segunda-feira, maio 07, 2007

Inquietações

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Pressionado pela fina flor do latifúndio, semana passada, em Uberaba, o presidente Lula reconheceu não dispor de condições para implementar a reforma agrária. Falou das dificuldades, que o deixam inquieto tanto pela falta de recursos para as desapropriações quanto pelos reclamos dos sem-terra, muito superiores à capacidade de o governo agir.

Os fazendeiros ficaram satisfeitos, mas o MST, de jeito nenhum. Tanto que a decisão do movimento apareceu no mesmo dia, em reunião de seus dirigentes: o abril vermelho continuará em maio. Novas invasões de propriedades rurais estão sendo programadas para os próximos dias, assim como a ocupação de prédios urbanos onde o Incra funciona, nos estados.

Se o presidente Lula anda inquieto, os sem-terra parecem indignados, dispostos a fazer na marra o que o governo reconhece não poder fazer.

Razões para Simon não presidir o Senado
Num desses períodos em que são escolhidos os presidentes do Senado, de dois em dois anos, perguntaram a Pedro Simon porque não se candidatava. A resposta surpreendeu: "Nem a minha mulher votaria em mim, se fosse senadora..."

Explicou o representante gaúcho que se, por hipótese impossível, viesse a presidir o Senado, mudaria tudo. Para começar, marcaria sessões deliberativas não apenas às segundas e sextas-feiras, mas também aos sábados. Proibiria viagens ao exterior custeadas pela casa e descontaria dos vencimentos dos colegas todas as ausências, exceção àquelas determinadas por motivo de saúde, mas efetivamente comprovadas. Cancelaria as mordomias, de passagens aéreas às verbas para gasolina, para contratar assessores, para moradia e para correspondência. Reduziria o número de veículos oficiais.

Mas tem mais. Simon disse que devolveria ao Palácio do Planalto toda medida provisória que não fosse de evidente caráter urgente e relevante, como determina a Constituição. E não deixaria qualquer votação para o dia seguinte. Jamais o senador presidirá o Senado. Como apenas no final do ano que vem o tema entrará na pauta política, não vale a pena especular sobre a sucessão de Renan Calheiros, mas que já tem gente de olho em sua cadeira, isso tem.

Páreo duro
José Serra e Aécio Neves continuam disputando milímetro a milímetro a futura indicação presidencial pelo PSDB. No mesmo dia em que o governador mineiro defendeu o diálogo da oposição com o governo federal, na presença do presidente Lula, o governador paulista, lá de Washington, onde se encontrava, sustentou não ser atribuição dos estados fazer oposição ao governo federal.

Posicionaram-se, os dois governadores, contra Fernando Henrique Cardoso, voz isolada no ninho dos tucanos, crítico de qualquer aproximação do partido com o governo Lula. Haverá, em Serra e Aécio, uma certa preocupação diante das posições adotadas pelo ex-presidente da República. Indagam-se, ambos, sobre os motivos de tanta intransigência, e a conclusão pode surpreender: estará FHC tentando situar-se como opção sucessória? Idade não parece problema, terá 77 anos em 2010 e logo estará lembrando que Winston Churchill era mais velho quando salvou a Inglaterra. E Nero, como dizia Tancredo Neves, era um garoto quando tocou fogo em Roma...

Os que sabem e os que não sabem
O senador Marco Maciel citou Norberto Bobbio para sustentar que o mundo deixou de dividir-se entre nações ricas e nações pobres, ou nações fortes e nações fracas. Mais aguda é a divisão entre os que sabem e os que não sabem, ou seja, entre as nações onde a educação se desenvolveu e as nações onde a educação deixa a desejar.

O governo federal lançou, dias atrás, um programa para tentar reduzir o atraso brasileiro no setor, mas o problema continua sendo a falta de recursos. O País dispõe de 19 milhões de analfabetos absolutos, mas 40 milhões de cidadãos que só conseguem desenhar o nome, lembrou Marco Maciel.