domingo, outubro 21, 2012

É hora de enfrentar os fanáticos no Islã


Rasheed Abou-Alsamh (*)
O Globo

Há uma guerra dentro do Islã, entre os moderados, que são a maioria, e os fanáticos, que são minoria com uma influência além do normal

O ataque a bala contra a jovem ativista paquistanesa Malala Yousafzai, no dia 9 de outubro, por militantes do Talibã no vale de Swat, no Norte do Paquistão, foi um ato de desespero por um grupo de fanáticos que são uma anomalia infeliz no século 21. A estudante de 14 anos foi baleada na cabeça quando dois assassinos pararam o ônibus escolar em que Malala ia para a escola. Eles nem sabiam quem ela era. “Quem é Malala Yousafzai?”, perguntaram às meninas aterrorizadas.

E qual foi o crime tão horrível dessa menina inteligente e cheio de vida? Ela queria que todas as meninas tivessem o direito de estudar em escolas. Para o Talibã, que controlou o vale de Swat por vários anos começando em 2007, antes de uma ação militar paquistanesa que em 2009 os puxou para o Afeganistão, a educação para meninas e mulheres é uma perda de tempo.

Já vimos isso no Afeganistão, quando de 1996 até 2001 eles estiveram no poder depois de derrotar os soviéticos e os expulsarem. Eles fecharam todas as escolas para meninas, e professoras corajosas tiveram que formar salas de aula clandestinas. Para chegar até essas salas secretas, meninas afegãs tinham que se vestir como meninos e esconder seus livros para poder sair às ruas sem maiores problemas.

Em Swat fizeram a mesma proibição, além de proibir a música em carros e mulheres de fazerem compras nos mercados. O problema é que desde 2009 os talibãs têm voltado aos poucos para o Swat, ameaçando de novo a população com sua versão hiperconservadora do Islã, em que garotas ficam em casa e só servem para casar e ter filhos.

Malala entrou na mira do Talibã quando ela se tornou uma minicelebridade escrevendo um diário de sua vida para a BBC de Londres, e criticou os talibãs por não deixar meninas estudar em escolas. Entrevistada pela CNN, entre outros meios de comunicação, foi assim que ela chamou a atenção dos talibãs, que têm uma proibição de matar mulheres. Essa menina deve ter mexido tanto com eles que abriram uma exceção e encomendaram sua morte a dois assassinos, que a atacaram no ônibus.

Com certeza houve uma reação forte do governo paquistanês e da sociedade em geral, que condenaram o atentado, e organizaram manifestações públicas para rezar para sua recuperação.

O Paquistão é um país estranho e esquizofrênico, onde vários governos, desde a ditadura do general Zia ul-Haq que começou um 1977 com o golpe militar que derrubou o governo democraticamente eleito de Zulficar Ali Bhutto, que morreu tragicamente na forca, têm literalmente dançado com o Talibã. É um segredo aberto que facções mais religiosas dentro das forças armadas têm dado apoio clandestino aos talibãs, minando a credibilidade e estabilidade do governo central. E isso é além dos partidos religiosos que apoiam abertamente os talibãs.

Não podemos esquecer que no começo os talibãs foram apoiados pelos Estados Unidos, Arábia Saudita e países do Golfo, em sua luta contra os soviéticos, quando ocuparam o Afeganistão em 1979. A CIA americana treinava os talibãs, e os sauditas davam dinheiro e armamentos para eles. Foi uma coalizão que ia ser lamentada no futuro, quando o líder do grupo terrorista al-Qaeda, Osama bin Laden, se refugiou no Afeganistão, protegido pelos talibãs, e de onde planejou os ataques de 11 de setembro a Nova York.

Mas nem no conservador reino da Arábia Saudita meninas são proibidas de estudar. A primeira escola para meninas foi aberta em 1963, o que causou um alvoroço religioso, superado ao longo do tempo. Hoje, de mais de um milhão de estudantes no ensino secundário, quase metade são garotas. Nas faculdades sauditas mulheres são a maioria, um feito que ninguém poderia imaginar vinte anos atrás.

Outro elemento na situação crítica do Paquistão são os ataques de drones americanos contra alvos terroristas no país, que invariavelmente são talibãs. Muitos inocentes, mulheres e crianças, estão morrendo nesses ataques, danos colaterais que têm gerado uma raiva na população paquistanesa contra as ações americanas. O político Imran Khan, que como um ex-jogador de críquete é extremamente popular, e que vai se candidatar para presidente nas próximas eleições, tem feito uma campanha contra os ataques americanos, insistindo que o diálogo é o melhor método de lidar com esses extremistas.

Eu acho que somente falar com os talibãs não vai solucionar os problemas do Paquistão. A verdade é que há uma guerra dentro do Islã mesmo, entre os moderados, que são a maioria, e os fanáticos, que são uma minoria com uma influência além do normal. Isso é porque eles gritam mais alto e usam violência para primeiro intimidar opositores e depois matá-los se eles não recuarem.

Malala foi uma dessas vítimas. Esse foi um ataque vergonhoso contra ela e todas as meninas do mundo islâmico, que merecem ter o direito de estudar em escolas abertamente, sem ameaças ou privações. Esse duelo entre fanáticos e moderados está em progresso em todo o mundo islâmico, não somente no Paquistão e no Afeganistão. Nós muçulmanos moderados e progressistas temos que dar um basta definitivo na violência dos fanáticos que tanto mancha as nossas vidas e a reputação global do Islã.

(*) Rasheed Abou-Alsamh é jornalista.