por Rodrigo Constantino, Blog Diego Casagrande
“A moralidade humana, até mesmo a mais elevada e substancial, não é de modo algum dependente da religião, ou necessariamente vinculada a ela.” (Humboldt)
“A moralidade humana, até mesmo a mais elevada e substancial, não é de modo algum dependente da religião, ou necessariamente vinculada a ela.” (Humboldt)
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Sei que o tema religião desperta fortes paixões que costumam suprimir a razão – o que posso atestar pela reação de muitos aos meus recentes artigos. Mas não consigo compreender porque não devemos questionar coisas sobre este assunto, se ele gera tanto impacto em nossas vidas. Devemos aceitar sem questionar? Devemos tratar como sagrada as crenças alheias mesmo sem acreditar nelas? Por que o mesmo indivíduo que reconhece objetivamente que Maomé foi humano e guerreiro, não o reconhecendo como um profeta de Alá, não aceita que façam perguntas sobre Jesus Cristo? Apenas porque aprendeu a repetir a vida toda que Jesus era Deus em pessoa? E duvidar disso, ou questionar, é pecado? Por quê?
Sei que o tema religião desperta fortes paixões que costumam suprimir a razão – o que posso atestar pela reação de muitos aos meus recentes artigos. Mas não consigo compreender porque não devemos questionar coisas sobre este assunto, se ele gera tanto impacto em nossas vidas. Devemos aceitar sem questionar? Devemos tratar como sagrada as crenças alheias mesmo sem acreditar nelas? Por que o mesmo indivíduo que reconhece objetivamente que Maomé foi humano e guerreiro, não o reconhecendo como um profeta de Alá, não aceita que façam perguntas sobre Jesus Cristo? Apenas porque aprendeu a repetir a vida toda que Jesus era Deus em pessoa? E duvidar disso, ou questionar, é pecado? Por quê?
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Jesus nunca escreveu nada, assim como Maomé. Outros homens escreveram sobre eles, e isso gerou o livro sagrado dos muçulmanos e o dos cristãos. Como encarar o que ali está escrito, por homens comuns? Devemos tomar literalmente o que foi supostamente dito, como fazem os fundamentalistas? Afinal, trata-se ou não da “revelação” divina? Mas se for a Verdade revelada por palavras ambíguas, que não devem ser analisadas ao pé da letra, como interpretá-la então, já que não há um critério objetivo disponível? Qual seria o objetivo de Deus em evitar falar de forma objetiva? Gerar confusão? Criar grupos que interpretam a mensagem de forma diferente e brigam entre si? Se aquelas palavras escritas por homens e atribuídas a Jesus devem ser filtradas por cada um, então estamos diante de algo bastante subjetivo, e no final das contas será a própria razão humana que irá separar o joio do trigo, que irá determinar o que é para ser seguido e o que é para ser descartado. Logo, estaríamos dependendo da própria capacidade racional humana para entender a mensagem. Ou seja, o homem mesmo é capaz de ler supostas “revelações” e descartar algumas partes, ficando com outras. Isso me parece algo bem humano, e não divino.
Jesus nunca escreveu nada, assim como Maomé. Outros homens escreveram sobre eles, e isso gerou o livro sagrado dos muçulmanos e o dos cristãos. Como encarar o que ali está escrito, por homens comuns? Devemos tomar literalmente o que foi supostamente dito, como fazem os fundamentalistas? Afinal, trata-se ou não da “revelação” divina? Mas se for a Verdade revelada por palavras ambíguas, que não devem ser analisadas ao pé da letra, como interpretá-la então, já que não há um critério objetivo disponível? Qual seria o objetivo de Deus em evitar falar de forma objetiva? Gerar confusão? Criar grupos que interpretam a mensagem de forma diferente e brigam entre si? Se aquelas palavras escritas por homens e atribuídas a Jesus devem ser filtradas por cada um, então estamos diante de algo bastante subjetivo, e no final das contas será a própria razão humana que irá separar o joio do trigo, que irá determinar o que é para ser seguido e o que é para ser descartado. Logo, estaríamos dependendo da própria capacidade racional humana para entender a mensagem. Ou seja, o homem mesmo é capaz de ler supostas “revelações” e descartar algumas partes, ficando com outras. Isso me parece algo bem humano, e não divino.
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Se não for assim, como devemos entender o que teria sido supostamente dito por Jesus no famoso Sermão da Montanha? Vejamos alguns trechos, como este: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo o que olhar uma mulher para cobiçá-la, já adulterou com ela no seu coração. Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o e lança-o fora de ti; porque é melhor que se perca um de teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno”. Alguém vive assim? Devemos seguir essa “verdade” sem questionamento?
