segunda-feira, maio 07, 2007

Nestlé é contra produção de etanol à base de milho

GENEBRA (Suíça) - O presidente da Nestlé, Peter Brabeck, afirma ser contra a idéia do desenvolvimento dos biocombustíveis nos países ricos como forma de substituir energias fósseis. O executivo da maior empresa de alimentos do mundo e líder no mercado de água tem uma explicação: o etanol feito a partir do milho, como ocorre nos Estados Unidos, exige muita água para sua produção, o que pode gerar outra crise no planeta bem mais grave que a falta de petróleo.

Em uma entrevista publicada no jornal suíço TagesAnzeiger, Brabeck não hesita em questionar o crescente investimento no etanol. Para ele, a água é um recurso natural bem mais valioso que o petróleo e alerta que uma crise para o abastecimento poderá ocorrer em pouco mais de 100 anos. A Nestlé aposta no mercado de água como parte de sua estratégia de venda nos próximos anos e já é líder mundial no setor.

O grupo é proprietário de marcas como Perrier, Vittel e procura oportunidades de negócios em todo o mundo. Neste ano, as vendas em todo o mundo devem superar a marca de US$ 8 bilhões. Brabeck aponta que vários locais de tensão geopolítica começam a surgir por causa da água, como no Oriente Médio. Somado a isso, Brabeck destaca o fato de que, até 2050, a população mundial aumentará em 1,7 bilhão de pessoas, o que deve criar uma pressão ainda maior sobre as reservas de água.

Etanol não faz sentido ecolÓgico
Para ele, portanto, "não há sentido ecológico" em investir em etanol de milho como a solução. "Para produzir um litro de bioetanol (a partir do milho), precisamos de 4,5 mil litros de água. Os proprietários de carros dos países industrializados são subsidiados às custas dos mais pobres", afirma. Ele ainda aponta que, nos últimos meses, o preço de uma tonelada de milho passou de US$ 128,00 para US$ 335,00.

Curiosamente, Brabeck, símbolo para os mais críticos da globalização e das multinacionais, adota uma postura não muito diferente do líder cubano, Fidel Castro, que já havia criticado o uso do milho para o etanol. Na semana passada, tanto a Agência Internacional de Energia como a própria ONU alertaram que o etanol de milho não será sustentável se depender "indefinidamente" de subsídios para sua produção. Brabeck ainda ataca o setor agrícola de ser um dos que mais desperdiça água.

"Se a água tivesse um preço, isso incentivaria a que investimentos fossem feitos no setor de infra-estrutura", afirmou. Para Brabeck, regras de mercado deveriam ser estabelecidas para o uso da água entre agricultores e mesmo para manter uma piscina ou outros usos. Em sua avaliação, o acesso à água deve ser considerado como um direito humano apenas até certo ponto.

Em sua avaliação, o consumo de 25 litros por dia por pessoa seria o suficiente. Na Europa, porém, a média de consumo é de 50 litros. "Encher uma piscina não é um direito humano", ataca.