terça-feira, maio 15, 2007

Marketing descabido ou exemplo a ser seguido

Leandro Mazzini, Jornal do Brasil

Se o projeto Mais que Ouro 2007 fosse uma modalidade olímpica, haveria atleta de sobra para disputar um lugar no pódio, levando-se em conta a disposição dos jovens evangélicos. Mas o que se revela um plano para dar bom exemplo aos cidadãos, pode ser interpretado como jogada de marketing descabida.

- O que se tem, na verdade, não é religião, é um marketing de determinada crença ou proposta - critica o professor Agnaldo Portugal, da UnB, doutor em filosofia da religião. - É o grande mercado da fé, uma disputa por espaço, por "clientes", como qualquer empresa faz.

A estratégia dos evangelizadores pode dar certo, no entanto, segundo Pedro Simões, doutor em sociologia pela UFRJ e pesquisador de assuntos religiosos. Mas sem resultados de imediato, se pensam em conquistar fiéis, acrescenta.

- Quando se cria uma agenda positiva, tem-se a idéia de ampliar o rebanho, não de maneira mercadológica - argumenta Simões. - Com a imagem de "atletas de Cristo", não há conquista de fiéis. Isso apenas sensibiliza a sociedade.

A Coalizão Brasileira de Ministérios Esportivos, entidade que reúne os missionários para o Pan do Rio este ano, sabe em que terreno está pisando. E tem motivos para entrar na disputa com os católicos. Pesquisa Datafolha divulgada semana passada mostrou que a Igreja Católica tem perdido fiéis, sobretudo para os protestantes. Em 10 anos, os católicos diminuíram cerca de 10% no país, com especial destaque para o Estado do Rio e a capital fluminense - onde 30% dos entrevistados se disseram evangélicos, contra 45% de católicos.

O dado pode ser comemorado pelos protestantes, que lideram a lista entre os evangélicos, mas com cautela, dizem os especialistas.

- É difícil avaliar quais conseqüências podem ter eventos como este que vão organizar durante o Pan. É um avanço moral e ético, mas não religioso - comenta Portugal. - É interessante do ponto de vista social, a exemplo dos atos de promoção da paz.

Portugal cita o caso da Igreja Católica. Hoje, o desafio de Bento XVI - e o próprio papa ressalta isso - é manter os católicos, e não conquistar rebanhos a qualquer preço ou com campanhas fervorosas. Entrelinhas, discursar para poucos, mas para aqueles que vão entender a mensagem. Uma ideologia que deve ser seguida pelos evangélicos, na opinião de Portugal.

- Talvez essa expansão numérica possa sair pela culatra. Essa estratégia de divulgação dos evangélicos deve ser feita com calma, para não perderem a qualidade dos fiéis.

Segundo Simões, o movimento durante os jogos pode chamar a atenção mais pelo viés social do que pelo religioso. E esse pode ser o grande trunfo.

- Com essa atitude, eles não conseguem adeptos, mas criam identidade positiva junto à classe média, que olha para os evangélicos como integrantes de uma Igreja vinculada só aos pobres, e não para movimentos mais amplos.