Se não for assim, como devemos entender o que teria sido supostamente dito por Jesus no famoso Sermão da Montanha? Vejamos alguns trechos, como este: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo o que olhar uma mulher para cobiçá-la, já adulterou com ela no seu coração. Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o e lança-o fora de ti; porque é melhor que se perca um de teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno”. Alguém vive assim? Devemos seguir essa “verdade” sem questionamento?
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Ou então: “Ouviste o que foi dito: olho por olho e dente por dente. Eu, porém, te digo que não resistas ao mau; mas se alguém te bater na tua face direita, oferece-lhe também a outra”. O que devemos tirar dessa lição “divina”? Que a lex talionis do Código de Hamurabi deve ser rasgada, e eu seu lugar devemos oferecer amor em troca de violência? Que de fato devemos oferecer outra face para quem nos agrediu? Alguém consegue viver assim? Seria possível um mundo assim, sabendo que o homem é como é? Deveria um pai oferecer o outro filho vivo para os bandidos que acabam de tirar a vida de um de seus filhos? Amar o próprio assassino do seu filho, eis a máxima cristã no sentido literal. Isso é algo bom ou razoável?
Ou então: “Ouviste o que foi dito: olho por olho e dente por dente. Eu, porém, te digo que não resistas ao mau; mas se alguém te bater na tua face direita, oferece-lhe também a outra”. O que devemos tirar dessa lição “divina”? Que a lex talionis do Código de Hamurabi deve ser rasgada, e eu seu lugar devemos oferecer amor em troca de violência? Que de fato devemos oferecer outra face para quem nos agrediu? Alguém consegue viver assim? Seria possível um mundo assim, sabendo que o homem é como é? Deveria um pai oferecer o outro filho vivo para os bandidos que acabam de tirar a vida de um de seus filhos? Amar o próprio assassino do seu filho, eis a máxima cristã no sentido literal. Isso é algo bom ou razoável?
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Aqui a mensagem é ainda mais radical: “Ouviste o que foi dito: Amarás ao teu próximo e odiarás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus”. Como pode um cristão ler essa passagem, teoricamente do seu próprio Deus, e reclamar quando vê cartazes com os dizeres “Jesus ama Osama”? Não é isso que foi ensinado? Não era para os cristãos amarem Bin Laden? Ou devemos ignorar este trecho da mensagem “divina” e ficar com outros? Mas quem decide isso? Os próprios indivíduos? Com base em qual critério? Pois se a própria razão humana é capaz de criar um código de moral e ética – como eu acredito – então por que sequer atribuir caráter divino ao que outros humanos disseram? Não precisamos disso.
Aqui a mensagem é ainda mais radical: “Ouviste o que foi dito: Amarás ao teu próximo e odiarás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus”. Como pode um cristão ler essa passagem, teoricamente do seu próprio Deus, e reclamar quando vê cartazes com os dizeres “Jesus ama Osama”? Não é isso que foi ensinado? Não era para os cristãos amarem Bin Laden? Ou devemos ignorar este trecho da mensagem “divina” e ficar com outros? Mas quem decide isso? Os próprios indivíduos? Com base em qual critério? Pois se a própria razão humana é capaz de criar um código de moral e ética – como eu acredito – então por que sequer atribuir caráter divino ao que outros humanos disseram? Não precisamos disso.
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Jesus acrescenta no sermão um tom bastante crítico às riquezas também: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”. Ou então: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem guardam nos celeiros; e vosso Pai celestial as sustenta”. E mais adiante: “Não vos aflijais pois, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos? Porque os pagãos é que se inquietam por essas coisas”. Algum leitor é cristão e não pagão? Essa mensagem não parece um consolo para os pobres, dando a entender ainda que suas necessidades mais básicas não precisam ser inquietantes, pois irão cair do céu? Depois reclamam quando dizem que a escolha da Igreja Católica é pela pobreza, e não pelos pobres. Como disse Roberto Campos: “O problema com o catolicismo brasileiro é que entende de menos o Mercado e reverencia demais o Estado. Seu desamor aos ricos excede seu amor aos pobres. Gosta de distribuir riquezas mas não se esforça por facilitar a criação delas”. Mas não estaria a Igreja apenas seguindo os mandamentos de Cristo?
