. Isso teve um impacto importante nas contas públicas alemãs pós-reunificação – o país, inclusive, chegou a usar o lucro do banco central da Alemanha Ocidental para financiar a reconstrução da parte oriental. A Alemanha aumentou sua presença na economia e cresceu. Depois veio o euro e essa política foi revertida. A moeda única foi fundamental para modernizar e aumentar a presença da indústria alemã na Europa. Com esse crescimento, ela pôde controlar seu endividamento. Ela soube se endividar para reconstruir e integrar, da mesma forma que soube depois reduzir seu endividamento. Hoje ela está cobrando isso de todos. O grande temor, a meu ver, é que os outros países europeus podem estar hoje em um momento que a Alemanha esteve duas décadas atrás.

- O senhor fala no livro sobre a linguagem complexa usada por Keynes. Iisso dificultou o entendimento dos leitores e ajuda a explicar toda a confusão que se faz até hoje com as ideias dele?
Afonso: A Teoria Geral foi escrita numa linguagem muito densa. Keynes se havia formado naquela escola clássica de pensamento econômico com a qual ele acabou por romper. Mesmo nos momentos em que buscou usar termos mais coloquiais, Keynes foi mal-interpretado. Na passagem em que diz que, na falta de algo melhor, o estado deveria contratar pessoas para fazer buracos e outras para tapá-los, ele usou uma força de expressão para destacar o quão crítica era a situação econômica na década de 1930. Queria simplesmente conclamar os governos a fazer alguma coisa útil. As pessoas, no entanto, entenderam que Keynes estava mandando gastar dinheiro a rodo. Em economias emergentes como a nossa, entretanto, há muito para ser feito. Falta infraestrutura logística, tecnológica e social. Há escolas, hospitais e segurança insuficientes e com baixa qualidade. Em um extremo, é uma falta de investimento na estrutura física e econômica do país. Aeroportos depredados, estradas ou aeroportos faltando. Em resumo, existe muita coisa melhor para se fazer do que ficar abrindo e tapando buracos.