quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Perda de imunidade

Fabio Grecchi, na Tribuna da Imprensa

A pesquisa do Ibope realizada sob encomenda da ONG Transparência Brasil derruba alguns mitos interessantes em relação à compra de votos por políticos corruptos. O primeiro deles é que somente os mortos de fome se vendem por cesta básica. De jeito algum: a maioria é de jovens, numa mistura de desinteresse, arrogância e desesperança, espelho de uma sociedade permissiva e sem referenciais morais.

Outro aspecto interessante é que o Paraná, um dos estados mais ricos da União, foi o campeão da compra de votos. Para quem pensava que a liderança caberia aos paupérrimos Piauí, Maranhão ou à violenta Alagoas, não deixa de ser uma surpresa. Cai por terra também o mito de que tal fraude é privilégio das regiões mais pobres do País, como Norte e Nordeste.

Aliás, não parecia incomodar tanto quando este problema se restringia somente à parte de cima do Brasil, a partir da Bahia. Havia quase que um tácito perdão às populações nordestinas e nortistas: vítimas históricas da fome, da seca e do coronelismo político, não chocava mais ninguém que vendessem o voto para seu sustento e o de oligarquias locais, como a dos Magalhães (ACM e Juracy), Franco (SE), Sarney (MA), Buriti, Cunha Lima (ambas PB), Alves, Maia (ambas RN), Jereissati (CE), Collor (AL), Magalhães Barata (PA), Mestrinho (AM) e uns poucos mais.

Com os números do descaso chegando firmes ao Sul Maravilha, acende uma luz vermelha, segundo os coordenadores da pesquisa. De forma alguma: já estava acesa há muito tempo. A diferença é que em relação ao Norte e ao Nordeste a questão, embora condenada, era tratada como uma espécie de tradição histórica. Quer dizer: um vício extremamente arraigado, que vinha em linha direta das Capitanias Hereditárias. Não deixa de ser um certo preconceito, não por parte dos realizadores da pesquisa, mas de todos que se dedicam a estudar a tradição política.

Vistos como cidadãos de segunda categoria, há a tendência de paternalizar o tema em relação a nortistas e nordestinos e compreender-lhes o gesto como a última forma de se apresentarem como cidadãos. O problema é que não são apenas as populações destas duas regiões que sentiram os efeitos da corrupção e do esfacelamento do ambiente moral dos três Poderes. Não há mais trecho deste País que esteja imune à doença.

Coisa feia
A pesquisa aponta ainda que 8,3 milhões de brasileiros foram abordados com propostas para venda de votos. Tal número representa um colégio eleitoral do tamanho do Espírito Santo, aproximadamente.

Tal assédio significa ainda um número três vezes maior do que em 2002, quando pesquisa semelhante apurou que somente 3% do eleitorado tinham sido procurados para vender o voto.

Ladeira abaixo
A pressão para Henrique Meirelles deixar a presidência do Banco Central voltou a crescer ontem, com o dólar batendo abaixo da casa dos R$ 2,10. Já há o temor de que até o final do mês a moeda norte-americana esteja fechando em R$ 2,00, para alegria dos importadores e dos muambeiros de produtos chineses.

Para quem prometeu crescimento de 5%, Lula está dando um golpe sério no exportador brasileiro. Cada vez mais é preciso produzir para compensar a queda gradativa da moeda. Só que esta relação perversa começa a se manifestar através da desvalorização de produtos brasileiros.

Na bica
O eventual substituto de Meirelles tem até nome: Demian Fiocca, presidente do BNDES, conforme adiantado por esta coluna. Ex-braço direito de Guido Mantega nos tempos em que esteve à frente do banco, tem imensa afinidade com o ministro da Fazenda. Se houver a troca, é sinal de que Mantega continua onde está.

E que também Delfim Netto fica na bica para assumir a presidência do BNDES. De fora, o ex-ministro tem sido um crítico feroz da política de juros altos e dólar desvalorizado. Além disso, se insere na cota ministerial do PMDB.

Na atividade
O senador Romero Jucá (PMDB-RR) não prega prego sem estopa. Participou ontem da posse do ex-senador José Jorge na presidência da Companhia Energética de Brasília. Ex-vice na chapa presidencial de Geraldo Alckmin, foi colocado à frente da CEB pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda.

Num evento claramente oposicionista, sobretudo do PFL, Jucá era o único governista. Sabem como é: vai que o vento vira numa hora destas...

Afinidade
José Jorge foi uma escolha óbvia de Arruda. Ex-ministro das Minas e Energia durante o apagão, no governo Fernando Henrique Cardoso, tem imensa afinidade com o atual governador do Distrito Federal. Que, diga-se, é engenheiro eletricista por formação universitária.

Tanto Jorge quanto Arruda, no auge da campanha presidencial do ano passado, disseram que Lula "bebia demais e trabalhava de menos". Em comícios distintos, registre-se.

Uh, danou-se
O governador André Puccinelli (MS) anuncia hoje uma série de medidas para proteger o rebanho bovino do Estado contra a aftosa. Será durante reunião com os segmentos da pecuária local. Ele tem anunciado aos quatro cantos que quem importar gado doente vai para a cadeia.

O Mato Grosso do Sul, que não bastasse vem sofrendo com os temporais que o assolam desde o começo do ano, ainda tem que conviver com a ameaça boliviana da aftosa. O governo estadual espera apenas que La Paz não se aproveite do tema para afirmar que o Brasil criou um factóide para contra-atacar na guerra do gás.