Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
PARIS - Daqui de cima, Maria Antonieta disse que se o povo não tinha pão comesse brioche. Também não havia brioche para comer. Comeram o reino dela, o pescoço dela, do marido dela, da família dela. Só restou o rei sobre seu cavalo, na frente do palácio. E a névoa desmanchando a tarde e compondo a noite, como o tempo que desmanchou a eternidade deles. Há muitos anos, já lá se vão mais de 50, sempre que volto a Paris venho a Versailles. Foi aqui que tudo começou. Foi aqui que a revolução francesa fez com sangue o parto da democracia. O mundo deve muito ao pescoço dela.
Do alto dessas janelas que vêem o infinito sobre os jardins desenhados e lagos mansos, bosques em pé e campos deitados, Luís XVI e Maria Antonieta jamais imaginaram que um dia tudo isso ia se acabar como se acabou: levando seus divinos pescoços. Em frente ao palácio, dois prédios solenes: um era a estrebaria do rei, o outro a estrebaria da rainha. Lá ficavam seus cavalos e éguas. O povo, longe.
Universidade
Era aqui o "chateau" onde o rei e a rainha passavam os fins de semana, as férias, e, quando começou a revolução, se escondiam da fúria do povo. No outono passado, não havia este sol de luminosa primavera. A tarde estava coberta por uma bruma fria que descia sobre as árvores secas. De quando em quando, uma folha caía devagar, como uma nobre lágrima dourada.
As alamedas enevoadas cheias de faróis acesos e turistas encapotados. Só faltavam mesmo, aqui, nos salões, quartos, pátios e corredores imensos, eles, os reis e seus nobres de roupas complicadas e cabelos encaracolados. Isto aqui é uma universidade do poder. Ninguém, por mais poderoso, é divino e eterno. Quem derrubou o rei também pensou que era.
Robespierre
Robespierre, 30 anos, furioso à frente das multidões, proclamou-se "pontífice do Ser Supremo", vestiu uma bata longa, cintilante, pôs um barrete frígio, de cardeal, e desfilou em Paris à frente de todos. Nas mãos, rosas e espigas, como em um gala-gay. E de 24 de outubro de 1793 a 27 de junho de 1794, oito meses, Robespierre cortou a cabeça, na guilhotina, de 2.596 pessoas. Só em Paris. No interior, outro tanto. Até que cortaram a dele também.
É um engano pensar que só nascem tiranos nas tiranias. Nas democracias, também. O grego Sófocles, 500 anos antes de Cristo, avisou, no "Édipo rei", que "o tirano nasce do ventre da insolência e não sai do poder pela própria vontade". O russo Dostoievski, que sofreu a tirania nos grilhões da "casa dos mortos", a prisão da Sibéria onde esteve preso e estive visitando, ensinou que "a tirania a tal ponto se dilata que acaba virando doença".
Mais perto de nós, Bolívar, herói da unidade sul-americana, avisou: "Nada é tão perigoso como deixar um cidadão permanecer no poder por muito tempo. O povo acostuma-se a obedecer e ele a mandar, de onde se originam a usurpação e a tirania"'.
Sarkozy
Domingo, a França elege seu novo presidente: mandato de cinco anos (já foram sete) com direito à reeleição. Aparentemente, não há risco. O francês já tem o couro bem curtido de impérios, bonapartismos, dominações e tiranias.
Entre doze, os quatro candidatos que disputam dois lugares no segundo turno podem levar a eleição aos mais inesperados e disparatados resultados. Nicolas Sarkozy, até há pouco durão e temido ministro do Interior, candidato da direita, do governo e do presidente Chirac, continua à frente das pesquisas, em torno de 28%. Ségolene Royal, do Partido Socialista, deputada da esquerda, auxiliar de Mitterrand, 24%. François Bayrou, do "centro liberal", 18%. E Jean Marie Le Pen, o tarado da extrema-direita, que quer enforcar o último imigrante africano com as tripas do último imigrante árabe, 15%.
Le Pen
O perigo mora aí. Nas últimas eleições, Le Pen superou o socialista Jospin, foi para o segundo turno e a França, assustada, reelegeu Chirac. Agora, ninguém aqui imagina Le Pen no segundo turno. É evidente que ele apoiaria Sarkozy. Juntos, só os dois fariam 45%. É quase uma eleição ganha.
O cortiça Bayrou, boiando no centro, é o mistério. Pelas pesquisas, se fosse para o segundo turno, derrotaria todos. Se não, e o mais provável é que não vá, para onde iriam seus votos? Para a esquerda, elegeria Ségolene. Para a direita, garantiria Sarkozy. Mas quem iria cobrar caro o apoio seria Le Pen. Como seria um governo Sarkozy, com a participação forte de Le Pen?
Ségolene
Já se foi o tempo em que a Soborne, "Le Monde", "Figaro", as elites "superiores", a classe média escolarizada e bem informada, decidiam eleições aqui. Hoje, quem elege são os "banlieues", as periferias empobrecidas, os quarteirões entupidos de imigrantes africanos, árabes, latino-americanos.
Por isso, a campanha é feita sobretudo para "o homem comum", o povo. Os candidatos adaptam a linguagem para falarem ao "homem comum". A velha esquerda, que comandava esses votos liderada pelo poderoso Partido Comunista, e acabava apoiando o Partido Socialista, em 74 tinha mais de 30%. Hoje, junta, não faz 10%. Ségolene ficou só e Sarkozy-Le Pen ameaçam.
