Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
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Custou, mas o craque entrou em campo para o segundo tempo. Menos mal, apesar de ter ficado no banco durante todo o primeiro tempo. Fala-se do presidente Lula, no geral por conta de seus dois importantes pronunciamentos no dia da posse renovada, segunda-feira. E no particular, coisa que sobressai mais, por haver anunciado, mesmo com atraso, forte ação do poder público contra o banditismo. Nas palavras dele, terrorismo.
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É preciso aguardar que a bola comece a rolar e o Lula demonstre sua intimidade com ela, no caso, armando o meio campo e até aproveitando para finalizar. De preferência, de cabeça, com o auxílio do ministro da Justiça, a ser convocado ainda esta semana. Por enquanto, presume-se Márcio Thomaz Bastos, apesar de demissionário e em férias, mas também existem chances para Tarso Genro, a fim de prepararem um elenco de mudanças no Código Penal e no Código de Processo Penal.
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O objetivo é coibir a ação dos animais que, dentro e fora da cadeia, tornam-se responsáveis por uma das mais deletérias práticas de terror verificadas no País, agora no Rio de Janeiro, antes em São Paulo. Justifica-se a indignação do presidente da República diante de matanças indiscriminadas contra cidadãos comuns.
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Só não dá para o craque ficar ajeitando meias e chuteiras enquanto o adversário prepara outro tiro livre. Tem que ser já, essa resposta do poder público, quem sabe até por medida provisória, visando isolar os chefões do crime e do terror. Pior não poderá acontecer se o segundo governo Lula ficar apenas na retórica, sem dar à sociedade a resposta que todos esperam.
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E só para confirmar a urgência da utilização do braço forte do Estado: um instituto de pesquisa desistiu de anunciar o resultado de uma consulta junto aos cariocas: 90% dos pesquisados teriam se manifestado favoravelmente à ação dos grupos paramilitares que começam a agir nas favelas e periferias, combatendo o narcotráfico. Se o Estado não age, a sociedade cria suas próprias alternativas...
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Papelão
Não foram apenas os principais líderes da oposição que faltaram à solenidade da segunda posse do presidente Lula. Papelão igual ou pior fizeram os aliados do governo. Dos 513 deputados federais, apenas 107 marcaram presença no Congresso. Dos 81 senadores, só 23.
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Se fizermos um relacionamento partidário o vexame fica maior. Com 89 deputados, o PT fez-se representar por 35. Do PMDB, prestes a abocanhar diversos ministérios, menos de um terço. O cerimonial do Congresso suou frio para preencher as cadeiras do plenário da Câmara, convocando funcionários e simples curiosos. Das galerias nem se fala, o grupo numericamente mais expressivo foi a banda de música da Marinha, chamada a entoar o Hino Nacional e, em seguida, deixando imenso vazio no recinto.
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Em seu discurso na Praça dos Três Poderes, dirigindo-se à massa encharcada pela chuva, Lula criticou a data das posses presidenciais, ou seja, insurgiu-se contra a Constituição. Aliás, com muita razão, porque o primeiro dia de janeiro deveria ser consagrado à ressaca, ou à confraternização nas famílias. Se nem os que tinham por dever absoluto comparecer, compareceram, o que dizer de convidados especiais ou do simples cidadão?
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Tempo houve, desde a promulgação da Constituição, em 1988, para que deputados e senadores corrigissem essa aberração. Não há quem deixe de se insurgir contra a data, mas, estranhamente, nada se fez. É bobagem argumentar que se as posses fossem adiadas para 10 ou 15 de janeiro, os presidentes eleitos seriam esbulhados em seus mandatos. Ou não compensariam esse período no final de seus períodos administrativos?
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Fala-se tanto em reformas, nos últimos anos, que seria fácil incluir essa alteração no elenco de fidelidade partidária, financiamento público de campanhas, voto distrital e outras inovações. Falta o quê, para que daqui a quatro anos não se venha a assistir outro festival de ausências?
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O primeiro tiro
O primeiro tiro, quem deu foi o novo governador José Serra. Seu discurso de posse destoou dos demais governadores, superando até mesmo o imprevisível Roberto Requião.
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Custou, mas o craque entrou em campo para o segundo tempo. Menos mal, apesar de ter ficado no banco durante todo o primeiro tempo. Fala-se do presidente Lula, no geral por conta de seus dois importantes pronunciamentos no dia da posse renovada, segunda-feira. E no particular, coisa que sobressai mais, por haver anunciado, mesmo com atraso, forte ação do poder público contra o banditismo. Nas palavras dele, terrorismo.
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É preciso aguardar que a bola comece a rolar e o Lula demonstre sua intimidade com ela, no caso, armando o meio campo e até aproveitando para finalizar. De preferência, de cabeça, com o auxílio do ministro da Justiça, a ser convocado ainda esta semana. Por enquanto, presume-se Márcio Thomaz Bastos, apesar de demissionário e em férias, mas também existem chances para Tarso Genro, a fim de prepararem um elenco de mudanças no Código Penal e no Código de Processo Penal.
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O objetivo é coibir a ação dos animais que, dentro e fora da cadeia, tornam-se responsáveis por uma das mais deletérias práticas de terror verificadas no País, agora no Rio de Janeiro, antes em São Paulo. Justifica-se a indignação do presidente da República diante de matanças indiscriminadas contra cidadãos comuns.
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Só não dá para o craque ficar ajeitando meias e chuteiras enquanto o adversário prepara outro tiro livre. Tem que ser já, essa resposta do poder público, quem sabe até por medida provisória, visando isolar os chefões do crime e do terror. Pior não poderá acontecer se o segundo governo Lula ficar apenas na retórica, sem dar à sociedade a resposta que todos esperam.
