Editorial
O Globo
Fragilidades do Continente estimulam organizações radicais a fazer dele um trampolim para levar a jihad ao resto do mundo
A matança perpetrada pelo grupo radical al-Shabab num shopping-center de Nairóbi, no Quênia, chama a atenção para a ação ampliada de organizações terroristas na África. Cabe lembrar que, de 1991 a 1996, Osama bin Laden e outros líderes da al-Qaeda viveram no Sudão, um dos países párias da comunidade internacional.
Os maiores atentados na África ocorreram no dia 7 de agosto de 1998. Militantes da al-Qaeda puseram bombas que destruíram as embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia, matando 224 pessoas, a maioria quenianos. Doze americanos também morreram. Em novembro de 2002, militantes atacaram um luxuoso hotel frequentado por israelenses perto de Mombaça, no Quênia, com 13 mortos. O mesmo grupo disparou dois mísseis contra um avião israelense que decolava do aeroporto da cidade, mas errou o alvo. A al-Qaeda assumiu a autoria.
O al-Shabab, que se filiou à al-Qaeda em 2012, é uma força radical nascida do caos em que mergulhou a Somália a partir de 1991, quando senhores da guerra assumiram o controle. Nasceu em 2006, como dissidência da União das Cortes Islâmicas, que tentou criar naquele país um Estado fundamentalista islâmico. Chegou a ter controle de quase toda a capital, Mogadíscio, e de grande parte do país. Mas foi empurrada para um canto remoto por tropas da União Africana a serviço da ONU, com militares do Quênia e de Uganda.
A organização se enfraqueceu, mas não morreu. Em 2010, militantes do grupo detonaram bombas na capital de Uganda, Kampala, em meio a multidões que assistiam em telões à final da Copa do Mundo, matando 76 pessoas. Em 2011 e em março deste ano, o grupo e simpatizantes fizeram vários ataques no Quênia, matando mais de 60, para vingar a presença de tropas ugandenses e quenianas na Somália. Na ação dos últimos quatro dias em Nairóbi, com mais de 60 civis mortos, surpreendeu a suposta presença de militantes americanos e de uma mulher britânica entre os invasores.
O Magreb, no Norte da África, abriga ativa insurgência islâmica desde 2001, época da guerra civil na Argélia. O Grupo Salafista Para a Pregação e o Combate se aliou à al-Qaeda no Magreb Islâmico contra o governo argelino e o Ocidente.
Após a derrubada do ditador Muamar Kadafi, da Líbia, diversas milícias assumiram o comando de diferentes regiões. Insurgentes em ação na Líbia passaram a se envolver em conflitos como a guerra civil na Síria. A presença da al-Qaeda no Máli obrigou a França a intervir no país.
Os fatos demonstram que as condições africanas — pobreza, lacunas na área da educação e instituições frágeis — se tornaram ideais para organizações que pretendem levar terror, caos e morte ao resto do mundo. E que resta à comunidade internacional unir forças, em ações multilaterais e em sintonia com a ONU, para defender a liberdade e a democracia.