segunda-feira, março 19, 2007

Deu a louca na roleta financeira

José Paulo Kupfer, NoMínimo

O estoque total mundial de ativos financeiros – depósitos bancários, títulos de dívida pública e privada, ações – vem experimentando um crescimento vertiginoso nos últimos 25 anos. Depois da crise de liquidez de 1999, o ritmo de expansão dos ativos financeiros globais ganha contornos alucinantes.

Segundo levantamentos do McKinsey Global Institute, o volume total de ativos globais, que não passava de US$ 12 trilhões, em 1980, chegou a US$ 118 trilhões, em 2003, e voou para US$ 140 trilhões, em 2005. Estimativas indicam que o estoque de ativos financeiros globais poderá alcançar US$ 215 trilhões, em 2010.

É notável o aumento da velocidade de acumulação de ativos financeiros. A média anual do período 1980-2003 foi de US$ 4,4 trilhões. Já entre 2003 e 2005, o acréscimo médio por ano chegou a US$ 11 trilhões. Se confirmada a projeção para 2010, a expansão anual média dos ativos globais terá sido de US$ 15 trilhões.

Não é só a velocidade de acumulação de estoques financeiros globais que assusta. Mais preocupante é o seu progressivo descolamento da economia real – a base, em última análise, dos papéis em circulação. Se em 1980, o estoque de ativos financeiros equivalia à produção mundial, em 2003 já representava três vezes a riqueza líquida produzida no ano e 3,5 vezes, em 2005. Mantido o ritmo, em 2010, o estoque de ativos financeiros será equivalente a mais de quatro vezes a produção mundial.

O fluxo de mercadorias entre os países ficou um anão diante dos volumes movimentados no mercado financeiro global. As finanças estão indo a jato enquanto a produção vai de bonde. O movimento de dez dias no mercado financeiro global é suficiente para igualar o comércio internacional de um ano inteiro.

Trata-se de um jogo de gente grande em que as economias emergentes entram como coadjuvantes. Cerca de 80% dos fluxos de capitais no mundo circulam nos Estados Unidos, Reino Unido e área do euro.

Duas novidades marcam a atual e hiperativa fase do mercado financeiro global. A primeira é que os mercados financeiros privados deixaram de desempenhar o papel ativo que historicamente lhes era reservado no financiamento das economias emergentes. O total das reservas em moeda forte dos emergentes supera em muito as suas dívidas externas. Assim, são os emergentes que passam a financiar os países ricos, em especial os déficits americanos.

A outra é forma encontrada pelo mercado para digerir os impactos do processo de desvalorização dos ativos financeiros, no rastro das crises de liquidez da segunda metade dos anos 90 e, logo em seguida, do estouro da bolha das empresas de tecnologia. Baseada na manutenção de baixas taxas de juros nas áreas monetárias centrais – dólar, euro e iene – a estratégia estimulou os investidores a correr riscos crescentes em mercados mais vulneráveis e amplificou os movimentos especulativos e passou a potencializar os desequilíbrios financeiros globais.

Os soluços que o mercado passou a dar, a partir de fins de fevereiro, parecem indicar que a bicicleta que começou a ser pedalada com o uso de recursos de curto prazo tomados a juros baixos e aplicados em ativos de maior risco e rendimento – o chamado carry trade – ganhou velocidade. O diabo é que ela só tende a parar quando se chocar contra o muro, num autêntico crash.

Seria mais prudente intensificar a discussão do rearranjo das finanças internacionais. Mas, mesmo com os sinais recentes, este ainda é um tema fora de moda. E nem a experiência histórica, repleta de estouros em ambientes parecidos com o atual, comove os donos do dinheiro, seus operadores e propagandistas. Eles parecem aquele otimista da anedota que, ao despencar do vigésimo andar do prédio, comentou ao passar pelo décimo andar: “até aqui, tudo bem”.