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E só para confirmar a urgência da utilização do braço forte do Estado: um instituto de pesquisa desistiu de anunciar o resultado de uma consulta junto aos cariocas: 90% dos pesquisados teriam se manifestado favoravelmente à ação dos grupos paramilitares que começam a agir nas favelas e periferias, combatendo o narcotráfico. Se o Estado não age, a sociedade cria suas próprias alternativas...
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Papelão
Não foram apenas os principais líderes da oposição que faltaram à solenidade da segunda posse do presidente Lula. Papelão igual ou pior fizeram os aliados do governo. Dos 513 deputados federais, apenas 107 marcaram presença no Congresso. Dos 81 senadores, só 23.
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Se fizermos um relacionamento partidário o vexame fica maior. Com 89 deputados, o PT fez-se representar por 35. Do PMDB, prestes a abocanhar diversos ministérios, menos de um terço. O cerimonial do Congresso suou frio para preencher as cadeiras do plenário da Câmara, convocando funcionários e simples curiosos. Das galerias nem se fala, o grupo numericamente mais expressivo foi a banda de música da Marinha, chamada a entoar o Hino Nacional e, em seguida, deixando imenso vazio no recinto.
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Em seu discurso na Praça dos Três Poderes, dirigindo-se à massa encharcada pela chuva, Lula criticou a data das posses presidenciais, ou seja, insurgiu-se contra a Constituição. Aliás, com muita razão, porque o primeiro dia de janeiro deveria ser consagrado à ressaca, ou à confraternização nas famílias. Se nem os que tinham por dever absoluto comparecer, compareceram, o que dizer de convidados especiais ou do simples cidadão?
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Tempo houve, desde a promulgação da Constituição, em 1988, para que deputados e senadores corrigissem essa aberração. Não há quem deixe de se insurgir contra a data, mas, estranhamente, nada se fez. É bobagem argumentar que se as posses fossem adiadas para 10 ou 15 de janeiro, os presidentes eleitos seriam esbulhados em seus mandatos. Ou não compensariam esse período no final de seus períodos administrativos?
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Fala-se tanto em reformas, nos últimos anos, que seria fácil incluir essa alteração no elenco de fidelidade partidária, financiamento público de campanhas, voto distrital e outras inovações. Falta o quê, para que daqui a quatro anos não se venha a assistir outro festival de ausências?
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O primeiro tiro
O primeiro tiro, quem deu foi o novo governador José Serra. Seu discurso de posse destoou dos demais governadores, superando até mesmo o imprevisível Roberto Requião.
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Serra não teve meias palavras, diagnosticou uma crise endêmica e permanente na economia do País, criticou a estagnação e, sem meias palavras, responsabilizou o presidente Lula pelo fracasso no crescimento econômico. Assumiu, o novo governador paulista, a liderança das oposições nacionais.
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Agora, singular mesmo foi a troca desse comando informal. Bem que o ex-presidente Fernando Henrique tentou evitar a passagem do bastão, primeiro chegando atrasado na cerimônia no Palácio Bandeirantes e atravessando impávido o corredor central do auditório, quando os oradores já se sucediam na tribuna.
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Não perdeu a oportunidade de, mais uma vez, dar entrevistas e descer tacape e borduna no presidente Lula e sua equipe. Adiantou muito pouco. Ninguém prestou atenção às suas diatribes, que a própria imprensa de hoje minimizou. Sedimenta-se a liderança de Serra, para horror na vaidade de muita gente...
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Brasília esvaziada
A corte está de férias. Desde a manhã de ontem escafederam-se até os raros convidados para a festa da posse. De deputados e senadores não se dá notícia. Ministros dos tribunais superiores, da mesma forma. Até ministros do governo fica difícil encontrar. Trafega-se pelas avenidas da capital federal como almas penadas numa cidade-fantasma.
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Agora, singular mesmo foi a troca desse comando informal. Bem que o ex-presidente Fernando Henrique tentou evitar a passagem do bastão, primeiro chegando atrasado na cerimônia no Palácio Bandeirantes e atravessando impávido o corredor central do auditório, quando os oradores já se sucediam na tribuna.
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Não perdeu a oportunidade de, mais uma vez, dar entrevistas e descer tacape e borduna no presidente Lula e sua equipe. Adiantou muito pouco. Ninguém prestou atenção às suas diatribes, que a própria imprensa de hoje minimizou. Sedimenta-se a liderança de Serra, para horror na vaidade de muita gente...
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Brasília esvaziada
A corte está de férias. Desde a manhã de ontem escafederam-se até os raros convidados para a festa da posse. De deputados e senadores não se dá notícia. Ministros dos tribunais superiores, da mesma forma. Até ministros do governo fica difícil encontrar. Trafega-se pelas avenidas da capital federal como almas penadas numa cidade-fantasma.
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Mesmo o presidente Lula prepara-se para sair de férias, daqui a dois dias. Estranha situação para quem acaba de ser reempossado na chefia do governo, mas não se contestará o seu direito de lazer.
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Os hotéis andam às moscas, como os restaurantes. Universidades em recesso, colégios também. Sem esquecer as repartições públicas. Como que sentindo o vazio, os pedintes sumiram das proximidades dos semáforos. O tempo torna-se propício para meditações. Que tal aproveitá-lo para, mais uma vez, concluirmos que os males atribuídos a Brasília vêm todos de fora? E que, uma vez por ano, costumam viajar?
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Os hotéis andam às moscas, como os restaurantes. Universidades em recesso, colégios também. Sem esquecer as repartições públicas. Como que sentindo o vazio, os pedintes sumiram das proximidades dos semáforos. O tempo torna-se propício para meditações. Que tal aproveitá-lo para, mais uma vez, concluirmos que os males atribuídos a Brasília vêm todos de fora? E que, uma vez por ano, costumam viajar?