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Muito mais bem escrito, bem mais longo e pretensioso, em termos de intenções, que o pronunciamento feito em 2003, no Congresso Nacional, o discurso de posse renovada do presidente Luiz Inácio da Silva deixou a desejar no quesito conteúdo.
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Foi bem apresentado na forma, mas insuficiente para quem pretendia ler nas suas linhas e entrelinhas um roteiro claro das ações de governo para os próximos quatro anos.
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Frases entraram e saíram ao longo das 13 páginas e, no final das contas, pouco se soube de objetivo além do que já se sabia e de uma nova sigla com a qual conviveremos nos meses a seguir: PAC (de pacote econômico), significando Programa de Aceleração do Crescimento.
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Como de hábito, a marca publicitária se sobrepõe às ações concretas e saiu com a antecedência necessária de forma a constar como a marca forte do discurso, assim como foi a marca “Fome Zero” quatro anos atrás.
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O presidente não se comprometeu com detalhe de nenhum tipo, começando por oficializar o abandono da meta dos 5% de crescimento econômico para 2007..Preferiu as frases genéricas, desprovidas de substância objetiva. Tais como: “É preciso desatar alguns nós para que o País possa usar a força que tem e avançar com toda velocidade”; “O Brasil quer, num só movimento, resolver as pendências do passado e ser contemporâneo do futuro”; “Temos de construir consensos que não eliminem nossas diferenças nem apaguem os conflitos próprios das sociedades democráticas”; “Governar para todos é o meu caminho, mas defender os interesses dos mais pobres é o que nos guia nessa caminhada”; “É tempo do nascimento de um novo humanismo, fundado nos valores universais da democracia, da tolerância e da solidariedade”.
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Todo o discurso foi assim, permeado por frases de boa forma, mas de frágil conteúdo.
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Em alguns trechos, francamente fantasioso, como quando, ao se referir à política externa, Lula a qualifica de “motivo de orgulho” por causa dos “excelentes resultados que trouxe para a Nação”, quando a realidade registrou sucessivas derrotas em disputas em organismos internacionais e resultados inexistentes em missões como a força de paz no Haiti.
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Os escribas do discurso do presidente foram pródigos no manejo dos adjetivos e avaros no trato dos substantivos.
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Diferentemente do que fez em 2003, quando fez profissão de fé em defesa das reformas política, trabalhista, tributária e previdenciária, Lula agora limitou-se a defender com veemência a tributária - na direção da qual o governo federal não deu um passo para arbitrar os conflitos de interesse que a paralisam - e a dizer que a política é “prioritária”.
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A continuação das reformas da Previdência e a revisão da legislação trabalhista ficarão para o sucessor. O presidente falou muito em “medidas” para incentivar o crescimento, reduzir burocracia, aperfeiçoar leis, mas suas abordagens não passaram do enunciado dos problemas.
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A respeito de como resolvê-los, nenhuma referência. A única escolha clara posta no discurso pelo presidente foi a opção preferencial pelos pobres. Ainda assim, houve superficialidade no trato do tema.
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Por exemplo, não deu para perceber como o programa Bolsa-Família será a “peça-chave do próprio desenvolvimento estratégico do País”.
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Bem como na política não foi possível alcançar o significado concreto das palavras do presidente a respeito da proposta de fortalecimento de “um espaço público capaz de gerar novos direitos e produzir uma cidadania ativa”.
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Pelo discurso, depreende-se que o governo pretende incentivar a democracia participativa - “Nossas instituições têm de ser mais permeáveis à voz das ruas”-, mas nada é dito sobre a forma de fazê-lo. Seria patrocinando a convocação de plebiscitos, ou referendos? A questão fica no ar.
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Assim como carece de maior explicação a ressalva que o presidente fez no compromisso com a responsabilidade fiscal. “Mas”, excetuou ele, “é preciso combinar essa responsabilidade com mudança de postura e ousadia na criação de novas oportunidades para o País”.
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“Mudança de postura”, “ousadia”, significam o quê, gastança? Tal como o discurso todo, podem ter “n” significados. Inclusive nenhum, sendo apenas um ajuntamento de palavras ótimas das quais nada se extrai.
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Ponte aérea
No discurso de improviso no Palácio do Planalto, o presidente conseguiu, como nunca havia feito, transmitir a adequada indignação com ações do crime organizado, ao qualificar de “terrorismo” os ataques ocorridos no Rio de Janeiro pouco antes do fim do ano.
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No discurso de improviso no Palácio do Planalto, o presidente conseguiu, como nunca havia feito, transmitir a adequada indignação com ações do crime organizado, ao qualificar de “terrorismo” os ataques ocorridos no Rio de Janeiro pouco antes do fim do ano.
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Só soou desproporcional sua reação em relação a fatos de natureza ainda mais grave acontecidos em São Paulo por semanas a fio durante a campanha eleitoral. Lá, a atitude presidencial foi bastante mais amena com a criminalidade e mais rigorosa com o adversário, ex-governador, responsável pela segurança pública do Estado.