PARIS - Daqui de cima, Maria Antonieta disse que se o povo não tinha pão comesse brioche. Também não havia brioche para comer. Comeram o reino dela, o pescoço dela, do marido dela, da família dela. Só restou o rei sobre seu cavalo, na frente do palácio. E a névoa desmanchando a tarde e compondo a noite, como o tempo que desmanchou a eternidade deles. Há muitos anos, já lá se vão mais de 50, sempre que volto a Paris venho a Versailles. Foi aqui que tudo começou. Foi aqui que a revolução francesa fez com sangue o parto da democracia. O mundo deve muito ao pescoço dela.
Do alto dessas janelas que vêem o infinito sobre os jardins desenhados e lagos mansos, bosques em pé e campos deitados, Luís XVI e Maria Antonieta jamais imaginaram que um dia tudo isso ia se acabar como se acabou: levando seus divinos pescoços. Em frente ao palácio, dois prédios solenes: um era a estrebaria do rei, o outro a estrebaria da rainha. Lá ficavam seus cavalos e éguas. O povo, longe.
Universidade
Era aqui o "chateau" onde o rei e a rainha passavam os fins de semana, as férias, e, quando começou a revolução, se escondiam da fúria do povo. No outono passado, não havia este sol de luminosa primavera. A tarde estava coberta por uma bruma fria que descia sobre as árvores secas. De quando em quando, uma folha caía devagar, como uma nobre lágrima dourada.
As alamedas enevoadas cheias de faróis acesos e turistas encapotados. Só faltavam mesmo, aqui, nos salões, quartos, pátios e corredores imensos, eles, os reis e seus nobres de roupas complicadas e cabelos encaracolados. Isto aqui é uma universidade do poder. Ninguém, por mais poderoso, é divino e eterno. Quem derrubou o rei também pensou que era.
Robespierre
Robespierre, 30 anos, furioso à frente das multidões, proclamou-se "pontífice do Ser Supremo", vestiu uma bata longa, cintilante, pôs um barrete frígio, de cardeal, e desfilou em Paris à frente de todos. Nas mãos, rosas e espigas, como em um gala-gay. E de 24 de outubro de 1793 a 27 de junho de 1794, oito meses, Robespierre cortou a cabeça, na guilhotina, de 2.596 pessoas. Só em Paris. No interior, outro tanto. Até que cortaram a dele também.
É um engano pensar que só nascem tiranos nas tiranias. Nas democracias, também. O grego Sófocles, 500 anos antes de Cristo, avisou, no "Édipo rei", que "o tirano nasce do ventre da insolência e não sai do poder pela própria vontade". O russo Dostoievski, que sofreu a tirania nos grilhões da "casa dos mortos", a prisão da Sibéria onde esteve preso e estive visitando, ensinou que "a tirania a tal ponto se dilata que acaba virando doença".
Mais perto de nós, Bolívar, herói da unidade sul-americana, avisou: "Nada é tão perigoso como deixar um cidadão permanecer no poder por muito tempo. O povo acostuma-se a obedecer e ele a mandar, de onde se originam a usurpação e a tirania"'.
Sarkozy
Domingo, a França elege seu novo presidente: mandato de cinco anos (já foram sete) com direito à reeleição. Aparentemente, não há risco. O francês já tem o couro bem curtido de impérios, bonapartismos, dominações e tiranias.
Entre doze, os quatro candidatos que disputam dois lugares no segundo turno podem levar a eleição aos mais inesperados e disparatados resultados. Nicolas Sarkozy, até há pouco durão e temido ministro do Interior, candidato da direita, do governo e do presidente Chirac, continua à frente das pesquisas, em torno de 28%. Ségolene Royal, do Partido Socialista, deputada da esquerda, auxiliar de Mitterrand, 24%. François Bayrou, do "centro liberal", 18%. E Jean Marie Le Pen, o tarado da extrema-direita, que quer enforcar o último imigrante africano com as tripas do último imigrante árabe, 15%.
Le Pen
O perigo mora aí. Nas últimas eleições, Le Pen superou o socialista Jospin, foi para o segundo turno e a França, assustada, reelegeu Chirac. Agora, ninguém aqui imagina Le Pen no segundo turno. É evidente que ele apoiaria Sarkozy. Juntos, só os dois fariam 45%. É quase uma eleição ganha.
O cortiça Bayrou, boiando no centro, é o mistério. Pelas pesquisas, se fosse para o segundo turno, derrotaria todos. Se não, e o mais provável é que não vá, para onde iriam seus votos? Para a esquerda, elegeria Ségolene. Para a direita, garantiria Sarkozy. Mas quem iria cobrar caro o apoio seria Le Pen. Como seria um governo Sarkozy, com a participação forte de Le Pen?
Ségolene
Já se foi o tempo em que a Soborne, "Le Monde", "Figaro", as elites "superiores", a classe média escolarizada e bem informada, decidiam eleições aqui. Hoje, quem elege são os "banlieues", as periferias empobrecidas, os quarteirões entupidos de imigrantes africanos, árabes, latino-americanos.
Por isso, a campanha é feita sobretudo para "o homem comum", o povo. Os candidatos adaptam a linguagem para falarem ao "homem comum". A velha esquerda, que comandava esses votos liderada pelo poderoso Partido Comunista, e acabava apoiando o Partido Socialista, em 74 tinha mais de 30%. Hoje, junta, não faz 10%. Ségolene ficou só e Sarkozy-Le Pen ameaçam.