quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Ministros sem telex

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

SÃO PAULO - Eduardo Portela, baiano ilustrado, ministro da Educação do governo Figueiredo, que perdeu o ministério mas não perdeu a frase - "Não sou ministro, estou ministro" - e que Jorge Amado dizia ter nome de cardeal, foi a São Paulo para um debate com estudantes.

Terminou, foi ao aeroporto de Congonhas, estava fechado, sem teto. Voltou, parou no Maksoud Plaza Hotel, à uma e meia da manhã. O português de Angola, chefe da recepção, estava atento:

- O senhor doutor tem bagagem?

- Não. Vim de Brasília para voltar, mas não há avião.

Não tendo bagagem, tem que pagar adiantado.

O ministro puxou o talão de cheque.

- Cheque de Brasília, senhor doutor? Não pode. Não aceitamoscheque de fora. Só se for de São Paulo.

Eduardo Portela
O gaúcho Waldir Luciano, primo do ministro Jair Soares, hospedado lá, estava chegando, chamou o chefe da recepção:

- Esse é o ministro Eduardo Portela, da Educação.

- Não pode ser. Se fosse, teria vindo telex de Brasília. Todo vez que vem ministro para cá, vem telex. Sem telex, não é ministro.

Waldir fez um cheque de São Paulo, pagou, Eduardo Portela foi dormir. Às três e meia da manhã, foi acordado. O angolano havia apurado que era ele mesmo, mandou um cartão de desculpas, uma cesta de frutas e um champanhe.

O ministro recebeu e foi dormir o sono aflito de ministro sem telex.

Thomaz Bastos
O segundo governo Lula é um governo de ministros sem telex. Ministros só de mentira. Aqui em São Paulo está cheio deles. Já se conhecia governo sem ministério em fim de governo. Mas começando o governo é a primeira vez. E cada um vai ficando com a cara mais patética.

O heráldico ministro Marcio Thomaz Bastos, coluna central de sustentação do turbulento primeiro governo Lula, há dois meses pediu demissão e Lula não pôde dizer nada. Mas não consegue nomear o substituto. Thomaz Bastos passou um mês de férias em Guarujá, voltou e nada.

Lula quer pôr lá Tarso Genro, o "anão de jardim", como o chama José Dirceu, mas tem medo que ele faça uma gauchada, atenda ao procurador geral da República e mande prender o "chefe da quadrilha" do mensalão.

Furlan e cia.
Fernando Furlan, do Desenvolvimento, também já anunciou que não vai ficar. Prefere voltar às lingüiças e perus da sua Sadia. Mas a situação dele é pior que a de Thomaz Bastos. Lula não tem quem mandar para lá, porque PT, PMDB, PP, PR, toda a República do Mensalão, querem ministérios que tenham muito dinheiro. E o do Desenvolvimento só tem estatística. E ruim.

Cidades, Educação, Transportes, Saúde, Agricultura, Integração, etc. são ministérios "de caneta cheia", como diz o PT. Quer dizer, de cofre cheio. É para cima deles que se lançam as matilhas, gulosas e famintas. E seus ministros estão paralisados, todo dia com notícias de que foram negociados.

O pesadelo dos ministros sem telex é que Lula não tem berço nem finesse sequer para demitir por telex. É por jornal mesmo.

Delfim
Delfim se pôs fora desse jogo bruto. Confessou a um amigo paulista:

- Com 80 anos, não tenho mais idade para a Fazenda, o Banco Central, a Agricultura. Só há uma exceção: o BNDES. O BNDES eu quero e aceito.

Delfim já está treinando para servir a seu novo general. Disse na "Folha: "A taxa de crescimento será a maior possível (sic), dentro das condições existentes" (sic). E é apontado como o maior economista do País.

Palocci
Sai, em março, pela Editora Objetiva, o livro de Palocci sobre os "1.082 dias como ministro da Fazenda". O título ("Sobre formigas e cigarras") não diz claramente, mas sugere que ele vai contar a história da "Casa dos Amores" e do caseiro Francenildo, do Lago Sul de Brasília, que o derrubaram do trono como a um saturnal. O Aurélio e o Houaiss definem bem:

"Cigarra: marido que goza de liberdade durante a semana, permanecendo na cidade enquanto a mulher se ausenta". Tudo a ver.

Porta-voz
Miriam Leitão, a mais categorizada porta-voz dos banqueiros no País, explica por que o Banco Central só derrubou os juros em ridículos 0,25%:

"A preocupação maior do Banco Central seria com o fato de que a queda já ocorrida dos juros está acelerando o consumo (sic) e reativando a economia (sic)... A queda de juros continuará produzindo efeitos nos próximos meses. Em resumo: a queda já ocorrida dos juros contratou (sic) um aumento da atividade econômica que já aparece em alguns indicadores. Por isso, seria preciso ir mais devagar (sic) com o andor" ("Globo").

Eis aí a confissão do crime: os juros não baixam porque o Banco Central não quer que a economia cresça. Se a economia crescesse, os bancos ganhariam menos. Os donos de Lula proibiram o Brasil de crescer.