sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Presidente da Ucrânia decide antecipar eleições para sanar crise

Veja online

Em acordo anunciado nesta sexta, Yanucovich concordou ainda com formação de governo de coalizão e a retomada da Constituição que reduz seus poderes

Ukranian Presidential Press-Ser/AFP 
O presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich: 
negociações duraram toda a noite com a oposição e três ministros da União 
Europeia para resolver a crise na qual já morreram 77 pessoas em dois dias

Um acordo entre o governo da Ucrânia e a oposição ao presidente Viktor Yanucovich foi acertado na madrugada desta sexta-feira com objetivo de solucionar a crise no país. O chefe de estado do país confirmou o plano no site da Presidência, afirmando que ele inclui eleições antecipadas, que devem ser marcadas até dezembro, a formação de um governo de coalizão com a oposição nos próximos dez dias e a volta à antiga Constituição do país, que diminui os poderes presidenciais e amplia os do Parlamento.

O pacto é resultado de conversas mediadas por Estados Unidos, Rússia e União Europeia (UE). Até o momento, a oposição não comentou a proposta. Segundo a rede ucraniana ICTV, que conseguiu uma cópia da proposta na íntegra, o documento também prevê que os parlamentares do país devem se reunir para discutir até setembro uma reforma para redefinir os poderes do presidente. Já a Constituição do país deve passar por um processo para reverter nos próximos dias uma série de mudanças realizadas em 2010. Essas mudanças haviam fortalecido a Presidência e anulado emendas aprovadas em 2004 que limitavam seu poder. 

O ministro das Relações Exteriores da Eslováquia, Miroslav Lajcak – que não participou da negociação, mas conversou com chanceleres da UE que estavam no encontro – foi cauteloso sobre o plano. "Claro que os participantes da reunião, meus colegas, advertiram que é ainda prematuro dizer que a crise acabou", declarou Lajcak.

Essa posição  foi compartilhada pelo chanceler francês Laurent Fabius. "Não podemos dizer nada de definitivo. Devemos permanecer prudentes", postou Fabius em sua conta no Twitter.

O anúncio do acordo feito pelo governo ucraniano ocorre depois da capital Kiev presenciar um banho de sangue no pior dia desde o início dos protestos contra o governo de Yanucovich – o momento mais dramático desde a saperação da União Soviética. Só nesta quinta-feira, os confrontos entre a polícia e manifestantes deixaram cerca de 100 mortos e 500 feridos – o governo admitiu 77 mortes e 577 pessoas feridas, mas a oposição conta mais óbitos. O clima se aproximou de uma guerra civil, com franco-atiradores disparando contra ativistas, entre os quais também foram usadas armas letais contra a polícia.

Corpos de manifestantes foram levados para a recepção do hotel Ukrania, na Praça da Independência, cobertos com lençóis e guardados por profissionais de saúde que atendiam os manifestantes feridos. Vídeos postados na internet mostram o ponto dramático que a crise atingiu. Em um deles, homens armados efetuam disparos. Em outro, um grupo tenta avançar usando escudos como proteção quando tiros são disparados e algumas pessoas caem feridas no chão. Em seguida, feridos e mortos são carregados em macas improvisadas.




Pressão – 
O governo dos Estados Unidos exigiu que o presidente Viktor Yanukovitch "retire imediatamente todas as forças de segurança – polícia, atiradores de elite e unidades militares e paramilitares – das ruas" e coloque um fim aos conflitos na capital. Em uma ligação telefônica para o governante ucraniano, o vice americano Joe Biden comunicou que os EUA estão preparados para punir com sanções os responsáveis pela violência contra civis registrada nos últimos dias no país do leste europeu.

Autoridades da União Europeia (UE) em Kiev também pressionam Yanukovich a realizar eleições antecipadas. É uma tentativa de melhorar a situação no país e diminuir a violência. Na manhã desta quinta-feira, o ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, disse que não via outra opção a não ser a realização de novas eleições. "Quando temos uma situação travada como esta, precisamos nos voltar ao povo", disse.

Ministros das Relações Exteriores da União Europeia se reuniram com Yanukovich para discutir a situação e aprovaram a aplicação de sanções contra as autoridades “responsáveis pela violência e pelo uso de força excessiva”. O chanceler da Suécia, Carl Bildt, afirmou, em sua conta no Twitter, que o congelamento de movimentações financeiras e a suspensão de passaportes devem ser adotados “com urgência”. A chefe da diplomacia do bloco, Catherine Ashton, disse após o encontro que os chanceleres se mostraram “horrorizados” com as mortes na Ucrânia, o que os fez consentir com a “suspensão de licenças de exportação para equipamentos de repressão interna”.

Crise – 
A crise na Ucrânia começou em novembro do ano passado, quando Yanukovich desistiu de um acordo com a União Europeia em nome de uma maior aproximação com a Rússia e detonou uma onda de insatisfação popular que tomou as ruas, ganhou força após a aprovação de um pacote de leis antiprotesto e recentemente provocou a queda do primeiro-ministro.

Os manifestantes, liderados por três políticos oposicionistas, entraram em trégua com o governo no início de fevereiro, enquanto os dois lados iniciaram negociações. O presidente fez concessões, como a promessa de anulação das leis que limitavam a liberdade de expressão, mas a oposição exige mais reformas. Entre elas estão uma revisão constitucional que reduza os poderes do presidente, devolvendo prerrogativas ao Parlamento, ou a formação de um novo governo. Esta semana, após a liberação de ajuda financeira da Rússia vinculada ao governo ucraniano tomar providências para acabar com o acampamento dos manifestantes da Praça da Indepêndencia, os conflitos foram retomados quando a polícia iniciou uma grande operação antiprotetos, os choques se tornaram batalhas campais e o número de mortos disparou.