quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Lula e a hora da fatura

Valdo Cruz, Folha de São Paulo

Não há mais como fugir do tema. Até a eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado, Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu escapar das pressões por cargos no primeiro e segundo escalão do governo. Agora, perdeu os argumentos para postergar a nomeação de sua nova equipe de ministros e diretores de estatais.
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O grupo mais faminto é o que bancou a vitória de Arlindo Chinaglia (PT-SP) na disputa pela presidência da Câmara. Ele procura desconversar quando o tema é formação do novo ministério. Diz Chinaglia: "Se o presidente Lula disse isso mesmo [que o PT, por ter a Presidência da República e a da Câmara, terá de ser generoso e abrir espaço para os aliados], ele deu um recado claro. Eu não falarei mais em nome do PT. Como presidente da Câmara eu vou lá pressionar [o presidente]? Não irei. Sou presidente da Câmara".
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A despeito da declaração do novo presidente da Câmara, petistas e peemedebistas que articularam sua candidatura prometem apresentar uma fatura cara para garantir os votos necessários ao governo no momento de votar as medidas do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
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Fossem apenas as pressões do PT e PMDB a vida de Lula seria fácil. O presidente, porém, terá de contemplar outros aliados. O grupo que apoiou a candidatura derrotada de Aldo Rebelo (PC do B, PSB e PDT) pode criar muitas dificuldades para o presidente se ficar relegado a segundo plano na distribuição de espaços no segundo mandato do presidente Lula.
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Sem esse grupo, formado por cerca de 70 deputados e 8 senadores, Lula não consegue aprovar com tranquilidade suas principais medidas no Congresso. Afinal, a aliança PT/PMDB elegeu Chinaglia com a ajuda das siglas mensaleiras, mas sozinha não reúne os votos necessários para bancar os projetos de interesse do governo Lula.
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Dentro do grupo que apoiou Aldo Rebelo, a avaliação é que PT e PMDB mostraram força ao eleger Chinaglia, mas o resultado final sinalizou também sua "fragilidade" quando estiverem em votação as medidas do governo Lula. "Ficou demonstrada a fragilidade deles. Eles chegaram a falar que teriam 350 votos. Mas com o apoio de toda cúpula do PT, PMDB, PR, PP e PTB, colocaram sobre nós apenas 18 votos. Ou seja, são incapazes de oferecer qualquer coisa ao governo sem a gente, esse é o nosso trunfo", diz reservadamente um aliado do comunista.
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Caberá a Lula administrar a disputa entre os dois grupos. Entre os pleitos peemedebistas está o Ministério da Integração Nacional, pasta ocupada no primeiro mandato por Ciro Gomes (PSB-CE) e hoje comandada por um aliado seu, Pedro Brito. Dependesse de Ciro, ele seria mantido no posto. Só que o PMDB gostaria de ter ali um representante de sua bancada na Câmara dos Deputados, responsável pela vitória de Chinaglia. A guerra pode ser sangrenta, mas Lula tem munição suficiente para forçar um armistício entre os dois grupos. Esse é seu trunfo para quitar a fatura.

Lealdade, sem subordinação
Ciro Gomes, por sinal, tem dito que realmente não deseja voltar para o governo. Segundo disse a um amigo, ele se manterá leal ao presidente Lula, votando com o governo, mas não deseja uma relação de subordinação. No ministério, não pode ter opinião publicamente. Fica limitado a fazer seus comentários internamente. Foi o que fez durante o primeiro mandato. Agora, diante de seus planos de disputar a Presidência em 2010, Ciro prefere evitar as limitações do cargo e ter liberdade para se posicionar mais sobre os rumos do governo.
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Chinaglia e suas prioridades
O novo presidente da Câmara diz que, em termos de projetos, marcará definitivamente sua gestão se atingir três metas: aprovar as reformas tributária e política e promover uma reorganização na legislação infra-constitucional. "Temos de trabalhar muito na legislação infra-constitucional. Há leis obsoletas e em desuso. Gostaria de reorganizar essa legislação, será um bom trabalho. Se votarmos as reformas tributária e política, marquei definitivamente a minha gestão."
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Promessa
Arlindo Chinaglia promete acelerar os trabalhos da Câmara, principalmente dos temas mais relevantes, mas sem atropelar os líderes partidários. Para atingir seu objetivo, sua receita é fixar um prazo para que as lideranças discutam com suas bancadas determinado assunto, mas com prazo determinado para votar. "Sou radicalmente contra ficar com temas importantes pendentes. Meu método vai ser dizer aos líderes: 'Qual vai ser o prazo que vocês querem para reunir suas bancadas e deliberar'. Dar um prazo para deliberar", diz Chinaglia. O novo presidente da Câmara afirma que pretende adotar o mesmo procedimento com o governo. "Vou avisar o líder do governo: 'Olha, nós vamos colocar em pauta', ou seja, vou consultar o governo, mas deixarei claro que colocarei o assunto em votação."
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Outros presidentes também prometeram tornar mais célere o trabalho da Câmara. Não conseguiram. A vez agora é de Arlindo Chinaglia. Ainda não é possível dizer que vai fracassar como os outros. É preciso dar um voto de confiança e cobrar depois.