sexta-feira, abril 20, 2007

Um abismo na insegurança

Pedro do Coutto , Tribuna da Imprensa

A reportagem de Túlio Brandão, "O Globo" de 14/04, focalizando a nova tragédia de Edna Ezequiel, que depois de perder a filha, Alana, durante confronto entre a PM e bandidos, atingida por uma bala sem rumo, revê seu irmão, Hélio José, assassinado num duelo entre grupos rivais de traficantes, reflete o fracasso do sistema de segurança no Rio. Há um abismo à frente de cada um dos 6 milhões de habitantes da cidade. Neste setor vital da vida urbana, o governador Sergio Cabral ainda não encontrou o caminho certo. Comunicação só não basta. As ações concretas são indispensáveis. Tampouco marketing. Ainda não se fizeram sentir.

Para Edna Ezequiel, o raio caiu duas vezes no mesmo lugar no espaço de trinta dias. Morro dos Macacos, Vila Isabel. Ela se tornou um símbolo de sofrimento, vítima do brutal absurdo, como também aconteceu com o menino João Hélio. Seus pais e a mãe de Alana são testemunhas diretas do tempo de cólera em que vivemos.

Reforçando a imagem da tragédia carioca, fundamental também a matéria de Fátima Sá e Fábio Brizolla, "Veja Rio" desta semana, iluminando a trajetória das balas perdidas, que fazem uma vítima por dia na cidade. Com isso, ninguém pode sentir-se seguro. Os disparos podem estar vindo em nossa direção, a qualquer momento. Viver no Rio transformou-se em algo lotérico, como num programa de Silvio Santos, no SBT. Tanto assim que o próprio governador recorreu ao presidente Lula e às Forças Armadas para garantir a ordem, que o sistema estadual não está conseguindo assegurar.

O panorama dramático decorre principalmente de omissões acumuladas nas administrações anteriores, Garotinho, Benedita da Silva, atual secretária de Assistência Social, e Rosinha Mateus. Nesta última, nem Agatha Christie imaginaria tal calamidade: o chefe de Polícia Civil figura entre os acusados, inclusive teve sua própria voz gravada, por uma série de ilegalidades. A Polícia Federal possui as fitas. O delegado Paulo Lacerda, diretor do órgão, montou um dossiê terrível. No governo Rosinha, assinala o "Jornal do Brasil" de 16, três mil integrantes da PM foram desviados de suas funções. O que dizer?

São fatos, todos estes, de conhecimento público, que antecederam a chegada de Sergio Cabral ao Palácio Guanabara, deve-se reconhecer. Mas é igualmente fundamental dizer que ele não está sabendo enfrentar a crise que se projeta e cresce. Esta crise exige liderança efetiva e capacidade de combate administrativo e operacional. O Exército, a Marinha e a Aeronáutica são presenças essenciais no território carioca e fluminense, mas não têm o poder de resolver, como num passe de mágica, a guerra urbana que se desenrola.

Os habitantes do Rio, é lógico, são favoráveis à vinda das Forças Armadas, mas sua concessão, pelo presidente Lula, não é algo que dependa apenas da caneta do Planalto. Pela lei complementar que rege a hipótese, número 97 de junho de 1999, tem que passar pela decisão do ministro Valdir Pires e pela aprovação dos três comandantes militares. Só depender da vontade de Valdir Pires já deve constituir uma odisséia. Ele não consegue resolver nada. No momento em que escrevo o artigo, o desfecho final permanecia no ar.

De qualquer forma, o lance de dados feito por Sergio Cabral é de alto risco. Se o socorro não vier como todos esperamos, ele terá sofrido novo rebate e ficado ainda mais vulnerável do que se encontra. Aliás da mesma maneira que todos nós. A hidra do crime cresceu demais. A PM e a Polícia Civil recebem salários baixíssimos.

Há oito anos não são feitas reposições inflacionárias. Como não pode haver débito sem crédito, ou ação sem reação, princípios insuperáveis, as conseqüências aí estão. Avanço da corrupção, da criminalidade, da violência, resultado de uma conspiração inspirada pelo menos no silêncio e na omissão. O que os governadores Anthony Garotinho, Benedita da Silva e Rosinha Mateus fizeram para evitar que o patamar do medo chegasse ao ponto a que chegou? E o que, no momento, faz o governador Sergio Cabral? É preciso sair da utopia e passar ao plano da realidade. Qual a idéia que possui a respeito da segurança o secretário José Mariano Beltrame? Ainda não se sabe ao certo.

O presidente Lula não deve querer deixar Sergio Cabral sem cobertura política. Mas desejará proporcionar apoio e dividir a responsabilidade? Vai querer participar de um gesto aparentemente heróico? A decisão não é fácil. Provavelmente optará por uma solução de meio termo, como é de seu estilo. Mas isso não resolve. Produzirá apenas um efeito passageiro, sem a profundidade que a grave questão exige. Some-se a tudo isso a ausência, até agora, de um planejamento envolvendo todos os ângulos do problema. Uma descompressão é tão indispensável quanto inadiável. No Rio, de outro lado, não está havendo erro de execução de uma política, está ocorrendo equívoco de concepção.

O confronto direto entre a Polícia Militar e os bandidos está acarretando - como Fátima Sá e Fábio Brizolla comprovaram - a morte de inocentes nas ruas da cidade. Um inocente perder a vida é o que de mais injusto pode acontecer. O sistema policial tem que encontrar outros caminhos para combater o crime. O que foi colocado em prática deixou uma trilha sinistra que leva ao fracasso. Coloca em xeque a posição política do governador e a vida de todos nós. Portanto, não serve.