Editorial
O Globo
Conferência de paz no próximo mês, em Genebra, é a única esperança de que carnificina possa ser detida, mas Moscou precisa de fato cooperar
Em pouco mais de dois anos, o conflito na Síria exibe números dignos das guerras que resultaram na desintegração da Iugoslávia, nos anos 90 do século passado. O número de mortos na Síria está na faixa de 70 a 80 mil, enquanto o de refugiados atinge 1,5 milhão. Os oito anos de fogo, sangue e limpeza étnica nos Bálcãs produziram cerca de 140 mil mortos e 4 milhões de refugiados.
A Síria também se desintegra, sob o bombardeio de aviões, mísseis e artilharia do ditador Bashar Assad, com o apoio da Rússia, do Irã e seu satélite Hezbollah; e ataques com armas mais leves, mas não menos ferozes, dos diversos grupos rebeldes que lutam para derrubá-lo, com ajuda dos EUA, seus aliados e de países árabes sunitas. Os dois lados cometem crimes contra a Humanidade e deveriam ser denunciados ao Tribunal Penal Internacional (TPI).
A crise humanitária é dramática. A Jordânia, que recebe um terço dos 1,5 milhão de refugiados sírios, começou a recusar a entrada de novas famílias. Os demais fugitivos da guerra se espalham por Líbano, Turquia e Iraque. A agência da ONU para refugiados pede ao Conselho de Segurança que trabalhe para criar corredores humanitários que permitam assistir aos deslocados internos sírios. Sem sucesso até agora.
No momento, forças de Assad e do Hezbollah prosseguem na batalha para desalojar militantes rebeldes de Qusair, rota vital para abastecer Homs, terceira cidade do país e nas mãos da oposição. O ditador luta para reconquistar terreno, enquanto a diplomacia internacional, à frente os EUA, tenta sair da inércia para organizar uma conferência de paz no próximo mês, em Genebra. O principal obstáculo é a Rússia, que, enquanto nas conversas diplomáticas se mostra favorável à iniciativa, na frente militar continua fornecendo armas potentes e sofisticadas a Assad e envia mais navios de guerra para Tartus, Síria, única base naval russa no Mediterrâneo.
A guerra na Síria caminha a passos largos para a internacionalização. Como se trata, no fundo, de um conflito sectário entre o Estado dominado pela seita alauita (próxima ao xiismo) de Assad e a maioria da população sunita, influi e recebe influência do conflito interno no vizinho Iraque, onde a situação se deteriora rapidamente entre a comunidade xiita, no poder, e a minoria sunita, que governou o país até a invasão americana, em 2003. Israel, maior potência militar da região, já fez ataques aéreos ao território sírio para destruir instalações nucleares, de pesquisa e mísseis supostamente fornecidos pelo Irã e a caminho das posições do Hezbollah no Líbano. Um veículo militar israelense teria sido destruído pela Síria nas Colinas de Golã.
A conferência de Genebra é a única esperança para salvar o que resta da Síria. A Rússia tem papel crucial, pela influência sobre Assad. O Ocidente deve se preparar para dar alguma garantia a Moscou que seus interesses serão minimamente preservados numa era pós ditador. A população costuma ser a última prioridade.