sexta-feira, abril 20, 2007

Quase ninguém a favor

José Paulo Kupfer, NoMínimo

As deserções desta vez foram mais significativas. Não são apenas os industrialistas e desenvolvimentistas de sempre, mas gente do mercado financeiro que abandonou o barco do conservadorismo excessivo da política monetária praticada pelo Banco Central. Nem mesmo é gente qualquer do mercado financeiro. Do bloco dos descontentes agora fazem parte economistas com relevante experiência financeira, caso de Edmar Bacha e Ibrahim Eris, entre outros menos votados.

Até mesmo na mesa que decide a taxa básica houve, agora, deserções mais nítidas. A taxa para os próximos 45 dias recuou apenas 0,25 ponto por placar apertado: quatro a três. Está agora em 12,5% nominais ao ano. É a menor taxa básica da história, mas, ainda assim, a mais alta do mundo – cerca de 8,5% em termos reais.

A tradução disso é que, por enquanto, os problemas provocados pelos juros excessivos continuarão. Já as vantagens que eles possam trazer, sobretudo uma inflação no chão e longe do centro da meta, com a inestimável contribuição de um câmbio valorizado também em função dos juros descompassados, faz tempo que foram alcançadas.

Tanto isso é verdade que a notícia da nova taxa, definida no começo da noite de quarta-feira, não mereceu maiores manchetes. Às 21h30, nos grandes portais de notícias, a nova taxa Selic ocupava, quando muito, uma terceira ou quarta chamada. Em alguns casos, não passava de uma linha fina, no pé de uma notícia de economia considerada mais relevante – a escolha do economista Luciano Coutinho para a presidência do BNDES, por exemplo.

Defender a funcionalidade das taxas de juros estabelecidas pelo BC, com base nas vantagens para o controle da inflação é como olhar o azul do céu pelo espelho retrovisor. O que se vê para trás pode agradar tanto à vista que o motorista, distraído, corre sério risco de enfiar o carro no poste ou no precipício à frente.

Ao dificultar crescimento e investimento, taxas de juros fora do lugar desarticulam a economia por diversos caminhos. No curto prazo, o dano mais visível e perigoso é o cambial.

Dá pena de quem ainda se esforça na tentativa de argumentar não haver relação entre o atual nível dos juros e a valorização cambial de longa duração que a política monetária ajuda a perpetuar. O argumento de que a taxa de juros já caiu sete pontos desde meados do ano passado, mas o câmbio teima em continuar seu processo de derretimento só serve para deixar claro que os cortes feitos, nas atuais condições da economia mundial, foram insuficientes.

Em entrevista ao jornalista Sergio Lamucci, do “Valor Econômico”, Ibrahim Eris lembrou dois pontos importantes. Um deles é que os gastos públicos correntes, em alta, contribuem para a valorização cambial, pois o governo gasta muito no mercado interno e importa quase nada. Além disso, até o crescimento brasileiro abaixo do obtido pela economia global pressiona para derrubar o dólar.

Em certas circunstâncias – e o Brasil já as viveu algumas vezes no passado – saldo comercial avantajado é antes sintoma de economia doméstica fraca do que de pujança produtiva. Um mercado interno fraco estimula exportações, visto que vender para o exterior pode ser uma saída a todo custo para a anemia interna. E inibe importações, pois não haverá no mercado interno demanda suficiente para incentivar planos consistentes de importar para aumentar a produção ou de produtos prontos para consumo.

Há situações – como é o caso atual do Brasil – em que uma economia fraca gera uma moeda forte, contrariando o senso comum, segundo o qual moedas fortes refletem economias idem. São cada vez menos, mas ainda há quem, juntamente com o Banco Central, se iluda com isso.