sexta-feira, abril 20, 2007

Alguém precisa explicar-lhe

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Atacou novamente o presidente Lula, esta semana, ao criticar pela milésima vez os meios de comunicação, que em suas palavras só divulgam coisas más e omitem as coisas boas. Condenou o que chamou de generalizações perigosas, pois, quando a imprensa denuncia a existência de um deputado corrupto, dá a impressão de todo o Congresso ser corrupto, o que não corresponde à realidade.

No cerne dessa nova confusão feita pelo presidente está sua reação ao chamado noticiário policial. Ele não entende por que os jornais e os telejornais dedicam tanto espaço e tempo aos crimes mais recentes, acontecidos na véspera ou no próprio dia, com ferimentos e mortes causados por balas perdidas, assaltos e seqüestros, sem a contrapartida de que milhões estão trabalhando, não foram seqüestrados, nem assaltados, muito menos atingidos por balas perdidas.

Mídia é pautada pelo inusitado
Agora que o governo dispõe de um novo ministro-secretário de Comunicação Social, o competente Franklin Martins, quem sabe Lula acabe convencido de que a mídia, pelo menos nas democracias, é pautada pelo inusitado. Pelo que acontece de diferente na sociedade, tanto faz se através de notícias "boas" ou "más". Até porque, quando o PT era oposição, as notícias "boas" eram as "más", capazes de incrementar a ação política do partido e ganhar eleições, como ganharam.

Tivesse o chefe do governo a possibilidade de entrar na máquina do tempo e aterrissar, por exemplo, na União Soviética dos tempos de Stalin, ficaria surpreso e indignado com as manchetes e o noticiário do "Pravda", que em meio a crises, desastres e violência registrados no mundo e no país dedicava-se a exaltar a magnífica colheita de batatas daquele ano ou abria suas colunas para registrar as mensagens de solidariedade dos Partidos Comunistas amigos ao guia genial dos povos. Para ficar na outra face da moeda, que tal lembrar os tempos da ditadura no Brasil, quando a censura proibia informações sobre o surto de meningite que matava gente aos montes, ou vetava menções a Juscelino Kubitschek, D. Helder Câmara e muitos outros?

Seria útil se Franklin Martins convencesse o presidente de que quando um cachorro morde um homem não é notícia, a menos se tiver sido um pitbull estraçalhando uma criança. Já quando um homem morde um cachorro... Se os aviões estivessem saindo no horário, o fato não mereceria sequer uma nota de pé de página, mas se o caos é estabelecido nos aeroportos, dá manchetes e fotografias. Agora, como estamos no Brasil, e as concepções presidenciais continuam singulares, quem sabe se aproxime o tempo em que as notícias "boas" venham a merecer grande destaque? Porque logo representarão o inusitado, o anormal, tendo em vista a avalanche de notícias "más"...

Deus nos livre, mas pode estar próximo o dia de um jornal estampar na primeira página que "um determinado cidadão conseguiu trafegar do Rio a Salvador, em seu carro, sem encontrar buraco nas rodovias". Ou que um telejornal chamará a atenção para o fato de que, "ontem, ninguém morreu vitimado por balas perdidas".

Acresce estar S. Exa. sendo injusto para com a mídia amiga e amestrada (royalties para mestre Helio Fernandes). Ou a sociedade não acaba de ser bombardeada com centenas de informações sobre sua popularidade ter crescido?

Coincidência?
Apenas esta semana assistimos a nada menos do que 21 ações violentas do MST e do Movimento dos Sem-Teto. Ocupação de propriedades produtivas e assalto a repartições públicas urbanas pelos sem-terra e fechamento de ruas, além de invasão de prédios abandonados por seus primos. Alguém concluirá tratar-se de mera coincidência, de simples acaso gerado pelo desespero de multidões carentes?

Infelizmente, e mesmo com toda razão de protestar, os cidadãos sem moradia nem chão para cultivar estão extrapolando. Não dá para aceitar que não se trate de uma ação coordenada entre todos os movimentos e até suas dissidências. Que tipo de tolerância deve ser concedida aos grupos revoltados? Botar a polícia em cima deles não resolve, nem haveria cadeia em condições de abrigar tanta gente. A médio e longo prazos, a solução seria implementar a reforma agrária e adotar plano habitacional imediato, mas a curto prazo, fazer o quê?

Instrumentos de informação o governo dispõe. Não seria difícil identificar o que os líderes vêm tramando, tomando-se como correta a determinação de não permitir a baderna. Afinal, o maior prejudicado é o cidadão, a quem cabe ao Estado proteger. Se descerem um mínimo ao fundo poço, concluirão todos estar em curso uma ação desagregadora do poder público. Uma provocação que, por maiores justificativas que possua, contraria os princípios da vida em sociedade.