sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Lobão e ONS batem cabeça sobre risco de racionamento

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Ministro de Minas e Energia apressou-se em contradizer diretor do ONS sobre nível de reservatórios do país

(ABR) 
Lobão: energia será assegurada pela geração das usinas termelétricas 

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, contrariou o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, ao dizer que não há probabilidade de desabastecimento de energia elétrica no país neste ano — e tampouco racionamento. "Problema de abastecimento não haverá, em nenhuma circunstância", disse Lobão.

Na terça-feira, Chipp havia declarado que poderia haver desabastecimento de energia elétrica se os reservatórios das hidrelétricas do principal sistema gerador (Sudeste/Centro-Oeste) ficassem abaixo do nível de 43% da capacidade no fim de abril. Atualmente, estão em 35%. O ONS teme que os volumes não sejam suficientes para abastecer normalmente o país ao longo do período de estiagem -  entre maio e novembro.

Contradizendo o técnico, Lobão afirmou que tal patamar de armazenamento (43%) "é confortável", mas disse que, mesmo que não se chegue a esse nível, não haverá desabastecimento. O suprimento, segundo o ministro, seria assegurado pelas usinas termelétricas, que geram energia mais cara e têm pesado sobre as contas do governo. O ministro não mencionou, contudo, que mesmo as térmicas operam em sua capacidade máxima de geração.

Logo após o apagão que deixou 13 estados brasileiros no escuro, no início de fevereiro, Chipp aventou a possibilidade de um raio ter causado o incidente. A presidente Dilma e o ministro Lobão rapidamente se pronunciaram para negar a informação. Em entrevista à imprensa um ano antes, a presidente havia até mesmo ironizado o argumento climático para justificar falhas elétricas.

Risco aumenta — 
Segundo estudo da Safira Energia, se nos próximos quatro meses o nível de chuvas for semelhante ao de janeiro, o sistema elétrico nacional estará igual ao visto em 2001, quando o Brasil passou por um severo racionamento de energia. Tal estimativa leva em conta o acréscimo de geração térmica e linhas de transmissão realizadas entre 2001 e 2014, segundo Fábio Cuberos, gerente de regulação da consultoria.

No primeiro mês do ano, o segundo pior janeiro em 83 anos, a capacidade dos reservatórios ficou em torno de 30.100 megawatt (MW) médio, o equivalente a 55% da média histórica (56.400 MWmed). Se a situação perdurar até abril, o país passará pelo pior período de seca desde 1955.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA: 
Comentário da jornalista Miriam Leitão, do jornal O Globo, na radia CBN,  sobre a crise de energia:

Pelo modelo, país já deveria determinar redução da oferta de energia
Racionamento de energia virou um palavrão. Pelo modelo do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), as térmicas têm de despachar energia (colocar no sistema) numa ordem da mais barata para a mais cara. Quando se chega à mais cara, o modelo manda cortar carga, ou seja, reduzir a oferta de energia. O nome para isso seria a palavra que não podemos falar: racionamento. Ou, para evitá-lo, teria que haver redução do consumo para racionalização do uso da energia. No entanto, nada disso é feito. E o ministro Edison Lobão diz, diariamente, que não há risco de racionamento.

O administrador público ou privado tem de considerar todos os cenários de risco, porque se não se proteger contra o pior deles se aproximará ainda mais da possibilidade de que aconteça. Quando não quer nem ouvir a palavra, que está banida do dicionário por ser conveniente do ponto de vista político, aumenta o risco.

Várias empresas estão pagando o preço da energia do mercado livre, que está em R$ 822 o megawatt/hora, mas vendendo bem abaixo disso. A Elektro, de Campinas, por exemplo, está com 18% da energia descontratada; precisa, portanto, comprar no mercado livre. Outras empresas estão assim também e só vão conseguir recuperar esse prejuízo em 2015 quando as tarifas forem reajustadas. No caso da Elektro, só em agosto do ano que vem ela será ressarcida de um prejuízo que está tendo hoje ao comprar energia mais cara do que pode cobrar do seu consumidor.