terça-feira, fevereiro 20, 2007

Elogio à corrupção – parte três

por Ipojuca Pontes , Blog Diego Casagrande
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Depois de necessária pausa, em que tratamos de assuntos mais prementes, retornamos ao rol de nomes e instituições da vida nacional envolvidas em fraudes, mamparras, mamatas ou privilégios, dignas do clamor público – e todas ainda infensas a qualquer tipo de punição. Vamos aos personagens:
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Caso 1 – Maurício Marinho. Funcionário dos Correios pivô do escândalo que, em 2005, redundou na eclosão do universalmente conhecido mensalão. O desenvolto funcionário foi filmado embolsando R$ 3 mil, gesto que obrigou o então deputado Roberto Jefferson, enfurecido com a ação do ex-chefe da Casa Civil, o “capitão do time” José Dirceu, denunciar a ação do governo no colossal processo de suborno político.
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No vídeo, que virou uma espécie de cult movie da corrupção oficial, Marinho deixa transparecer a “capilaridade” da rede criminosa na qual, insinua, era apenas um grão de areia em meio ao deserto. Certo da impunidade, ele revelou com quem dividia o grosso do ervanário: “Eu tenho acesso direto ao presidente da empresa, ao partido e aos diretores”.
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Hoje: Maurício Marinho converteu-se à religião evangélica e, em Brasília, julga-se um homem feliz, usufruindo a vida que pediu a Deus. Semana passada, apontado como peça inicial do “escândalo que virou piada” (royalty para Delúbio), um seu familiar se mostrou indignado: “Tudo conversa. Ele (Maurício) jamais foi indiciado”. O que é uma verdade.
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Caso 2 – Paulo Okamotto. Generoso amigo de Lula desde tempos remotos. Ele foi vendedor de cerâmica, funcionário da Volkswagen, tesoureiro e depois presidente estadual do Partido dos Trabalhadores. Em depoimento à CPI dos Bingos, Okamotto não conseguiu explicar a origem do dinheiro com que pagou uma dívida de Lula ao próprio PT, durante a campanha eleitoral de 2002, na ordem de R$ 29 mil. Melhor ainda: em abril de 2002, Okamotto pagou débito de Lurian, filha do bom amigo Luiz Inácio Lula da Silva, em torno de R$ 26 mil, numa operação para saldar dívida de campanha eleitoral de Lurian, então candidata derrotada ao cargo de vereadora em São Bernardo do Campo.
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Em que pese forte pressão da CPI, o bom amigo Okamotto teve a quebra do seu sigilo bancário negada pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, um tipo obcecado por cargos políticos de expressão. Com a quebra, é evidente, seria possível esclarecer a origem dos enigmáticos recursos que saldaram tão alopradas dívidas.
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Hoje: Paulo Okamotto foi reconduzido por Lula ao cargo de presidente do Sebrae, guarda-chuva oficial para “apoio às micro e pequenas empresas”, com salário de R$ 25 mil. Anda sorridente, já arrisca entrevistas laudatórias em cadeias públicas de televisão e em data recente foi recebido no Planalto, onde foi efusivamente cumprimentado pelo Líder Máximo.
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Caso 3 - Fábio Luís Lula da Silva. O filho do presidente Lula que, em menos de dois anos, passou de monitor do Zoológico de São Paulo, com salário de R$ 600, para empresário bem-sucedido no ramo da informática. Ao lado de Kalil Bittar, filho de Jacó Bittar, fundador do PT e velho companheiro de Lula, Luís Fábio se associou à Gamecorp, produtora de games que recebeu substancial aporte financeiro da Telemar (empresa concessionária de serviços públicos, com dinheiro do Estado na composição do seu capital) na ordem de R$ 5,2 milhões. Mais do que isso, segundo levantamento da revista Veja, edição de 25/10/2006, Luís Fábio tornou-se lobista da empresa de telefonia, abrindo as portas do poder em Brasília.
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Diante de insinuações de tráfico de influência, Lula, que considera Lulinha como uma espécie de Ronaldinho da informática, foi definitivo ao rebatê-las durante uma entrevista de televisão, em 2006: “Se alguém souber de alguma coisa que meu filho tenha cometido de errado, é simples: o meu filho está subordinado à mesma Constituição a que eu estou”.
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Hoje: apresentando fora do prazo o balanço da empresa referente ao exercício de 2005, que contabiliza prejuízos operacionais na ordem de R$ 690 mil, Lulinha continua firme à frente da Gamecorp. A razão do tropeço é que a empresa do “Ronaldinho da informática”, segundo o balanço, gastou mais com as elevadas despesas burocráticas do que o próprio objeto do negócio.
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Caso 4 - Rogério Buratti. Personagem fascinante e múltiplo, digno de figurar nos relatos das Mil e Uma Noites. Secretario da prefeitura de Ribeirão Preto na gestão de Antonio Palocci, em 2001, era agente ativo da Máfia do Lixo, que recebia propina da Leão&Leão, empresa prestadora de serviço conivente com o esquema de superfaturamento em contrato municipal de coleta do lixo. Acossado pelo isolamento a que foi submetido, Buratti terminou por denunciar o ex-trotskista Palocci, já então poderoso ministro da Fazenda, como beneficiário dos recursos da Leão&Leão, na ordem de R$ 50 mil mensais.
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Mas o diligente Buratti não ficou por aí. Em Brasília, além de se envolver com o suposto esquema que infiltrou de Cuba U$ 3 milhões para a campanha eleitoral de 2002, foi acusado de assessorar a intermediação de contrato de R$ 650 milhões, considerado lesivo, entre a Caixa Econômica e a Gtech, empresa americana voltada para a operação do controle de redes lotéricas e de jogos eletrônicos.
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Hoje: depois da devastadora denúncia do caseiro Francenildo, que terminou por detonar a República de Ribeirão Preto, um ponto de negócios e prazeres localizado num casarão de luxo no Lago Sul de Brasília, Buratti se mudou para Belo Horizonte, Minas, onde vive livre, leve e solto - em lua de mel com a nova esposa.
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Ia apontar mais alguns nomes e casos da “nossa” vida política, ainda impunes, mas acabou o espaço. Fica para depois.