Jesus acrescenta no sermão um tom bastante crítico às riquezas também: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”. Ou então: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem guardam nos celeiros; e vosso Pai celestial as sustenta”. E mais adiante: “Não vos aflijais pois, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos? Porque os pagãos é que se inquietam por essas coisas”. Algum leitor é cristão e não pagão? Essa mensagem não parece um consolo para os pobres, dando a entender ainda que suas necessidades mais básicas não precisam ser inquietantes, pois irão cair do céu? Depois reclamam quando dizem que a escolha da Igreja Católica é pela pobreza, e não pelos pobres. Como disse Roberto Campos: “O problema com o catolicismo brasileiro é que entende de menos o Mercado e reverencia demais o Estado. Seu desamor aos ricos excede seu amor aos pobres. Gosta de distribuir riquezas mas não se esforça por facilitar a criação delas”. Mas não estaria a Igreja apenas seguindo os mandamentos de Cristo?
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Até mesmo o que se pode considerar a grande mensagem de Cristo, sobre amar os outros como a ti mesmo, não foi algo exclusivo de sua autoria. Uns cem anos antes dele, Publilius Syrus, um assírio que foi levado como escravo para a Itália, chegou a dizer que devemos esperar ser tratado pelos outros como temos tratado os outros. Uma mensagem que vai na mesma linha, pregando o respeito aos demais para poder ser tratado com respeito.
Até mesmo o que se pode considerar a grande mensagem de Cristo, sobre amar os outros como a ti mesmo, não foi algo exclusivo de sua autoria. Uns cem anos antes dele, Publilius Syrus, um assírio que foi levado como escravo para a Itália, chegou a dizer que devemos esperar ser tratado pelos outros como temos tratado os outros. Uma mensagem que vai na mesma linha, pregando o respeito aos demais para poder ser tratado com respeito.
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Se o tema é amargo e gera tanto ressentimento em alguns, para que tocar nele? Em minha opinião, a resposta é porque faz toda a diferença do mundo entendemos que os próprios humanos podem definir um código justo de conduta sem ter que apelar para alguma força sobrenatural. Não é preciso cair no relativismo moral onde qualquer coisa é igualmente válida, logo nada é válido como critério de justiça, ao negarmos uma autoridade divina em nosso código moral. Os homens são capazes de buscar aquilo que parece correto e justo, por conta própria e através de sua razão, como tem sido feito há milênios. Os conceitos foram evoluindo. A escravidão, que foi aceita mesmo durante tantos séculos depois de Cristo, inclusive com o aval da Igreja, é amplamente condenada hoje, por exemplo. Foram os próprios homens que chegaram à conclusão de que era totalmente injusto alguém não ter o direito sequer à propriedade do seu próprio corpo. Não é preciso um livro sagrado para tanto, tampouco alguma “revelação divina”.
Se o tema é amargo e gera tanto ressentimento em alguns, para que tocar nele? Em minha opinião, a resposta é porque faz toda a diferença do mundo entendemos que os próprios humanos podem definir um código justo de conduta sem ter que apelar para alguma força sobrenatural. Não é preciso cair no relativismo moral onde qualquer coisa é igualmente válida, logo nada é válido como critério de justiça, ao negarmos uma autoridade divina em nosso código moral. Os homens são capazes de buscar aquilo que parece correto e justo, por conta própria e através de sua razão, como tem sido feito há milênios. Os conceitos foram evoluindo. A escravidão, que foi aceita mesmo durante tantos séculos depois de Cristo, inclusive com o aval da Igreja, é amplamente condenada hoje, por exemplo. Foram os próprios homens que chegaram à conclusão de que era totalmente injusto alguém não ter o direito sequer à propriedade do seu próprio corpo. Não é preciso um livro sagrado para tanto, tampouco alguma “revelação divina”.
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O Sermão da Montanha pode ter mensagens bonitas e mensagens absurdas. Mas o importante é que, se não podemos tomar aquelas palavras como uma revelação do próprio Deus literalmente falando, será o próprio homem que terá que julgar. Logo, creio que podemos concluir que a moralidade de nossas ações independe da “divindade”. Os próprios humanos racionais é que deverão obter o código moral adequado para nossa vida neste planeta.
O Sermão da Montanha pode ter mensagens bonitas e mensagens absurdas. Mas o importante é que, se não podemos tomar aquelas palavras como uma revelação do próprio Deus literalmente falando, será o próprio homem que terá que julgar. Logo, creio que podemos concluir que a moralidade de nossas ações independe da “divindade”. Os próprios humanos racionais é que deverão obter o código moral adequado para nossa vida neste planeta.