quinta-feira, janeiro 04, 2007

Criminalizando a política

Por Reinaldo Azevedo
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Confesso que não há grande mérito em mais ou menos adivinhar o que o PT vai fazer. Pense sempre o pior. A chance de errar diminui enormemente. E preste atenção a uma outra ocorrência: ano novo, vida nova. Diminui a olhos vistos certa animosidade que mesmo o jornalismo alinhado com a esquerda passou a ter com o partido, agastado que estava com o pântano ético. Uma boa parte já começa a achar, a exemplo de Lula, que ético mesmo é fazer justiça social. Com que instrumentos, meios, modos, aí tanto faz. Os fins dignificam a lambança intermediária. Não é Maquiavel. É Lula — agora poetizado pela fábula da borboleta que Luiz Dulci achou no cópia-cola da Internet.
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Por que essa introdução? Porque essa gente não abriu mão de criminalizar a política, a exemplo do que se viu na reação de Tarso Genro, Marco Aurélio Garcia e José Dirceu ao discurso de posse do governador de São Paulo, José Serra. Os três entenderam, emprestando a esse entendimento (fingido) uma carga negativa, que o tucano está apenas se apresentando para 2010. Leitura semelhante fizeram alguns analistas, já de volta ao conforto do lulo-petismo depois de alguma rebeldia moralista. Se há coisa que passa logo nessa gente é dor na consciência...
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Ora, eu mesmo afirmei que o discurso tinha um horizonte mais largo, que chegava a 2010. Mas vejo nisso algo absolutamente normal. Haverá algum mal em um governador de São Paulo — maior população e maior colégio eleitoral do país, um terço do PIB, 40% da indústria — ser candidato ou pré-candidato à Presidência? Ou haverá algo de errado em que Aécio Neves, governador de Minas, queira o mesmo? Quer dizer que, não fosse a eleição, então se poderia dizer que Serra estaria conformado com a política de juros, com a administração do câmbio ou com o crescimento econômico? A sua história e trajetória políticas autorizam a ilação?
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Eu estou enganado, ou o próprio governo está descontente com os resultados colhidos até agora na economia? Ou o que faz o tal PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no noticiário? Não se trata justamente de uma tentativa de resposta às questões econômicas apontadas pelo governador de São Paulo? Quer dizer que aquele que é, por força da importância política e econômica do Estado e de sua trajetória pessoal, o principal líder da oposição no país está proibido de pensar questões nacionais?
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Ah, acontece que o petismo, para fazer sentido, precisa seqüestrar as outras vozes políticas da sociedade. Quem não se lembra de Lula, durante o debate eleitoral, pedindo que seus adversários passassem a fazer oposição só em 2010? Quem não se lembra do reeleito, em seu discurso de posse, tratando a si mesmo ora como um ungido das forças divinas ora como o produto de uma reviravolta — revolução? — histórica? Com efeito, quem se tem em tal conta não reconhece como legítima a existência da oposição. É bom lembrar que o presidente afirmou, naquela mesma fala, que sua reeleição foi a rejeição de uma tutela. Entenda-se: a única escolha legítima do povo era Lula.
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Recuperem, agora com certo distanciamento, a campanha. O PT tratou o tempo inteiro a candidatura do PSDB-PFL como uma tentativa de usurpação. Parecia um tanto indigno e desleal que alguém ousasse disputar a eleição com Lula. Geraldo Alckmin não soube sair da armadilha. Ao contrário. Caiu nessa e em outras tantas, perdendo, enfim, a chance de fazer um discurso inequivocamente de oposição. O jaqueta com o logo das estatais e a incapacidade de defender as privatizações falam por si.
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Uma oposição articulada surgiu finalmente com a fala de Serra. E cumpre descaracterizá-la, atribuir-lhe uma espécie de intenção secreta, quem sabe dolosa. “Serra quer ser candidato em 2010!”, dispara Dirceu em seu blog, num tom de acusação, como se a) sem a disputa vindoura, a crítica fosse improcedente; b) fosse ilegítima, ilegal ou imoral a possibilidade de Serra vir a disputar a Presidência daqui a quatro anos. Não pode? Seus direitos políticos foram cassados pelo petismo?
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Se os petistas tivessem um tanto de pudor, só um tantinho, impor-se-iam uma quarentena em relação a Serra, evitando dizer seu nome, para criticá-lo, por algum tempo. Afinal, era ele o alvo do dossiê preparado por figurões do partido para tentar dar um golpe eleitoral em São Paulo. A “Inteligência” petista queria era impedir justamente isto que se está a ver: o surgimento de uma voz articulada, capaz de arrostar com o Moderno Príncipe.
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Mais uma previsão: não perderá o mindinho direito quem decidir apostá-lo na certeza de que aparecerão vozes do “liberalismo” defendendo o governo Lula e atacando o viés, sei lá eu, intervencionista de Serra ou bobagem do gênero.
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“Liberais” ajudando a consolidar o poder do Babalorixá e de seu partido? Deus nos livre de um liberalismo assim, não é mesmo? Prefiro Marco Aurélio Garcia a fazer elogios destrutivos a Lula a certos liberais que pretendem lhe dispensar críticas construtivas...