quarta-feira, março 07, 2007

Brasil deve negociar com os EUA sem preconceito

Willian Waack, G1
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Com George W. Bush chegando ao Brasil na próxima quinta feira (8), duas perguntas precisam ser respondidas. Se ela existe, ou existiu, qual é ou qual foi o tamanho da subserviência brasileira frente aos Estados Unidos? E qual é o tamanho do anti-americanismo no Brasil?
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Ainda na semana passada o presidente Lula disse que a subserviência acabou – em seu governo, claro. É uma bobagem como muitas da linha “nunca antes neste país”. Ofende a diferentes gerações de políticos, diplomatas, ministros e negociadores brasileiros que defenderam o Brasil em sucessivos contenciosos com os Estados Unidos nos últimos 30 anos, no mínimo.
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Seria o atual governo subserviente pelo fato de ter atendido a um pedido americano e enviado tropas brasileiras para missão de paz no Haiti? Ou por entrar em negociações sobre uma “Opep do etanol”, um dos temas centrais a serem tratados entre Lula e Bush? Ou pelo fato de Lula ir dormir em Camp David, a casa de campo do presidente americano, no final do mês – o mesmo gesto que ele tanto criticou em FHC?
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Uma das razões do sucesso eleitoral de Lula é o fato dele representar tão bem o chamado “senso comum” do brasileiro – e parte significativa do nosso “senso comum” é a idéia de que os americanos, de uma forma ou outra, sempre acabam prejudicando nosso destino manifesto de ser uma grande potência. Ou conspiram para que nossos planos não se realizem. Ou são os culpados diretos por nossas mazelas políticas e sociais.
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É outra bobagem tão grande quanto a da subserviência. É importante aqui separar duas esferas: a da crítica às políticas do governo americano, e maneira como nós, brasileiros, enxergamos ao Estados Unidos. A maneira como Bush levou os Estados Unidos à guerra é universalmente criticada, e de maneira bastante ácida dentro também dos Estados Unidos.
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“Mas se deixarem, uma boa parte da classe média brasileira muda-se imediatamente para lá”, diz Rubens Barbosa, um ex-embaixador brasileiro em Washington. A atração que a vida nos Estados Unidos exerce sobre milhões de brasileiros (e latino-americanos, africanos, europeus e asiáticos) talvez possa ser resumida numa constatação até certo ponto triste (para nós): quem vai tentar a vida nos Estados Unidos acha que tem melhores oportunidades lá do que aqui – e são muitos os brasileiros que fizeram e continuam percorrendo esse caminho.
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É proverbial a ignorância do “americano médio” (essa ficção estatística) sobre o mundo em geral e o Brasil em particular. O mesmo não se pode dizer sobre o mundo acadêmico: gerações de estudiosos americanos debruçaram-se sobre o Brasil de uma maneira que nós, brasileiros, só agora estamos começando a fazer de maneira ampla e organizada sobre o Estados Unidos, ressalvadas muitas brilhantes contribuições individuais. Em alguns círculos acadêmicos brasileiros, estudar os Estados Unidos equivalia a perder tempo, pois o capitalismo estaria mesmo condenado a desaparecer.
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Do ponto de vista político, ocupamos nos últimos anos a lanterninha da lista de prioridades dos Estados Unidos. Talvez tenha sido culpa nossa: os americanos não costumam perder tempo com o que não consideram importante, quer a gente goste ou não das visões de mundo que eles projetam ou perseguem.
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Talvez o que possa facilitar nossa relação com o presidente Bush, e seu sucessor, e o sucessor de seu sucessor, sejam duas conclusões bastante óbvias. A “subserviência” à qual se referiu Lula é um truque político para tentar reiterar algo que ele não inventou. Ser “anti-americano” é tão burro quanto ser “anti-angolano” ou “antijaponês” ou “anti qualquer um”.

Somos grandes, importantes e laboriosos o suficiente para lidar com os EUA sem esses tipos de preconceitos. Eles são, apenas, símbolo de atraso.