quinta-feira, janeiro 04, 2007

De novo, o vôo da galinha

José Paulo Kupfer, no Blog NoMínimo
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Não tem ninguém apostando num crescimento econômico acima de 3,8% este ano. Nem mesmo o presidente Lula, que lançou o mote dos 5%, insiste no número. A média das projeções aponta para um PIB em 2007 só 3,5% maior do que o de 2006. Mas não se espantem se uma surpresa ocorrer e, no fim do ano, a economia tiver avançado mais de 4% e mesmo se aproxime dos cabalísticos 5%.
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Para começar, acertar nas projeções macroeconômicas não tem sido o forte dos especialistas brasileiros. Não estamos nem falando em itens como o saldo comercial, em relação ao qual as bolas de cristal estão inteiramente descalibradas. Mesmo no caso das estimativas para o crescimento do PIB os erros não têm sido pequenos. No começo de 2006, na média, os analistas de conjuntura estavam convencidos de que a economia cresceria 3,5%, mas, na verdade, o crescimento não passará de 2,8%. Se erraram 0,7 ponto percentual para mais, por que não poderiam errar, agora em 2007, outro tanto para menos?
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Além disso – e mais importante –, a construção de cenários de conjuntura, por definição, se apóia em modelos nos quais passa bem longe qualquer possibilidade de ruptura em relação às condições normais e conhecidas de operação da economia. Grosso modo, quando estimam o futuro, os economistas se utilizam de sistemas de equações em que prevalecem mais do mesmo. Não faz parte do exercício levar em consideração, por exemplo, a eclosão de um conflito no Oriente Médio capaz de produzir um choque do petróleo como o de 1973. Ou, por suposição, que Lula resolva colocar, sob todos os riscos, um caminhão de dinheiro no setor de construção civil popular.
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Um outro ponto que tem sido pouco considerado é o efeito retardado da queda dos juros. Ao longo de 2006, a taxa básica recuou mais de 6%, mas os efeitos esperados desse alívio ainda não apareceram. O que não quer dizer que não vão aparecer, ainda mais quando a perspectiva é de que os cortes na taxa continuem a ocorrer, mesmo que em ritmo mais comedido.
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É bom repetir que não se está aqui afirmando que a economia crescerá, em 2007, os famosos 5% enunciados por Lula, na euforia da vitória eleitoral. O argumento é que as projeções macroeconômicas disponíveis não são infalíveis. Na verdade, elas falham e com freqüência. A verdade é que o crescimento de um único ano é uma medida volátil. Basta que algumas variáveis fujam ao padrão para determinar altas ou baixas maiores do que as inicialmente previstas.
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Num prazo mais longo, aí sim, as coisas se passam de modo mais previsível. Sem, por exemplo, uma infra-estrutura (leia-se investimentos) capaz de suportar aumentos sustentados de produção, não há crescimento que agüente por mais de um ano ou dois. É o que falta ao Brasil, no qual a estabilidade monetária desandou em estagnação econômica. Como uma galinha que quer voar, a economia brasileira tem de fazer muita força para sair pouco do chão e logo voltar a ele meio desajeitado.