sexta-feira, abril 20, 2007

Psicopatias

Reinaldo Azevedo

A quantidade de besteiras que se produz aqui e alhures – incluindo os EUA – sobre Cho Seung-Hui é impressionante. Nenhum conhecimento se banalizou mais no século passado do que a psicanálise. A perfeita expressão dessa banalização, entre nós, é o famoso “Freud explica”. A maioria das pessoas que fazem esse comentário não sabe quem foi Freud, o que ele fez e por que ele explicaria o que quer que seja.
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O clichê, no entanto, traz embutida uma suposição falsa sobre a psicanálise: a de que ela sempre fornece uma explicação para os atos humanos, a de que podemos sempre ser apresentados à causa original de qualquer ocorrência. É mais uma das ilusões da razão. Misturem-se a essa banalização do “freudismo” as generalizações da psicologia social, sempre empenhada em demonstrar como o meio atua de forma definitiva na escolha dos indivíduos, e se tem um coquetel verdadeiramente explosivo, assassino da inteligência.
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Por que Cho Seung-Hui fez o que fez? Porque era psicopata. E isso não tem cura nem causa conhecida. Vale dizer: Freud não explica. Ninguém explica. A nossa aposta na razão supõe sempre que um conjunto de conhecimentos pode chegar ao “é” da coisa, a seu âmago, para agir de forma preventiva. Não podemos.É o caso de não confundir Cho Seung-Hui com uma modalidade bem brasileira, embora não exclusiva, de assassino em série: os que habitam os morros do Rio ou a periferia de São Paulo. Sem que se descarte a existência de psicopatas nesses lugares, trata-se, no mais das vezes, de crimes ditados pela impunidade, pela frouxidão da repressão e da educação e pela inexistência de estado.Em suma: não há o que fazer contra Cho Seung-Hui. Mas há o que fazer contra Fernandinho Beira-Mar.


Agora é psicanalista?
Ihhh, a petralhada agora deu pra me importunar porque afirmei que psicopata não tem cura: “Agora você é psicanalista também?” Não, é claro. Mas garanto que li mais Freud (o Sigmund; quem reza pela cartilha do outro, o Godoy, é Lula) do que a larga maioria deles. Ora, não acreditem em mim. Perguntem aos especialistas sérios se não estou certo. O que fazer? Não há o que fazer a não ser tirar o doente do convívio social — ou limitá-lo ao menos — quando identificado.Em relação ao Brasil — ou às mortes no Rio —, eu não fiz “paralelo” nenhum. Ou, a rigor, fiz: as paralelas não se encontram, certo? São coisas absolutamente distintas. Chamei atenção para outra coisa: por falta de educação, relaxamento da lei, desídia do estado, muitas pessoas, no Brasil e no mundo, perdem a noção do certo e do errado sem que sejam necessariamente doentes: simplesmente deixam de interiorizar certos valores. Escrevi sobre esse tema na Veja no mês passado. O indivíduo que não acredita em nenhuma forma de “pecado” (e só vai entre aspas porque esse termo vale também para os ateus: que seja o “pecado social” se for o caso) está apto a qualquer coisa. São Paulo, o apóstolo dos gentios, pôs isso de outra maneira. Em termos não literais é o seguinte: nem tudo o que me convém me é permitido. Nem tudo o que concorre para o meu bem-estar momentâneo ou para alcançar meus objetivos me é lícito.
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Ter clareza disso é estar preparado para viver em sociedade. Acima, existe embutida mais do que uma moral individual: existe uma ética. Certos períodos da história são especialmente favoráveis à transgressão. Num país em que, por exemplo, os governantes roubam e dizem fazê-lo para o nosso bem, é claro que se está dando um exemplo. Num país em que o criminoso é bem-sucedido, o crime se mostra um meio eficiente de inserção social e de conquista do poder. Esse país pode ser o Brasil? É claro. Esse país é o Brasil — não só ele, mas também. O que eu disse, em suma, é que nada há a fazer com psicopatas, e há tudo por fazer contra o banditismo, que não é uma psicopatia. Ao contrário até: o Brasil criou o mito do bom bandido, o Anjo dos Morros, o Justiceiro da Periferia. O crime, no país, se torna uma forma de integração, não de marginalização.
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Acho, e vocês sabem disso, que a decadência da cultura religiosa responde em boa parte pela miséria moral brasileira. Se todos interiorizassem o “não matarás”, por exemplo, então não mataríamos. É evidente que a interdição ao homicídio está também nas leis civis, na legislação laica. Mas esta só pode prever a punição social. As leis punem, quando punem, os assassinos que escapam de uma outra forma de interdição — esta, sim, eficiente: a interdição moral.